Como eu entendo a direita necessária
por Jorge Ferreira
Já esteve na moda
considerar que a clivagem entre a esquerda e a direita estava
ultrapassada. E, nalguns casos de certas causas pois pode estar. Mas
a diferença está sempre lá, como diferença
muitas vezes oculta, como referencia identitária de lutas e
combates do passado, como lugar mítico até de encontros
e desencontros. Mas, sobretudo, há valores que distinguem e
que no dia-a-dia das decisões políticas no mínimo
as inspiram e no máximo as determinam.
Para lá das polémicas
mais superficiais do momento, é conveniente de vez em quando
parar e reflectir sobre as raízes e as justificações
do combate político. Ao aceitarmos o amável convite da
Alameda Digital para dizer de nossa justiça sobre a direita,
preferimos, por uma vez, tentar explicar como vemos eu a direita
moderna e a direita necessária a Portugal.
O Homem é o princípio
e fim de toda a acção política. Mas, o homem
concreto e não um Homem abstracto que nunca existiu, a não
ser em letais utopias.
Este Homem não é,
por natureza, “bom” como o entende o optimismo antropológico
fundador de todas as utopias de esquerda, ou “mau”, como o
entende o pessimismo antropológico fundador do pensamento
político da velha direita.
Este Homem, que a direita
moderna, no seu realismo antropológico, coloca como princípio
e fim do seu pensamento político não é “bom”
nem “mau”, é o que é, nódulo de contradições
e interesses que fundam a sua grandeza e a sua miséria e que
transformam a sua História num percurso arriscado, longe do
caminhar seguro para as utopias dos vários “amanhãs
que cantam”.
Este homem concreto exprime um
feixe de valores, mas também de direitos essenciais e
liberdades concretas que ultrapassam, em muito, a única
liberdade que hoje lhe é reconhecida entre nós, assim
como na generalidade dos países formalmente democráticos:
a liberdade de voto.
Esses valores, esses direitos e
essas liberdades representam a matriz fundadora do homem que, nascido
na Grécia, lançou as bases da civilização
ocidental na qual nos integramos e que é parte essencial e
insubstituível do nosso património como portugueses.
Do nosso ponto de vista, são
os seguintes os valores mais importantes:
- A exigência consigo próprio e com os outros, por oposição à
desculpabilização como filosofia de vida. O deixa-andar
e a complacência são a receita básica de criação
do pântano.
- A responsabilidade
individual por oposição a uma mística
responsabilidade colectiva. As pessoas são quase sempre
responsáveis pelos seus actos e, sempre, pelo seu destino.
Contra as asserções das escolas sociológicas
dominantes entre nós a Comunidade não é, por
regra e na generalidade dos casos, responsável pelos
comportamentos desviantes dos seus membros. Aos pais, numa primeira
fase da vida e aos próprios, a partir da maioridade, cabem as
responsabilidades pelo cumprimento das regras e das leis que regem
essa mesma comunidade.
- O equilíbrio entre
direitos e deveres por oposição a uma generalizada
concepção do mundo em que os direitos são”
meus” e os deveres do” outro”: A cada direito corresponde
sempre um dever. Uma relação comunitária
pressupõe um balanceamento recíproco de direitos e
deveres. No caso da nossa Constituição: admitindo que o
cidadão tem direito à habitação, ou à
saúde, ou à educação, tem igualmente o
dever de não permitir que sejam outros cidadãos –
excepto em casos limite – a providenciar-lhe essa habitação,
essa saúde ou essa educação.
- Os direitos merecidos por oposição aos “direitos adquiridos” – Há
direitos inatos: que nascem com os homens e são invioláveis.
Em contrapartida, não há direitos adquiridos, mas
direitos merecidos, direitos que todos os dias se jogam, com esforço
e empenho e se ganham enquanto se merecem, se perdem quando se
deixaram de merecer. Direitos adquiridos eternos são sempre
direitos de uns em detrimento dos direitos de outros.
- a convicção da
validade dos padrões consensuais contra o relativismo
ético que está na base da pós-modernidade. A
visão pós-moderna da absoluta relatividade dos valores
e dos comportamentos é lesiva dos interesses de uma comunidade
organizada. A Lei reflecte um certo consenso ético que
estrutura uma sociedade democrática moderna. Os comportamentos
serão claramente certos ou evidentemente errados, e como tal
julgados, à luz desses padrões éticos e
jurídicos.
Deste conjunto de valores
resultam, a nosso ver, como direitos essenciais, os seguintes:
- O direito à
Liberdade como pedra angular dos direitos fundamentais. O homem é
livre de ser desigual contra a tirania das ideologias igualitárias;
é livre de dispor de si, ou dos seus bens, da forma que melhor
lhe aprouver; livre de exigir ao Estado, a qualquer Estado, que não
pretenda saber, melhor do que ele próprio, aquilo que a si
mais lhe convém.
- o direito à
propriedade privada, que se tem vindo a degradar ao longo dos
anos, todos os dias minado pela sobrevivência cultural e
sociológica do marxismo. É sintomático que o
direito à propriedade privada não seja um dos direitos,
liberdades e garantias previstos na Constituição,
contrariamente ao que se passa com outros direitos de muito menor
dignidade.
- o direito à
liberdade contratual: é urgente recolocar no âmago
do Direito o princípio da liberdade de contratar. Cada um deve
ser livre de contratar o que quiser, com quem quiser e da forma que
quiser. É uma condição essencial da liberdade,
no sentido da possibilidade de cada um dispor de si próprio –
e de tudo o que é seu – como muito bem entender.
- o direito à
presunção de boa-fé. Há que adoptar a
premissa, subjacente a toda a organização dos Estados
anglo-saxónicos e à sua relação com os
cidadãos de que estes, até prova em contrário,
agem de boa-fé. Com a óbvia contrapartida de que,
provado não ser esse o caso, dever a punição ser
exemplar, para que possa ser verdadeiramente dissuasória.
- o princípio dos direitos simétricos à igualdade e à diferença entre os homens. Os homens nascem iguais em direitos e deveres,
diferentes e diversos em tudo o mais. É nesse direito à
igualdade – e no concomitante direito à diferença –
que se alicerça a sua dignidade humana. É
responsabilidade do Estado garantir ambos os direitos.
- o direito a leis simples e claras. Leis poucas e boas como defendeu Sólon, que era
sábio entre os sábios. É a única forma do
cidadão comum poder ter uma ideia do que lhe é
permitido e do que lhe é vedado; de facilitar a tarefa dos
juízes e de criar uma menor dependência do cidadão
em relação ao conjunto da máquina judiciária.
Urge uma gigantesca tarefa de despoluição legislativa.
- um Direito comum ao Estado
e aos cidadãos: o Estado deve reger-se pelos mesmos
princípios e pelas mesmas leis e responder perante os mesmos
tribunais que regem e julgam as instituições e as
pessoas privadas.
É este homem, feixe de
valores, de direitos, de deveres e de liberdades que se deverá
constituir como elemento essencial do pensamento político de
uma Direita moderna, bem como de qualquer projecto político
que desse pensamento decorra.
A diferença entre os
homens é o motor da História. Essa diferença,
sendo de base genética, traduz-se pelo ordenamento de culturas
e tradições diversas. E é do diálogo
entre essas culturas e tradições diversas e, dentro de
cada uma delas, entre homens diversos que surge a inovação,
base da evolução da humanidade.
A Nação é
um veículo privilegiado de integração numa
tradição e numa cultura, por um lado, e de criação
de capacidades de inovação, por outro. O homem
“humaniza-se”, verdadeiramente, pela intermediação
da nação. Sem a intermediação da nação,
o homem massifica-se, unidimensionaliza-se, igualitariza-se. Num
mundo onde essa intermediação não existisse,
toda a inovação tenderia a desaparecer. Um mundo
globalizado, é a vida. Um mundo massificado, é a morte.
O Homem é o princípio
e fim da actividade política. Mas entendemos que esse Homem
não é, não poderá ser, um ser massificado
e unidimensionalizado, mas um indivíduo integrado num quadro
de referências, numa tradição e numa história,
como garantia da sua individualidade, da sua identidade e, assim, da
sua capacidade para desenvolver, de forma efectiva, eficaz e útil,
para ele e para todos os demais, a sua actividade num mundo cada vez
mais global e “plano”.
A Nação funciona,
para nós, como entidade facilitadora e integradora do seu
desenvolvimento e da sua acção. Uma nação
que se poderá definir como uma comunidade de sangue, de terra,
de bens e de destino, reunindo os homens que, entre si, possuem
vínculos históricos, culturais e linguísticos. O
homem desenraizado é infinitamente frágil. A nação
é, ou deverá ser, para cada homem, uma retaguarda
segura, uma vantagem competitiva no mundo global. E quanto mais forte
essa nação, mais aumenta a capacidade competitiva do
homem nesse mundo global. |