A
direita que não quer ser
por Manuel Azinhal
Aceitando
os dados oferecidos pela experiência histórica, é
forçoso constatar que a direita existe. Tem existido sempre,
na vida política contemporânea, uma esquerda que se
identifica e uma direita identificável. Pese embora a
frequente ausência de autoidentificação, esta é
geralmente encontrável e localizável, em cada
confrontação política.
Penso
por isso que, ainda que não diga o nome, parece não
suscitar dúvidas a sua existência – com o respeito
devido aos que já explicaram que ela não existe.
Já
quanto aos que sustentaram que a direita é uma invenção
da esquerda, desde que com isso não se entenda a falta da sua
existência real parece-me mais difícil negar-lhes
significativa razão.
Efectivamente,
pode observar-se que a direita não gosta de ser, e nunca
gostou.
Esse
facto aliás esteve na origem da tese de um politólogo
que já foi célebre segundo o qual se um indivíduo
diz que não é de direita nem de esquerda podemos ficar
certos que é de extrema-direita. A dupla negação
traduz a identidade.
Tanto
entre os que teorizaram a inexistência da direita (gente
firmemente direitista), como entre os que defenderam que a direita
foi inventada pela esquerda (pessoal não menos direitista),
como entre os que concluíram que a negação da
dicotomia esquerda-direita era a essência do direitismo
(intelectuais de esquerda) o que se nota é que a direita
resiste ao rótulo, foge à identificação,
recusa a definição e a identidade.
Pode
realmente ter-se por fundamentalmente correcto que a direita teve
geralmente a sua situação determinada a partir da
esquerda.
A
direita é em geral a não-esquerda, não se
assume, disfarça-se de centro, às vezes diz-se o
centro-direita, e no tempo comum encolhe-se e esconde-se.
Consequentemente,
nada tem de estranho que habitualmente a direita apareça como
reacção. São as ideias e as iniciativas da
esquerda que assinalam esta e é a sua rejeição
que demarca a direita.
Este
fenómeno implica uma extraordinária debilidade no
confronto político.
Fazer
política é uma actividade em que uns quantos que estão
convencidos forcejam por convencer os que não têm as
suas convicções, e na sua esmagadora maioria não
têm convicção nenhuma.
Quem
se apresenta ao debate afirmativo, seguro, firme, vivendo a sua
verdade, leva vantagem.
Ora
a esquerda apresenta-se forte na sua identidade, de bandeira erguida,
orgulhosa de ser, proclamando as suas ideias e avançando nos
seus planos políticos.
E
a direita surge geralmente atrasada, contrafeita, a fazer o
contraponto – e sem ousar dizer o nome. Opõe-se, mas não
passa de ser oposição. Aparece para dizer não,
muitas vezes quando é insustentável persistir no sim,
mas geralmente fica-se por aí. Não raras vezes a
direita acaba por chegar ao poder; mas quase sempre porque a inépcia
e as asneiras da esquerda comprometem o exercício a que esta
se lançou.
Fica
então a direita temporariamente a gerir o que a esquerda lhe
deixa, umas vezes mal e outras vezes pior. Porém, a
superioridade da esquerda, a sua famosa superioridade moral,
permanece intocada. O que se conclui nessas ocasiões é
que a esquerda é necessariamente boa, e generosa, tem as
melhores ideias e excelente coração, mas não
sabe gerir. Pensa bem, mas gere mal. E a direita cala e consente: vai
gerindo. Até os desastres da esquerda. Algum tempo depois,
repete-se o ciclo. A esquerda regressa e a direita reage, aflita e a
correr atrás dos acontecimentos.
A
falta de autoestima e de consciência de si tem ainda outras
consequências curiosas.
Por
exemplo, impressiona ver como tantas vezes as organizações
políticas de direita insistem enfaticamente logo na sua
apresentação em afirmar que são algo de
radicalmente novo, rejeitando qualquer ligação a formas
e modelos passados. Com essa atitude não são os do
passado que perdem, são os do presente que se encontram
subitamente num processo político que é cumulativo,
feito de aquisições sucessivas, de evoluções
e transformações, e em que tudo o que existe hoje está
em relação com o que existiu ontem - mas esbracejando
para negar influências, heranças, continuidades.
Vão
tão longe na sua teimosa originalidade que estão
sistematicamente a partir do zero, a arrancar do nada. Com a
preocupação de não imitar, parece até que
se negam a aprender.
A
esquerda ostenta a sua história e genealogia, exibindo-as em
tons épicos e heróicos – mesmo que seja preciso
inventá-las ou pintá-las a gosto.
A
direita esquece e esconde, na tentativa de se demarcar do passado e
aparecer sem carga histórica – deixando à esquerda o
domínio do passado e da história.
E
o pior é que desse impulso de autonegação tem
resultado um verdadeiro desconhecimento de si. A direita, que deveria
ser forte em história, em raízes e memórias,
apresenta-se hoje no terreno político, não raramente,
despida de referências, de ideias, de fundamentos. Vai pelo
imediatismo, pelo que está a dar, mobiliza-se pelo
circunstancial.
Como
é lógico, desse modo pode às vezes apanhar uma
boa onda e ter o seu momento, mas inevitavelmente a onda desfaz-se e
o momento passa. E não fica nada.
Outro
fenómeno curioso que radica na mesma vontade de não ser
é a extraordinária propensão da direita para o
que Molnar chamou “o falso herói contra-revolucionário”.
É realmente espantoso observar a facilidade com que as
direitas na história se aprestaram em levar às costas
personagens que patentemente reuniam todos os requisitos para
comprometer as suas causas e princípios – só porque
na aparência exterior, por uma ou outra característica,
na pose ou na oratória, ostentavam algum traço grato à
sensibilidade e à estética direitista.
Apesar
das repetições amargas, a tendência para o “falso
herói” persiste inalterável - desde que pareça
ser, há fortes probabilidades de ser aceite como sendo, por
muitos que o lamentarão depois por muitos e amargos anos (a
direita diz-se com muita frequência traída, depois de
ter feito o que era preciso para tal).
Perguntarão
os leitores onde pretendo chegar com estas considerações
mal alinhavadas. Obviamente, como calculam, é na direita
portuguesa que estou a pensar, mesmo quando o discurso divaga. Dizer
que a conheço bem, não seria verdade. Os apontados
hábitos de ocultação são por cá
mais fortes ainda do que em outros lugares. Aqui, por atavismo
entranhado, até a política é sentida como coisa
vergonhosa e a evitar. Políticos são só os
outros. Com isso de não nos metermos em política até
assistimos ao insólito de um regime que perdurou mais de 40
anos com geral agrado e aceitação não ter na
altura da sua queda nenhum defensor ou partidário (nem mesmo
entre os seus ministros). Ora quem de fazer política faz
cruzes de ser de direita benze-se e arrenega.
Não
é possível, portanto, avaliar com nitidez o que seja a
direita em Portugal actualmente, e onde estará ela, e qual a
sua força, e qual o seu futuro. Uma vez admitido que existe,
ela andará por aí, provavelmente disfarçada com
outros nomes e outros rostos. Com a confusão não se
pode saber o que é autêntico e o que é
fingimento.
Confesso-me
por tudo incapaz de análises e prognósticos, e
frustrado por essa confessada incapacidade. Mas um axioma me parece
seguro, e dele tenho a certeza. Deixo-o aqui sintetizado e
sublinhado, para que seja tido em conta na hora de se pensar em algum
futuro para a direita.
É
este:
O
primeiro passo para ser é realmente querer ser. |