Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
Editorial

por Carlos Bobone

Esquerda e direita. Esta fórmula tão cómoda para ordenar ideologias, pressupondo a existência de um ponto geométrico à volta do qual se definem as alianças e as oposições, desde cedo revelou a sua dupla face: por um lado o poder de sedução, que a transportou a latitudes muito distantes da política parlamentar onde nascera, tornando-a um dado constante na explicação de quase todos os conflitos humanos. Por outro lado, o carácter esquivo a definições rigorosas, que possam conferir sólida consistência a estes conceitos. Em meados do século XIX, os autores do primeiro Dicionário Político que se publicou em França declararam fora de uso, inúteis e obsoletos os conceitos de direita e esquerda. Já não serviam para descrever as forças em presença na vida política europeia. Mas era tarde para descartar estas etiquetas. Uma vasta literatura, na Europa e na América, tinha-se apoderado delas e detectara nos mais diferentes ramos da actividade social o antagonismo das esquerdas com as direitas, desde os espirituais domínios da religião até às mais terrenas explorações da ciência, sem esquecer a arte, a moral, a psicologia, a pedagogia e tantos outros.

Uma tão ampla extensão dos conceitos de direita e esquerda parece indicar que se descobriu uma oposição fundamental da natureza humana, duas forças que se combatem no interior do homem, e assim sendo o seu alcance e significado deveriam reconhecer-se com facilidade em todas as actividades sociais. Mas quando se tenta definir o cerne da oposição entre os dois princípios, o ponto à volta do qual tudo ganha significado e cor ideológica, entra-se num terreno sumamente obscuro, complexo e recheado de contradições.

O problema não consiste apenas em descobrir a questão essencial que empurra para um ou outro lado dela as duas metades do género humano. Cada grupo ideológico soube explicar que tudo se reduz a um confronto entre a verdade e o erro. Disse-o com tocante franqueza a filósofa Simone de Beauvoir: “A verdade é una; o erro múltiplo. Não é por acaso que a direita professa o pluralismo”. De forma mais ou menos subtil, o que procuraram os ideólogos de um e de outro lado foi apontar uma verdade fundamental e a heresia que se lhe opõe, construindo depois todo o mapa ideológico à volta desta definição. Mas além disto é preciso encontrar também os laços de união que ligam cada família política aos combates desenrolados noutras esferas de actividade e noutros tempos.

O cidadão dotado de consciência ideológica sabe que o seu direitismo ou o seu esquerdismo não é uma escolha ditada por simpatias momentâneas e específicas, mas um compromisso com causas que possuem fundas raízes culturais. A esquerda e a direita, em cada ocasião de choque sentem estar a reviver um antigo combate, a reinterpretar um velho papel, achando-se solidários com as esquerdas e direitas de outros tempos e lugares. Nos conflitos de outras eras procura-se detectar um antagonismo essencial, de natureza semelhante à das modernas divisões políticas.

Por isso todos os partidos concentram boa parte do esforço teórico que produzem na descrição da sua família cultural. Aqui também encontramos um terreno minado pelas simpatias particulares. A direita clássica, nos países católicos, apontou constantemente os fortes laços de comunhão entre o pensamento protestante e os ideais da Revolução Francesa. A direita maurrassiana acrescentava à família revolucionária o romantismo, definindo as duas grandes linhagens culturais segundo os seus afectos e desafectos privados: o tradicionalismo era a forma genuinamente francesa, latina, clássica e católica de pensar, enquanto o liberalismo correspondia ao pensamento protestante, germânico, judaico e romântico. Um presidente dos conservadores britânicos, por seu lado, encontrava o padrão da atitude conservadora nas figuras históricas que em momentos de derrocada das civilizações resistem ao cepticismo ou à sedução das teorias passageiras, mantendo-se, sem vacilações, confiantes no valor eterno da fé em que foram criados. O autor do Salmo 119, com o seu hino à fonte de verdade eterna e imutável, era para ele o conservador típico. Mas poderia ter encontrado exemplos da mesma fidelidade a “imortais princípios” no campo adverso às ideias conservadoras.

A aproximação a um retrato da direita pode experimentar-se examinando os pontos de vista de amigos e inimigos, e até a dos neutros, se os houver. Olhando a imagem que projecta para o exterior e o interior espera-se que se revele algum ponto comum e constante, que será talvez a verdadeira essência do direitismo.

Começando pelo exterior, e descartando tudo o que seja mero ataque insultuoso, devemos reconhecer que entre a massa da propaganda progressista algumas investidas sobressaíram pela vontade de atingir o âmago do pensamento de direita, recorrendo a textos originais, citando fontes, manejando conceitos que por aqui encontraram. Alguns destes textos fizeram a reputação de filósofos como Julian Benda (“A Traição dos Intelectuais”) ou Wilhelm Reich (“A Psicologia de Massas do Fascismo”). Mas apesar do esforço desenvolvido não se chega a uma imagem consistente da direita. Tão depressa encontramos o retrato de um conjunto de inadaptados, incapazes de aprenderem com os acontecimentos, obstinadamente agarrados a ideais de outros tempos e vivendo num mundo irreal, paralisados pela fidelidade a uma ordem que já não volta mais, como damos de caras com a escandalizada denúncia dos maiores oportunistas da história, conformados com os males do mundo, aderentes aos factos concretos, insistindo numa imagem realista do homem tal como é e não como deveria ser, descartando sem sombra de idealismo ou de utopia as esperanças de aperfeiçoamento do género humano.

Passando a uma esfera menos emotiva, se quisermos tirar proveito da reflexão que as ciências sociais produziram sobre esta matéria, encontramos luminosos contributos em várias árias, geralmente produzidos sob a inspiração da ideia de progresso contínuo da humanidade. As teses que beneficiaram de mais amplo acolhimento foram as que encontraram as motivações da direita na psicologia ou no interesse de classe.

A tese psicológica tenta definir o tipo do direitista como aquele que é intrinsecamente, constitucionalmente, pela sua própria natureza, avesso a qualquer tipo de mudança. O conservador mergulharia as suas raízes na própria origem da humanidade e os dois tipos de homens, o esquerdista e o direitista, seriam os elementos básicos de qualquer sociedade, o elemento estático e o elemento dinâmico, descritos pela teoria positivista Desde princípios do século XIX encontramos esta tese acolhida na poesia de Vítor Hugo, na filosofia de Emerson, na sociologia de Comte, ou seja, nas plumas de todos aqueles que tentam explicar os conflitos sociais com o recurso a este esquema simples: a esquerda faz avançar a sociedade e a direita, por um reflexo congénito, irracional, desenvolve o inglório esforço de travar o progresso.

A tese da luta de classes, tão famosa desde meados do século XIX, apresenta uma perspectiva inteiramente oposta à da tese psicológica Aqui o direitista é o mais racional de todos os agentes políticos. A sua oposição aos princípios revolucionários não tem ligação alguma a motivações ocultas ou inconscientes. Significa apenas que possui a nítida consciência da ameaça que estes representam para os seus interesses. Sendo a história da humanidade uma contínua sucessão de classes dominantes e dominadas, cada classe é revolucionária-esquerdista antes de alcançar o poder e conservadora- direitista depois de o conquistar. O esquerdismo e o direitismo não são, pois, ideologias ou aspirações com uma consistência fixa, mas atitudes a que recorrem as classes sociaisà medida das suas conveniências. Existe, no entanto, um elemento constante nas relações entre as direitas e esquerdas que se sucedem durante o processo histórico. As direitas procuram, em geral, na filosofia idealista a justificação para a continuidade do seu poder, enquanto as forças revolucionárias encontram inspiração nas doutrinas materialistas.

Entrando, finalmente, nesse espaço largo e de contornos indefinidos que é a direita, encontramos também um amplo leque de concepções sobre o que a define e o que a opõe às esquerdas. Cada uma concebe a seu modo a grande fractura ideológica, e é nestas diferentes concepções que encontramos a característica saliente de cada uma das famílias que habitam a direita.

A direita clássica, contra-revolucionária, sempre se apresentou como a restauradora do equilíbrio natural das sociedades, da forma de organização social ditada pelo jogo das forças que brotam expontâneamente em cada nação ao longo da história, vendo o seu contrário na defesa de formas de organização social inteiramente concebidas nas cabeças dos filósofos, fórmulas abstractas com a ambição de serem aplicadas a todas as nações em qualquer tempo ou lugar.

A direita conservadora vê-se como a depositária da prudência e do senso-comum nas relações sociais, a força que combina harmoniosamente as noções de ordem e progresso, que faz da manutenção dos valores do passado o ponto de partida para a aquisição de novas vantagens sociais, seguindo a lição de Edmund Burke, para quem o conceito de herança resumia um bom princípio de filosofia social: a herança é um património com que se começa a vida, podendo acrescentar-se com outros valores. Por isso o progresso deve ser cumulativo e não revolucionário.

A direita liberal tem os seus valores ligados à propriedade privada e à economia de mercado, devendo a sua instalação na casa comum da direita ao combate que trava contra o socialismo.

A direita esotérica, que goza de certo acolhimento fora da sua família política, vê no mundo moderno a degradação da arte de viver tradicional, a perda de uma sabedoria primordial e a emergência do “reino da quantidade” que vem substituir o antigo “reino da qualidade”. E encara-se como a guardiã dos segredos iniciáticos que devem ser transmitidos às gerações vindouras para elas restaurarem a sociedade hierárquica e sagrada.

É natural que se possa encontrar um traço de união entre todas estas formas de ser da direita, mas a variedade é uma das grandes riquezas desta família que não tem nem a pretensão nem a possibilidade de constituir uma frente comum reunindo liberais, conservadores, nacionalistas, fascistas, tradicionalistas e esoteristas.

   
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