Exercício Contra-Revolucionário
por Mário Casa-Nova Martins
A Monarquia do Norte
Admirável coisa esta de defender causas
vencidas, homens vencidos, sobre que as vagas alterosas da Vitória
passam, altaneiras e invencíveis! Com essa defesa, não
se colhem bens, nem louros; colhem-se antes desgostos e lágrimas.
Mas fica-nos a consciência tão límpida como água
que brota de rocha virgem...
A palavra revolução foi,
originalmente, um termo astronómico que ganhou importância
crescente nas ciências naturais através do De
Revolutionibus Orbium Coelestium de Copérnico . O
conceito de Revolução indica sobretudo processos
complexos de transformação radical das estruturas da
sociedade . A Tradição, suporte da sociedade
anterior nos seus aspectos político, económico, social
e religioso, sofre um corte epistemológico, dando origem a uma
nova ordem de valores que forçosamente entram em confronto,
senão mesmo em oposição, com o passado.
Encontram-se exemplos desta situação em 1789, com a
Revolução Francesa, em 1910, com a Revolução
Republicana Portuguesa, ou com a Revolução Bolchevique
Russa, em 1917. Evidentemente que todos estes acontecimentos foram
antecedidos por uma doutrinação que virá
posteriormente a servir de suporte, de legitimação,
para os actos revolucionários. Porquê não
lembrar, no caso português, a importância dos Estrangeirados e das Lojas Maçónicas,
primeiro no apoio a Junot , mais tarde no desenvolvimento e
suporte da situação surgida depois de 1820?
Após cada Revolução há
sempre elementos da sociedade que reagem às rupturas naturais
que com o desenvolvimento temporal desta vão surgindo, quer
com o desmantelar de estruturas que funcionavam como suporte do status anterior, quer pela introdução de novas
situações, violentas porque novas, brutais porque
violentam práticas por vezes consuetudinárias. Surge,
assim, uma produção doutrinária, que vai
combater excessos e erros que a nova situação gerou, ou
vai gerando. A essa literatura se chama contra-revolucionária,
no sentido em que está contra, que combate a Revolução,
mas não no sentido de defender um regresso à situação
anterior, um regresso ao passado, como por vezes certa république
des lettres fez por afirmar, mas sim para formular as suas
próprias teorias políticas. Em diferentes épocas
e países têm surgido verdadeiros pensadores
contra-revolucionários: um Edmund Burke em Inglaterra, cuja
obra Reflections on the Revolution in France (1790) é
ainda hoje o manual contra-revolucionário da Revolução
Francesa, José de Gama e Castro, em Portugal, com a sua obra
principal O Novo Príncipe ou o Espírito dos Governos
Monarchicos (1856), Charles Maurras e L' Enquête sur la
Monarchie (1901), em França, Alexander Soljénitsyne, Coment Réaménager notre Russie? (1990), na
Rússia.
Não se pode correctamente falar de uma doutrina
contra-revolucionária, mas há um conjunto de aspectos
comuns nas obras destes pensadores, que devido à sua
intrínseca coerência podem ser considerados, ou
funcionar como princípios. A Religião, nas suas
diferentes formas, constitui um património e é
detentora de uma Moral, de um complexo sistema de valores e de normas
de conduta que formam como que a génese da própria
sociedade. Como escrevia Joseph de Maistre, sem a Religião o
Homem não terá Culto, nem Moral, nem Governo . A
ideia de Nação aparece e triunfa com o grande movimento
romântico, com « o desenvolvimento da poética do
sentimento e da imaginação, que reage contra esquemas
racionalistas » como ensina Federico Chabod . O espírito
dá a ideia de uma Nação, mas o que faz a sua
força sentimental é a comunidade dos sonhos . A
Nação representa uma unidade cultural, um passado
comum, tradições e mundivisões muito integradas
e de aspirações semelhantes . Para estes pensadores
a Nação não é a forma acabada do quadro
existencial das comunidades humanas, não é defendida
como algo dogmático, imutável, mas sim como a forma
natural mais capaz de criar os alicerces de uma organização
mundial estável e duradoura . O Estado é a Nação
politicamente organizada. Este enunciado parte da própria
interpretação do conceito de Nação e está
intimamente ligada à natureza orgânica da Sociedade.
Consistia a intenção principal em provar que a natureza
orgânica das Sociedades se opõe à Revolução
enquanto destruição brutal da vida nacional, ou seja da
harmonia que liga a Comunidade ao Cidadão, o Governo à
Nação, o Passado ao Presente, a História ao
Futuro . A Sociedade tem um desenvolvimento próprio, um
caminhar estável e o papel do governo e da lei é não
perturbar esse ritmo, essa liberdade na diversidade e independência
do Cidadão.
No Declínio do Ocidente, Oswald Spengler
escrevia que «um partido não é um produto natural
de uma raça mas um agregado de cérebros». Os
partidos só surgem nos períodos de declínio,
porque são fenómenos urbanos. O campo está
afastado destes movimentos, também não os quer
entender, no fundo sabe que a terra é a depositária da
Tradição, e que quando a crise estiver no limiar da
ruptura, a cidade ter-lhe-á que pedir ajuda. A Nação
não é uma entidade divisível, pelo que o povo se
diferencia em função da sua profissão, dos seu
interesses, formando classes, que são móveis no sentido
em que o desenvolvimento histórico das Sociedades permite a
transferência de umas para outras, mas sem pôr em causa o
equilíbrio da própria Sociedade, ao contrário da
função do partido político, visto se mover
apenas no campo de grupos de pressão, ou associações
de interesses financeiros e outros. Onde todos os homens querem
dominar com vontades iguais e forças desiguais, é
necessário que um único homem domine ou todos se
destruam . E esse homem será de natureza providencial,
aquele que irá no momento mais crítico da Nação
uni-la, conduzi-la pelo seu exemplo estóico e ao mesmo tempo
espartano, no caminho da segurança e do desenvolvimento
harmonioso de todos os seu órgãos.
Fabrício Corbera, Príncipe de Salina ouviu
Tancredo dizer que «se queremos que tudo fique como está
é preciso que tudo mude» . Esta ideia de um certo
imobilismo, uma ausência de dinâmica social, pode em
alguns aspectos caracterizar uma Sociedade Contra-Revolucionária.
Leva a que doses de má consciência, produzidas pela
dificuldade de compreender o carácter de inovação
contínua, os novos instrumentos típicos da organização
moderna, tornem os seus regimes fracos e precários, sendo, na
sua essência, estes regimes inspirados por um conjunto vigoroso
de princípios políticos correctos .
*
Propomo-nos considerar primeiro os elementos do nosso
assunto isoladamente, depois cada ramificação ou parte
e, por fim, o conjunto, em todas as suas relações -
portanto, avançar do simples para o complexo .
O 5 de Outubro de 1910 foi uma Revolução
no sentido clássico do termo. Os alicerces da sociedade
anterior foram substituídos: o regime monárquico pelo
regime republicano; o estado de matriz católica, por um estado
laico. Dá-se uma alteração de mentalidades, de
conservadora para revolucionária, uma nova produção
cultural, assumindo posições de ruptura, muito
acentuada na Escola. Surge uma nova classe política, uma nova
hierarquia militar, novos privilégios, uma substituição
do velho pelo novo. Ao longo do primeiro octaetéride
a sociedade portuguesa viveu em contínuo estado
revolucionário, com vários movimentos de restauração
monárquica, e movimentos de avanço e recuo das reformas
revolucionárias, e em ambos os casos saídas de
militares dos quartéis e quedas de governos. Nestes anos, o
que foi instituído por uma revolução não
conseguiu sociologicamente consolidar uma base homogénea de
apoio!
Entre as 23h 30m de 14 de Dezembro de 1918 e o início
da tarde do domingo, 19 de Janeiro de 1919, Portugal viveu dias em
que todo o tipo de emoções atingiram níveis de
exacerbação incontroláveis. O 19 de Janeiro foi
a consequência natural e lógica do malogro do sidonismo,
determinado pelo assassinato do heróico e malaventurado
Presidente, em 14 de Dezembro de 1918 . Henrique de Paiva
Couceiro defende que após o sidonismo se desenvolva um
movimento restauracionista, onde a ideia de plebiscito vigorasse.
Seria o retomar da legalidade contra a revolução .
Porém, a marcha vertiginosa dos acontecimentos e as indicações
do representante do verdadeiro líder deste movimento, D.
Manuel II , levam à restauração da
monarquia, um regresso aos mesmos princípios e orientações
anteriores a 5 de Outubro de 1910 .
Todo o processo restauracionista, todo o processo contra
a revolução, segue os seus trâmites normais.
Paiva Couceiro ao prestar juramento afirma que a causa da Religião
é a Causa da Pátria . E, enquanto estes
acontecimentos simbólicos decorrem a cidade do Porto aceitou o facto consumado e tanto que não houve perturbação
da ordem, não se registou qualquer protesto violento ou sem
violência, os espectáculos realizaram-se, o povo
divertiu-se, as tropas marcharam, em várias evoluções,
pelas ruas, bandeira azul e branca desfraldada ao vento e as bandas
marciais entoando o hino da Carta . A Restauração é
a Tradição que se reata, o Passado que ressurge ! A
19 de Janeiro de 1919 Henrique de Paiva Couceiro, de acordo com as
Juntas Militares do Norte, restaura no Porto a Monarquia. É
ele próprio quem dirige a Junta Governativa, constituída
por Luís de Magalhães, o Conde de Azevedo, o Visconde
do Banho, Solari Alegro. A 22, Aires de Ornelas, João de
Azevedo Coutinho e outros chefes realistas de Lisboa proclamam também
a Monarquia e conduzem um núcleo de tropas para o alto de
Monsanto. Mas hesitam em ocupar a cidade - que sem defesa os aguarda
- e dão tempo ao Governo para mobilizarem as suas forças
e levantar de novo em armas o «povo republicano», isto é,
os revolucionários civis de 5 de Outubro e de 14 de Maio. A 24
rendem-se os monárquicos de Monsanto. A 13 de Fevereiro,
depois de vários combates, rendem-se os do Porto, onde é
restabelecida a República.
____________________________
(1) Pimenta, Alfredo - Três Verdades Vencidas,
pág 68
(2) Arendt, Hannah - On Revolution, pág 42
(3) Mourão, Artur - Logos IV, verb. Revolução,
pág 753
(4) Siebertz, Paul - D. Miguel e a Sua Época,
pág 26
(5) Molnar, Thomas - The Counter-Revolution, pág
67
(6) Maistre, Joshep de - Textes Choisis, pág
152
(7) Pinto, J. Nogueira e A. Marques Bessa -
Introdução à Política, pág 136
(8) Malraux, André - Tentation de l' Occident,
pág 87
(9) Pinto, J. Nogueira e A. Marques Bessa - ibid, pág
137
(10) d'Assac, Jacques Ploncard - Dictionnaire
Politique de Salazar, pág. 183
(11) Molnar, Thomas - ibid, pág. 122
(12) Bonald, Louis de - Théorie du Pouvoir
Politique et Religieux, pág 49
(13) Lampedusa, Tomasi di - Il Gattopardo, pág
30
(14) Molnar, Thomas - ibid, pág 130
(15) Clausewitz, Carlo von - Vom Kriege, pág
29
(16) Magalhães, Luiz de - Perante o Tribunal e
a Nação, pág 13
(17) Sollari Allegro, José Luciano - Para a
História da Monarquia do Norte, pág 94
(18) Duarte, Theophilo - Sidónio Pais e o seu
Consulado, pág 342
(19) Diário da Junta Governativa do Reino de
Portugal - Decreto nº3, artigo 1ª
(20) Jornal de Notícias de 20 de Janeiro de
1919
(21) Magalhães, Luiz de - ibid, pág 127
(22) Magalhães, Luiz de - ibid, pág 59
(23) Ameal, João - História de
Portugal, pág 704 |