A Direita portuguesa, uma direita "britânica" ?
por Miguel Castelo Branco
A utilidade das generalizações tipológicas reside no facto de
atentarem apenas nas linhas de força e nos contornos, escondendo a
riqueza e multiplicidade de aspectos, as especificidades e
idiossincracias. Se a este afã domesticador, se se terraplanarem
(minimizando-os ou, quantas vezes, esquecendo-os) aspectos epocais,
locais, sociais, individuais e factuais, as ideias surgem com
magnífica universalidade mas não resistem a uma acareação documental.
A história das ideias políticas vive, assim, em permanente tensão
entre o que estas supostamente unem e recobrem e o metatexto histórico
nacional em que se enxertam; ou seja, tudo o que existe de específico
do meio.
O problema da sistematização/ arrumação/ catalogação das direitas
padece desse problema, o qual se revela mais agudo em países cuja
adaptação à contemporaneidade se realizou por mimetismo, importação e
por vezes cópia apressada. Vivendo Portugal e a Espanha em regime
desigual de trocas culturais com a Europa, as soit disant direitas
ibéricas Oitocentistas e Novecentistas não reproduzem, na genealogia,
no carácter e comportamentos as direitas francesas. Assim, e ao
contrário do que pensarão [mal] algumas pessoas, a tipologia das
direitas [francesas] proposta por René Rémond (direita
legitimista, direita bonapartista, direita orleanista) exprime a
realidade histórica francesa na transição do Antigo Regime - fundado
na soberania real - para o novo regime saído da Revolução e das
constituições (1789, 1793, Constituição do ano XII da era napoleónica,
Carta de 1830, Constituição de 1848, Constituição napoleónica de 1852,
Constituição republicana de 1875), as quais plasmam a transição da
soberania nacional (Liberalismo) para a soberania popular
(Democracia). Sentindo a incompletude desta arrumação - que deixava de
fora os fascismos - pensaram alguns introduzir-lhe o conceito de
"direita revolucionária" retirado do clássico Ni Droite, ni gauche , de Zeev Sternhell. Ora, essa direita revolucionária, saída do
casamento do socialismo com o nacionalismo, parece ter, também, e
apenas, legibilidade francesa, dado Sternhell acentuar a prioridade
francesa na génese e sedimentação de ideias e programas conducentes ao
nascimento da ideologia fascista.
Presos à tradição continental do francesismo e ao mito da sua
universalidade, deixados de fora ficaram os autores de língua inglesa,
à cabeça dos quais se encontra, evidentemente, Edmund Burke. Contudo,
importa referi-lo, Burke não era um desconhecido entre os portugueses,
conhecendo-se-lhe uma curiosa antologia de textos recolhida por
António Maria Lisboa, editada em 1812 no Rio de Janeiro sob o título
Extractos das Obras Políticas e Económicas de Edmundo Burke. A
tradição conservadora britânica, contudo, identifica-se mais com o
caso português, porquanto, se bem que distintas no percurso, as
"direitas" portuguesa e britânica sempre fizeram finca-pé na
importância da tradição das constituições históricas e das liberdades
para contestarem os fumos e abstracções da revolução de 1789. Ambas, a
portuguesa como a britânica, foram buscar à Idade Média as ideias de
pacto, de soberania partilhada e de recusa do centralismo (absolutista
como bonapartista), o múnus da sua oposição, primeiro ao Liberalismo,
depois à democracia.
Lendo os contra-revolucionários lusos Frei Fortunato de São
Boaventura, José Agostinho de Macedo e Faustino José da Madre de Deus,
o registo parece muito francês à Bonald, à Chateaubriand e à De
Maistre: condenação da revolução, encarada como obra do demónio,
proclamação da união entre o Trono e o Altar, defesa das liberdades
corporativas e regionais, defesa de uma monarquia tradicional.
Contudo, se os panfletários e publicistas contra-revolucionários se
ficaram pela defesa de algo que nunca existira, ou que há muito fora
posto em causa pelo nascimento do Estado Moderno, coube a Burke, sem
violência adjectivadora, apresentar uma via oposta à da revolução
francesa: a via da tradição.
Eventualmente, também Maurras, mesmo que seguindo o filão
metodológico do positivismo, terá sido tributário inconsciente ou
envergonhado dessa forte marca de carácter do conservadorismo
britânico. O que não será, então, o Integralismo Lusitano senão uma
leitura portuguesa de uma perspectiva britânica traduzida para francês
e adaptada ao legitimismo Franco? Seguindo esta hipótese, talvez
ganhe justo e pleno sentido a invocação do pensamento e obra de José
Adelino Maltez , cujo extenso trabalho em torno da tradição
política portuguesa - anti-maquiavélica, anti-estatista, ciosa das
liberdades locais, sociais e individuais, anti-soberanista - nos
aproxima tanto, de 1363 aos conimbricenses, das preocupações que
animam o conservadorismo inglês ? Aqui está um trabalho por fazer, mas
que explica, por exemplo, a inexistência de um pensamento fascista
português.
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(1) Rémond, Réne. Les Droites en France. Paris : Aubier-Flammarion, 1982
(2) Sternhell, Zeev. Ni droite, ni gauche : L'Idéologie fasciste
en France. Paris : Éditions du Seuil, 1983
(3) Maltez, José Adelino. Sobre Ciência política. Lisboa: ISCSP, 1996 |