| Editorial
por Carlos Bobone
Esquerda e direita.
Esta fórmula tão cómoda para ordenar ideologias,
pressupondo a existência de um ponto geométrico à
volta do qual se definem as alianças e as oposições,
desde cedo revelou a sua dupla face: por um lado o poder de sedução,
que a transportou a latitudes muito distantes da política
parlamentar onde nascera, tornando-a um dado constante na explicação
de quase todos os conflitos humanos. Por outro lado, o carácter
esquivo a definições rigorosas, que possam conferir
sólida consistência a estes conceitos. Em meados do
século XIX, os autores do primeiro Dicionário Político
que se publicou em França declararam fora de uso, inúteis
e obsoletos os conceitos de direita e esquerda. Já não
serviam para descrever as forças em presença na vida
política europeia. Mas era tarde para descartar estas
etiquetas. Uma vasta literatura, na Europa e na América,
tinha-se apoderado delas e detectara nos mais diferentes ramos da
actividade social o antagonismo das esquerdas com as direitas, desde
os espirituais domínios da religião até às
mais terrenas explorações da ciência, sem
esquecer a arte, a moral, a psicologia, a pedagogia e tantos outros.
Uma tão ampla
extensão dos conceitos de direita e esquerda parece indicar
que se descobriu uma oposição fundamental da natureza
humana, duas forças que se combatem no interior do homem, e
assim sendo o seu alcance e significado deveriam reconhecer-se com
facilidade em todas as actividades sociais. Mas quando se tenta
definir o cerne da oposição entre os dois princípios,
o ponto à volta do qual tudo ganha significado e cor
ideológica, entra-se num terreno sumamente obscuro, complexo e
recheado de contradições.
O problema não
consiste apenas em descobrir a questão essencial que empurra
para um ou outro lado dela as duas metades do género humano.
Cada grupo ideológico soube explicar que tudo se reduz a um
confronto entre a verdade e o erro. Disse-o com tocante franqueza a
filósofa Simone de Beauvoir: “A verdade é una; o
erro múltiplo. Não é por acaso que a direita
professa o pluralismo”. De forma mais ou menos subtil, o que
procuraram os ideólogos de um e de outro lado foi apontar uma
verdade fundamental e a heresia que se lhe opõe, construindo
depois todo o mapa ideológico à volta desta definição.
Mas além disto é preciso encontrar também os
laços de união que ligam cada família política
aos combates desenrolados noutras esferas de actividade e noutros
tempos.
O cidadão dotado
de consciência ideológica sabe que o seu direitismo ou o
seu esquerdismo não é uma escolha ditada por simpatias
momentâneas e específicas, mas um compromisso com causas
que possuem fundas raízes culturais. A esquerda e a direita,
em cada ocasião de choque sentem estar a reviver um antigo
combate, a reinterpretar um velho papel, achando-se solidários
com as esquerdas e direitas de outros tempos e lugares. Nos conflitos
de outras eras procura-se detectar um antagonismo essencial, de
natureza semelhante à das modernas divisões políticas.
Por isso todos os
partidos concentram boa parte do esforço teórico que
produzem na descrição da sua família cultural.
Aqui também encontramos um terreno minado pelas simpatias
particulares. A direita clássica, nos países católicos,
apontou constantemente os fortes laços de comunhão
entre o pensamento protestante e os ideais da Revolução
Francesa. A direita maurrassiana acrescentava à família
revolucionária o romantismo, definindo as duas grandes
linhagens culturais segundo os seus afectos e desafectos privados: o
tradicionalismo era a forma genuinamente francesa, latina, clássica
e católica de pensar, enquanto o liberalismo correspondia ao
pensamento protestante, germânico, judaico e romântico.
Um presidente dos conservadores britânicos, por seu lado,
encontrava o padrão da atitude conservadora nas figuras
históricas que em momentos de derrocada das civilizações
resistem ao cepticismo ou à sedução das teorias
passageiras, mantendo-se, sem vacilações, confiantes no
valor eterno da fé em que foram criados. O autor do Salmo 119,
com o seu hino à fonte de verdade eterna e imutável,
era para ele o conservador típico. Mas poderia ter encontrado
exemplos da mesma fidelidade a “imortais princípios” no
campo adverso às ideias conservadoras.
A aproximação
a um retrato da direita pode experimentar-se examinando os pontos de
vista de amigos e inimigos, e até a dos neutros, se os houver.
Olhando a imagem que projecta para o exterior e o interior espera-se
que se revele algum ponto comum e constante, que será talvez a
verdadeira essência do direitismo.
Começando pelo
exterior, e descartando tudo o que seja mero ataque insultuoso,
devemos reconhecer que entre a massa da propaganda progressista
algumas investidas sobressaíram pela vontade de atingir o
âmago do pensamento de direita, recorrendo a textos originais,
citando fontes, manejando conceitos que por aqui encontraram. Alguns
destes textos fizeram a reputação de filósofos
como Julian Benda (“A Traição dos Intelectuais”) ou
Wilhelm Reich (“A Psicologia de Massas do Fascismo”). Mas apesar
do esforço desenvolvido não se chega a uma imagem
consistente da direita. Tão depressa encontramos o retrato de
um conjunto de inadaptados, incapazes de aprenderem com os
acontecimentos, obstinadamente agarrados a ideais de outros tempos e
vivendo num mundo irreal, paralisados pela fidelidade a uma ordem que
já não volta mais, como damos de caras com a
escandalizada denúncia dos maiores oportunistas da história,
conformados com os males do mundo, aderentes aos factos concretos,
insistindo numa imagem realista do homem tal como é e não
como deveria ser, descartando sem sombra de idealismo ou de utopia as
esperanças de aperfeiçoamento do género humano.
Passando a uma esfera
menos emotiva, se quisermos tirar proveito da reflexão que as
ciências sociais produziram sobre esta matéria,
encontramos luminosos contributos em várias árias,
geralmente produzidos sob a inspiração da ideia de
progresso contínuo da humanidade. As teses que beneficiaram de
mais amplo acolhimento foram as que encontraram as motivações
da direita na psicologia ou no interesse de classe.
A tese psicológica
tenta definir o tipo do direitista como aquele que é
intrinsecamente, constitucionalmente, pela sua própria
natureza, avesso a qualquer tipo de mudança. O conservador
mergulharia as suas raízes na própria origem da
humanidade e os dois tipos de homens, o esquerdista e o direitista,
seriam os elementos básicos de qualquer sociedade, o elemento
estático e o elemento dinâmico, descritos pela teoria
positivista Desde princípios do século XIX encontramos
esta tese acolhida na poesia de Vítor Hugo, na filosofia de
Emerson, na sociologia de Comte, ou seja, nas plumas de todos aqueles
que tentam explicar os conflitos sociais com o recurso a este esquema
simples: a esquerda faz avançar a sociedade e a direita, por
um reflexo congénito, irracional, desenvolve o inglório
esforço de travar o progresso.
A tese da luta de
classes, tão famosa desde meados do século XIX,
apresenta uma perspectiva inteiramente oposta à da tese
psicológica Aqui o direitista é o mais racional de
todos os agentes políticos. A sua oposição aos
princípios revolucionários não tem ligação
alguma a motivações ocultas ou inconscientes. Significa
apenas que possui a nítida consciência da ameaça
que estes representam para os seus interesses. Sendo a história
da humanidade uma contínua sucessão de classes
dominantes e dominadas, cada classe é
revolucionária-esquerdista antes de alcançar o poder e
conservadora- direitista depois de o conquistar. O esquerdismo e o
direitismo não são, pois, ideologias ou aspirações
com uma consistência fixa, mas atitudes a que recorrem as
classes sociaisà medida das suas conveniências. Existe,
no entanto, um elemento constante nas relações entre as
direitas e esquerdas que se sucedem durante o processo histórico.
As direitas procuram, em geral, na filosofia idealista a justificação
para a continuidade do seu poder, enquanto as forças
revolucionárias encontram inspiração nas
doutrinas materialistas.
Entrando, finalmente,
nesse espaço largo e de contornos indefinidos que é a
direita, encontramos também um amplo leque de concepções
sobre o que a define e o que a opõe às
esquerdas. Cada uma concebe a seu modo a grande fractura ideológica,
e é nestas diferentes concepções que encontramos
a característica saliente de cada uma das famílias que
habitam a direita.
A direita clássica,
contra-revolucionária, sempre se apresentou como a
restauradora do equilíbrio natural das sociedades, da forma de
organização social ditada pelo jogo das forças
que brotam expontâneamente em cada nação ao longo
da história, vendo o seu contrário na defesa de formas
de organização social inteiramente concebidas nas
cabeças dos filósofos, fórmulas abstractas com a
ambição de serem aplicadas a todas as nações
em qualquer tempo ou lugar.
A direita conservadora
vê-se como a depositária da prudência e do
senso-comum nas relações sociais, a força que
combina harmoniosamente as noções de ordem e progresso,
que faz da manutenção dos valores do passado o ponto de
partida para a aquisição de novas vantagens sociais,
seguindo a lição de Edmund Burke, para quem o conceito
de herança resumia um bom princípio de filosofia
social: a herança é um património com que se
começa a vida, podendo acrescentar-se com outros valores. Por
isso o progresso deve ser cumulativo e não revolucionário.
A direita liberal tem
os seus valores ligados à propriedade privada e à
economia de mercado, devendo a sua instalação na casa
comum da direita ao combate que trava contra o socialismo.
A direita esotérica,
que goza de certo acolhimento fora da sua família política,
vê no mundo moderno a degradação da arte de viver
tradicional, a perda de uma sabedoria primordial e a emergência
do “reino da quantidade” que vem substituir o antigo “reino da
qualidade”. E encara-se como a guardiã dos segredos
iniciáticos que devem ser transmitidos às gerações
vindouras para elas restaurarem a sociedade hierárquica e
sagrada.
É natural que se
possa encontrar um traço de união entre todas estas
formas de ser da direita, mas a variedade é uma das grandes
riquezas desta família que não tem nem a pretensão
nem a possibilidade de constituir uma frente comum reunindo liberais,
conservadores, nacionalistas, fascistas, tradicionalistas e
esoteristas. |