90
anos depois…
por Rui Corrêa d'Oliveira
90 anos
depois vale a pena darmo-nos conta de como foi simples, sem deixar de
ser grande, o que aconteceu em Fátima.
O Céu
irrompeu no meio do que de mais normal acontecia no dia-a-dia
daquelas três crianças de Aljustrel. Não esperou
momentos altos, nem solenes; não os retirou do buliço
dos seus trabalhos; não esperou que eles tivessem especial
instrução. Pura e simplesmente apareceu, revelou-Se,
fez-Se presença… palpável, audível,
reconhecível! E eles viram, e ouviram e… acreditaram!
Foi assim
há dois mil anos, na Palestina. Foi assim há noventa
anos, na Serra d’Aire. É assim, ainda hoje, nas nossas
vidas.
Claro que
não nos é dado ver o Anjo ou Nossa Senhora, menos ainda
o próprio Deus. Mas que Ele está, está. E que
Ele nos fala, fala. E ajuda, e convida, e desafia, e invade a nossa
vida, e muda-nos os planos, e protege-nos de perigos, e faz-nos
companhia na dor e sofrimento…
E escuta
os nossos pedidos, e abraça a nossa cruz, e mostra-nos o
caminho, e ilumina o nosso pensamento…
E
pede-nos ajuda para Se revelar aos que nos rodeiam, reclama a nossa
voz e os nossos gestos… e mendiga o nosso coração!
E tudo
isto faz e tudo isto acontece, na concreta circunstância da
nossa vida, seja ela como for. Não pergunta pelas nossas
competências, nem pede para interromper o decurso dos nossos
dias. É lá, mesmo, que Ele Se revela. Basta estarmos
atentos e disponíveis… como os três Pastorinhos de
Fátima há noventa anos.
E tudo se
passa no inteiro respeito pela nossa liberdade, aceitando mesmo que
Lhe digamos não. Mas Deus não desiste nunca. Não
se cansa nunca. Não se escandaliza nunca com o nosso pecado,
sempre pronto a perdoar. A sua estratégia é o Amor…
persistente e paciente.
A
história de ternura e desvelo pelo homem, acontecida há
noventa anos em Fátima, não é a história
toda, mas um capítulo apenas. Decisivo, extraordinário,
excepcional, é certo, mas não mais que um capítulo
de uma história de “paixão pelo homem” começada
com os nossos primeiros pais e que, sabemo-lo bem, não acabará
mais, prolongando-se eternidade adentro.
Em boa
verdade, é disto que trata a Mensagem de Fátima:
converter o coração dos homens para que vivam a vida
como gente salva, gente redimida, gente para a eternidade… Lembrar
Fátima, noventa anos depois, é tomar consciência
de que Deus permanece hoje, ainda e sempre, atento a cada um de nós,
para fazer grande e definitivo cada instante da nossa vida. |