Notas
avulsas e Direitas polémicas
por Pedro Guedes da Silva
I.
Muitas Direitas
Por
muito que isso não agrade aos mais reputados pensadores das
direitas que o sistema aceita, a verdade inquestionável é
que aquilo a que chamamos direita está muito longe de ser uma
realidade uniforme. Com efeito, entre as direitas podemos considerar
dois ou três pontos de contacto – um certo pessimismo
antropológico, a valorização da independência
nacional, a recusa de mitos igualitários e uma dose razoável
de realismo político - e pouco mais (para não mencionar
alguns contextos em que a história provou que nada unia “as
direitas”). Tenha-se então, como ponto de partida, a
capacidade de dar por válida a resposta de Prezzolini na Intervista sulla Destra em que considera poder apenas
falar-se do “conjunto das Direitas, das que recordámos e
das que esquecemos”.
II.
Direitas por caricatura
Um
dos pressupostos que devemos considerar é o de que quem
determina as classificações políticas –
fazendo-o, vai para quatro décadas, com especial severidade -
é justamente a esquerda, a mesma esquerda que controla a
comunicação social e os meios académicos e intelectuais. Sucede que, tendo essa nomenklatura a
capacidade de filtrar a opinião publicada e sendo certo que o
que se toma como centro está cada vez mais à esquerda,
a direita que não se importa de o continuar a ser ou não
se publica ou, em aparecendo, vem rotulada de extrema-direita,
quando a não apelidam de coisa pior. Daqui decorre que a
Direita permitida pelo mainstream sistémico mais não
é do que uma caricatura do que deveria ser, com a agravante de
que os grandes teóricos dessa mesma Direita com acesso à
comunicação mais não fazem do que apagar
memórias e olvidar referências. E daí a
acompanharem as agendas e os temas que aproveitam àqueles que
deveriam ser os seus adversários políticos vai
uma distância menor do que a que separa Vila Verde de Ficalho
de Rosal de la Frontera – ainda para mais nestes tempos em que,
como é sabido, as fronteiras já não existem.
Alguns, como já chegaram mesmo a assumir publicamente,
gostariam inclusivamente de ser de Esquerda, não se sentindo
cómodos nas vestes que era suposto representarem. E assim
estamos.
III.
Uma Direita que não caiu do céu
Não
haverá Direita – qualquer que ela seja - sem memória
histórica, sem referências estéticas, literárias
e artísticas, sem heranças políticas. Isso não
significa, pelo contrário, que se pretenda (re)viver o
impossível, restaurando a Europa
anterior à Revolução Francesa ou voltando aos
tempos em que se afixavam grandes teorias em jornais de parede.
Significa, isso sim, que a Fidelidade vai sendo um valor em baixa na
actual cotação do mercado, embora seja suposto
caracterizar os Homens de Bem. É nesse quadro que, sem
extremismo algum e com absoluta abertura, me sinto
herdeiro dessa enorme grandeza de espírito de Rodrigo Emílio,
não renegando influências políticas e estéticas
de gente tão diversa como Sardinha, Almeida Braga, Pimenta,
José Agostinho de Macedo, Frei Fortunato de S. Boaventura,
António Ferro, Manuel Maria Múrias, etc. – para citar
os “nossos” – gente que no meu quadro de referências
convive de braço dado e sem qualquer problema com Corção,
Lefébvre, Maurras, Drieu, Brasillach, Rebatet, Pound, Primo
de Rivera, Gentile, D’Annunzio, Evola, Almirante, Sima e tutti
quanti. Aliás, tenho para mim o que segue: por mais pesada
que fosse a herança – e não é! – a solução
não seria nunca empurrar Brasillach para debaixo do tapete,
mas antes mostrar e demonstrar que o que a opinião hoje
publicada dele diz e escreve é, essencialmente, uma
aldrabice.
IV.
Uma Direita Nacional
Assumidas
as referências, que uma coisa, ao menos uma, fique clara: uma
Direita portuguesa nacional, social e popular com cabeça,
coluna, tronco e membros não precisa de ir buscar nada lá
fora. Temos cá de tudo, já produzimos de tudo – de
tradicionalistas a futuristas – e sempre com qualidade
assinalável. Uma coisa são as referências, outra
são as importações. E importar o que não
se nos aplica é um erro tremendo, tanto mais grave na medida
em que o realismo político que deve ser característica
da direita não o aconselha.
V.
Uma Direita actual mas coerente
Nada
do que atrás se disse – basicamente de que ninguém
nasceu de geração espontânea – belisca a tese
essencial: a de que o mundo não caminha em marcha-atrás.
Uma direita para o século XXI é forçosamente uma
direita que fale para o mundo e para as gentes de hoje, com mulheres
e homens de hoje e que seja capaz de dar respostas para os problemas
com que se debatem os nossos contemporâneos. Tudo o mais é
folclore.
Ora,
esta verdade insofismável versando a necessidade de permanente
actualização doutrinária comporta aquilo a que
chamo o “risco Fini” (que retomarei adiante). Sendo necessário
modernizar, mostrando-se essencial reapontar discursos e baterias,
não é de todo necessário apagar tudo o que ficou
para trás mesmo nos casos em que o postulado mantém
total actualidade. Dito de outro modo e a título de exemplo:
se a resposta ao problema cada vez mais visível do crescente
endividamento das famílias exige abordagens e respostas
inovadoras, não é por isso que nos encontraremos
forçados a fazer ruir toda a cosmovisão que nos moldou.
Ou ainda: o aborto não deixa de ser um crime tremendo apenas
porque nos últimos anos temos sido assolados – dizem alguns
– pelos efeitos decorrentes do aquecimento global… Tais
transformações tão absolutas como desnecessárias
são um atropelo à memória de quantos connosco
acamaradaram e se bateram desinteressadamente durante décadas
por teses que a dado passo sufragámos.
VI.
O poder a qualquer preço
O
“caso MSI” é nesse aspecto toda uma lição.
Nos primeiros anos da década de 90, Gianfranco Fini resolveu
liquidar um dos mais importantes e interessantes partidos da cena
europeia do pós-guerra (o Movimento Sociale Italiano –
Destra Nazionale), mudando-lhe a face, a denominação e
as convicções, em nome de uma moção de
estratégia que garantia ser esse o caminho mais curto para
chegar ao poder. Por paradoxal que pareça, doze anos passados,
teve razão e não teve. É um facto que chegou ao
poder, embora em coligação e por pouco tempo, mas não
deixa de ser verdade que teve em mãos meia dúzia de
pastas ministeriais em que, sob a tutela de Berlusconi, colocou em
prática exactamente o contrário do que defendeu durante
cinquenta anos. A Aliança Nacional de Gianfranco Fini herdou o
mais importante partido europeu assumidamente anti-sistema para o
desfazer enquanto tal em pouco tempo; herdou mais de 40% dos votos em
Roma e Nápoles, números que nunca mais veio a repetir;
herdou comunidades militantes locais que desbaratou em dois ou três
anos. De caminho – e salvo o irrelevante - não ficou nada da
doutrina inicial. Ora, a vertigem da cavalgada do poder a qualquer
preço mostrou-se assim fatal para o projecto político
de Giorgio Almirante, o “inventor” de Fini que era ao mesmo tempo
um mestre na arte de federar direitas que à partida se
mostravam difíceis de unir.
Em todo o caso, se me parece que o
“modelo Fini” é um equívoco lamentável, não
deixo de considerar que a tal ligação intensiva ao
mundo real que na altura arrebatou tantos congressistas é
imperiosa. Considero, isso sim, que a ideologia não pode ser
simplesmente eliminada para que atrapalhe menos, como se verificou no
caso italiano. Pelo contrário, ela deve estar sempre presente
funcionando como ponto de partida e referência de valores
perenes, para que não se venham a transformar projectos
políticos globais e sustentáveis em meros “populismos”
de ocasião, balões de encher e esvaziar ao sabor das
urnas e que doutrinariamente acabam por não ser nada – a não
ser a outra face do ”modelo Fini”. Mais grave que, para cúmulo,
este tipo de “populismos” (habitualmente monotemáticos e
por isso relativamente fáceis de anular) tendam a atrair gente
que se vai revendo na caricatura que deles faz o sistema, ao invés
de se sentirem próximos de princípios fundacionais -
que entretanto já foram eliminados.
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