Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
Direitas … "à la gauche"

por Rafael Castela Santos

Houve tempos em que não havia nem direitas nem esquerdas. Mas veio a Revolução Francesa e naquele iníquo parlamento sentaram-se no lado direito os que queriam fazer uma Revolução sem pressas e, no lado esquerdo, os mais apressados em revolucionar aquela França que - com todos os seus defeitos - era hegemónica no mundo.

Houve um tempo em que, ressalvando as devidas distâncias, ser de direita era posicionar-se no lado correcto, e por isso se diz "right" em inglês ou "recht" em alemão. Seguindo este fio etimológico não será demais lembrar que esquerda em latim é "sinister". Mas nisto de beleza e plasticidade, e bons desejos, das línguas germânicas não igualam a precisão lapidar da língua mãe latina ao situar no âmbito da esquerda as ideologias que mais mortos têm provocado em toda a história da humanidade.

O correcto, se é que se poderia assim falar de uma "verdadeira direita", não seria uma reacção à revolução como estabelece o conservadorismo, mas sim lançar âncora nos princípios imutáveis e eternos contidos na Tradição. Daí que a diferença entre conservadorismo e Tradição não tenha salvação: são dois conceitos distintos. É maior a distância existente entre Da Monarquia de Dante e O Príncipe de Maquiavel, é menor do que a existente entre Tradição e conservadorismo.

O que foi anteriormente exposto pode ser demonstrado pelo exemplo do anticomunismo. Durante o período da guerra fria multiplicaram-se as iniciativas anticomunistas de todo o tipo. E o que ficou de tudo isso? O anticomunismo, como tal e de per se, provou ser uma das opções mais evanescentes e estéreis. Mais ainda, muitas vezes o anticomunismo - frequentemente de tipo económico e pouco mais - dava lugar a uma política cultural nitidamente esquerdista e esquerdizante.

A Tradição europeia, exportada para todo o mundo, tem a sua base no Cristianismo. E, por sua vez, o Cristianismo usa a forma filosófica helénica no pensamento mas o modo romano na execução. Acresce que o Cristianismo incorpora Israel, àquele Israel que espera verdadeiramente a Cristo e não O renega, e cuja máxima expressão moral e ética é o Decálogo. A Tradição, incluindo as direitas conservadoras mais sérias, não estabelecem contradição entre as suas ideias e o Decálogo. Melhor dito, até se poderia dizer que explicitam o Decálogo.

As (pseudo)direitas acomodatícias, frequentemente de expressão caciquista, de clã e grupúsculo de interesses, assim como as(pseudo)direitas liberais, fazem tábua rasa do Decálogo não tanto por uma questão de índole moral mas por uma questão metafísica: são relativistas. Dado que estes dois elementos são os mais prevalecentes nas (pseudo)direitas oficiais que afectam os países ocidentais, daí resulta que o desenvolvimento da política se situa longe da âncora dos princípios, inclusivamente dos de Direito Natural, que liberais e “pancistas” negam.

Dizia Don Juan Donoso Cortés que por detrás de um grande problema político existe uma problema religioso. Tinha razão: os problemas económicos são frequentemente sociais, os sociais são políticos, os políticos, no fundo, são frequentemente problemas filosóficos e os problemas filosóficos acabam por ser problemas religiosos e/ou espirituais. Claro está que Donoso Cortés, que começa liberal e depois se torna conservador, acaba praticamente no campo da Tradição, numa trajectória não muito diferente da de um outro verdadeiro homem de direita que acabou no umbral da Tradição, Ramiro de Maeztu. Mas está claro que nos nosso dias as (pseudo)direitas não vão beber a Donoso, Maeztu, Menéndez Pelayo, Russell Kirk ou T.S. Elliot. Ao desdenharem os princípios imutáveis que vão de Sócrates a Francisco Elias de Tejada, para citar uma figura relativamente recente, passando por Aristóteles e São Tomás de Aquino, mas sobretudo por Jesus Cristo, as (pseudo)direitas tornaram-se volúveis, em instrumentos úteis à Revolução.  A máxima leninista de "dois passos para a frente e um para trás" como modus operandi da Revolução toma corpo nas (pseudo)direitas, que pouco a pouco consolidam os "avanços" revolucionários.

Tudo isto se demonstra facilmente. As (pseudo)direitas de hoje, incluindo os seus meios mediáticos, são capazes de dizer coisas que antes teriam sido impensáveis. Por exemplo, o ABC de Espanha de 2007 - um diário considerado monárquico e de direita - é capaz de propor coisas que nem o Mundo Obrero, o jornal do Partido Comunista de Espanha, se teria atrevido a propor em 1940. Por exemplo, muitas (pseudo)direitas dos nossos dias subscrevem o aborto, a sodomia, as políticas anti-familiares claras ou a injustiça social, esta última não abertamente, antes sob a forma da globalização e da imigração descontrolada, as quais acabam por configurar um status quo onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, amplificadas pelo apoio descarado das (pseudo)direitas às multinacionais e aos grandes grupos financeiros de pressão causadores de danos explícitos às pequenas e médias empresas, assim como ao trabalhador por conta própria, verdadeiro tecido natural das sociedades saudáveis e orgânicas. Consideraram a pessoa quase exclusivamente como homo economicus, numa horizontalização da vida humana em oposição ao conceito tradicional do homem como pessoa a caminho da Eternidade.

Nas recentes eleições francesas as bem pensantes "(pseudo)direitas" congratularam-se com a vitória de Sarkozy. Esquecem-se, por exemplo, que Sarkozy aposta na equiparação da união de homossexuais ao matrimónio, ou que aplaude como poucos o aborto livre. Também não podemos deixar passar em claro que Sarkozy se radica no republicanismo, com desprezo absoluto - maioritariamente por omissão - pelas raízes cristãs de França. Ou o seu eixo principal, materialista e economicista, que rejeita a res-publica, o bem comum. Isto para não mencionar as cotas de mulheres no governo e as suas concessões ao feminismo, um dos post-marxismos mais eficientes, letais e refinados. É isto "ser de direita"? Mais correctamente, Sarkozy representa, e é, um girondismo recauchutado. Talvez não convenha esquecer de todo, nem ao próprio Sarkozy, como acabaram os girondinos.

Em Espanha, por exemplo, o PP, o Partido Popular (que se auto-define como de "centro-direita"), despreza a trípode básica da direita espanhola, que não é outra se não a de Narváez, Maura e Franco. Ainda para mais, este partido, que teve a sua orígem na extinta Alianza Popular, eliminou completamente políticos e pensadores conservadores e de direita descomplexada, tais como Gonzalo Fernández de la Mora. Mais: o líder com mais êxito e outrora Primeiro Ministro espanhol José Maria Aznar, disse que a sua referência era Manuel Azaña, um Primeiro Ministro republicano e maçon que levou Espanha à Guerra Civil. Com semelhante pedrigree nem seria necessário explicar que foi o PP, e não o PSOE, o partido que criou as bases para uma imigração massiva e descontrolada em Espanha ou que tenha sido o PP a facilitar abortos e pílulas do dia seguinte nos municípios e regiões que controla, como é o caso de Madrid. Avalizam estes factos a auto-classificação do PP como de "centro-direita"? Melhor diríamos que de direita nada e ainda por cima descentrada. Descentrada dos seus eixos.

Na Grã-Bretanha, a referência do Partido Conservador continua a ser Margaret Thatcher. Esta ultraliberal (aqui digo liberal no sentido europeu, e não no sentido americano do termo) foi a mais fervorosa destruidora de quaisquer restos de conservadorismo que pudessem encontrar-se na Grã-Bretanha. O legado de Thatcher é terrível: foi proscrito todo e qualquer uso pré-industrial (ou do seu remanescente) que todavia fosse possível encontrar em Inglaterra nos anos setenta, culto obrigatório e prescritivo do êxito económico e imposição de uma "managerial culture" que se entranha em todos os estratos da vida britânica de hoje. Não deixa de ser curioso que este legado tenha sido definitivamente avalizado e consagrado por esse "direitista entre os trabalhistas" que é Tony Blair. Seja como for, o resultado final é o materialismo e o consumismo requintados à enésima potência, graças aos sensacionais ofícios de Maggie Thatcher; desapareceram os poucos vestígios da verdadeira Tradição, inclusivamente os que possam ter ficado, em casca ou na aparência, foram completamente esvaziados de significado. Em boa verdade Thatcher limitou-se a tomar como boas as últimas conclusões lógicas delineadas por Max Weber como consequência de uma moral protestante: um desenfreado afã pelo lucro já purgado do ascetismo calvinista. Será este culto ao dinheiro e esta idolatria do êxito um legado verdadeiramente "tory"?

Vejamos que em mais do que uma ocasião estas (pseudo)-direitas fazem dos pressupostos materialistas e economicistas o eixo da vida humana. Isto é o marxismo. Porque todos estes ultraliberais que fazem da economia o eixo primordial acabam a encaminhar as sociedades para os pressupostos marxistas. Ou o neo-capitalismo amoral, barbárie já anunciada por Croce, que em perfeita conivência com a esquerda, lhe cede todas as parcelas culturais. Melhor seria dizer que no caso de Thatcher, foi a Dama de Ferro quem deu razão a Gramsci nestas benditas terras de Albion. Tenho ganas de continuar de caneta em punho delineando as perigosas correlações entre Lord Disraeli e Lady Thatcher, mas deixemos isso para melhor ocasião.

Surgem perante este quadro, têm necessariamente que surgir, grupos à direita da (pseudo)direita oficial. O débil pensamento de Vattimo, cristalizado em pensamento único, completamente instalado e incrustado no sistema, faz tudo o que pode e ainda mais para evitar que estas direitas um pouco mais verdadeiras, na pior das hipóteses menos falsas, possam aceder ao poder. Na mente de todos estão as jogadas contra Jean Marie Le Pen para evitar que a Frente Nacional francesa pudesse ter poder real, a ascenção controlada de Jörg Haider na Austria, a substituição de Giorgio Almirante por um sucedâneo de baixa qualidade como é Fini (convenientemente adocicado, descafeinado e berlusconizado), a destruição de Pat Buchanan nos Estados Unidos como referência de uma direita mais verdadeira ou a castração a priori de qualquer movimento genuíno de direita em países como a Alemanha, Espanha ou Portugal. O sistema, o establishment, tem que se desfazer de qualquer voz dissidente, por mais pequena que esta seja. O que se mova, mesmo que faça o mais leve movimento, não sai na fotografia.

O que resta da direita ainda é o que vai beber à tradição. Tudo o mais, como reza o título, não passa de uma (pseudo)direita" à la gauche". Que eu conheça não há uma única direita no mundo, menos ainda uma pseudo-direita, que possa dizer-se que está mais ou menos inspirada nos princípios imutáveis recolhidos por Quevedo na sua Politica de Dios y Gobierno de Cristo.

No fimde contas, nestes tempos de ferro em que vivemos, a esquerda é a negação explícita e aberta de Deus e a (pseudo)direita é a negação de Deus em surdina. Mas ambas convergem, precisamente, nisso: em negar a Deus feito homem em Jesus Cristo e Nosso Senhor a Realeza Social que se lhe deve.

!Viva Cristo Rey!

   
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