Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
Fátima foi incessantemente o grito de fé de um povo*

por Madalena Fontoura

O que é que celebramos ao fim destes noventa anos? O que é que significa para nós 13 de Maio de 2007? Conhecemos os factos, as palavras e os protagonistas – dos três pastorinhos ao Papa João Paulo II, que se tornou decisivo para que Fátima se tornasse verdadeiramente o altar do mundo. Sabemos de cor os gestos, mil vezes cumpridos, anos após ano. Repetimos os percursos e os cantos. Qual é a novidade? Ou será que Fátima é uma pia recordação, que guardamos com reverência? Uma tradição que não discutimos porque se nos tornou familiar? Um relato lendário que nos é caro, independentemente de ser verdade? Será formal, vazio e, em última análise, inútil celebrar os noventa anos das Aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria se não nos trazem nada de novo, de pertinente, de capaz de responder à nossa vida de hoje.

E é no fundo essa a questão que se impõe. Durante noventa anos, Fátima foi incessantemente o grito de fé de um povo. A história portuguesa correu, sucedendo-se revoluções de sinal contrário, regimes políticos diversos e correntes culturais muito diferentes. Houve guerras e migrações, tempos de insegurança e de prosperidade. Portugal mudou, a Igreja portuguesa também. Mas a Fátima acorreram sempre, e sempre mais, os pobres e os abonados, os doentes e os sãos, os simples e os cultos, os do campo e os da cidade, os estrangeiros e os portugueses, até os sem fé e os crentes. O que encontram naquele lugar, naquela mensagem, naquele acontecimento? Encontram o que procuram: uma resposta impensável e totalizante, onde cada coração faz a experiência inconfundível de chegar a casa. Encontram Deus.

No gesto de materna inquietude de Nossa Senhora, encontram a Paternidade de Deus, que se debruça sobre a miséria humana. Nossa Senhora vem porque a nossa ingratidão e a nossa insensatez não esgotam nem secam a torrente da misericórdia. Sobre a azinheira, o rosto triste e doce da Virgem Maria espelha o desejo do Pai como é descrito na parábola do fi lho pródigo: expectante, mendigo do nosso regresso. Os peregrinos de Fátima encontram em Nossa Senhora o abraço de Deus Pai.

Na proximidade daquela Senhora que lhes diz para não terem medo, encontram a presença de Jesus de Nazaré, companheiro fiel da existência quotidiana de cada homem. Como Ele, também Ela está ali, inesperada, irredutível à piedade e à rotina, dizendo coisas grandes, decisivas, cheias de sentido, com um convite singular e pessoal, onde a humanidade de cada um é provocada e chamada a ir mais longe. Está ali a desfazer a pesada distância entre o presente e o destino, a mostrar que o Céu é afinal o fundo do que se toca na terra. Os peregrinos de Fátima encontram em Nossa Senhora a presença de Deus Filho. Na certeza e na força que a Senhora de Fátima lhes comunica, na coragem diante do sofrimento, na fidelidade renovada ao compromisso cristão quando esmorece, no reconhecimento da Verdade, no desejo de reconciliação encontram a acção do Espírito. Em Fátima, a fé, que o mundo combate e enfraquece, reacende-se de forma inesperada, o Coração de Maria enche de amor a relação com Deus, sempre ameaçada de cair na abstracção, e das cinzas de uma existência reduzida ao material e ao imediato renasce, a esperança.

Os peregrinos de Fátima encontram em Nossa Senhora, o amor de Deus Espírito Santo. Tem, assim, um significado profundo a decisão de dedicar à Santíssima Trindade a nova Igreja que marcará os noventa anos das Aparições. Muitos dos peregrinos de Fátima não sabem nada desse nome e desse Mistério do seu Deus. Mas experimentam-no como alento certo e por isso voltam a Fátima.

No silêncio branco da Cova da Iria, Cova da Paz, Deus deixa-Se tocar. E ninguém pode vencer a força potente e silenciosa desse acontecimento único que faz um coração humano reconhecer e retomar a estrada que leva ao destino.

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Artigo publicado na revista Stella

   
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