Fátima
foi incessantemente o
grito de fé de um povo*
por Madalena Fontoura
O
que é que celebramos ao fim destes
noventa anos? O que é que significa para nós 13 de Maio
de 2007? Conhecemos os factos, as palavras e os protagonistas – dos
três pastorinhos ao Papa João Paulo II, que se tornou
decisivo para que Fátima se tornasse verdadeiramente o altar
do mundo. Sabemos de cor os gestos, mil vezes cumpridos, anos após
ano. Repetimos os percursos e os cantos. Qual é a novidade? Ou
será que Fátima é uma pia recordação,
que guardamos com reverência? Uma tradição que
não discutimos porque se nos tornou familiar? Um relato
lendário que nos é caro, independentemente de ser
verdade? Será formal, vazio e, em última análise,
inútil celebrar os noventa anos das Aparições de
Nossa Senhora na Cova da Iria se não nos trazem nada de novo,
de pertinente, de capaz de responder à nossa vida de hoje.
E
é no fundo essa a questão que se impõe. Durante
noventa anos, Fátima foi incessantemente o grito de fé
de um povo. A história portuguesa correu, sucedendo-se
revoluções de sinal contrário, regimes políticos
diversos e correntes culturais muito diferentes. Houve guerras e
migrações, tempos de insegurança e de
prosperidade. Portugal mudou, a Igreja portuguesa também. Mas
a Fátima acorreram sempre, e sempre mais, os pobres e os
abonados, os doentes e os sãos, os simples e os cultos, os do
campo e os da cidade, os estrangeiros e os portugueses, até os
sem fé e os crentes. O que encontram naquele lugar, naquela
mensagem, naquele acontecimento? Encontram o que procuram: uma
resposta impensável e totalizante, onde cada coração
faz a experiência inconfundível de chegar a casa.
Encontram Deus.
No
gesto de materna inquietude de Nossa Senhora, encontram a Paternidade
de Deus, que se debruça sobre a miséria humana. Nossa
Senhora vem porque a nossa ingratidão e a nossa insensatez não
esgotam nem secam a torrente da misericórdia. Sobre a
azinheira, o rosto triste e doce da Virgem Maria espelha o desejo do
Pai como é descrito na parábola do fi lho pródigo:
expectante, mendigo do nosso regresso. Os peregrinos de Fátima
encontram em Nossa Senhora o abraço de Deus Pai.
Na
proximidade daquela Senhora que lhes diz para não terem medo,
encontram a presença de Jesus de Nazaré, companheiro
fiel da existência quotidiana de cada homem. Como Ele, também
Ela está ali, inesperada, irredutível à piedade
e à rotina, dizendo coisas grandes, decisivas, cheias de
sentido, com um convite singular e pessoal, onde a humanidade de cada
um é provocada e chamada a ir mais longe. Está ali a
desfazer a pesada distância entre o presente e o destino, a
mostrar que o Céu é afinal o fundo do que se toca na
terra. Os peregrinos de Fátima encontram em Nossa Senhora a
presença de Deus Filho. Na certeza e na força que a
Senhora de Fátima lhes comunica, na coragem diante do
sofrimento, na fidelidade renovada ao compromisso cristão
quando esmorece, no reconhecimento da Verdade, no desejo de
reconciliação encontram a acção do
Espírito. Em Fátima, a fé, que o mundo combate e
enfraquece, reacende-se de forma inesperada, o Coração
de Maria enche de amor a relação com Deus, sempre
ameaçada de cair na abstracção, e das cinzas de
uma existência reduzida ao material e ao imediato renasce, a
esperança.
Os
peregrinos de Fátima encontram em Nossa Senhora, o amor de
Deus Espírito Santo. Tem, assim, um significado profundo a
decisão de dedicar à Santíssima Trindade a nova
Igreja que marcará os noventa anos das Aparições.
Muitos dos peregrinos de Fátima não sabem nada desse
nome e desse Mistério do seu Deus. Mas experimentam-no como
alento certo e por isso voltam a Fátima.
No
silêncio branco da Cova da Iria, Cova da Paz, Deus deixa-Se
tocar. E ninguém pode vencer a força potente e
silenciosa desse acontecimento único que faz um coração
humano reconhecer e retomar a estrada que leva ao destino.
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Artigo publicado na revista Stella |