CRÓNICAS DE UM LUSITANO INTERIOR NA ÁLBION
Direitas … "à la gauche"
por Rafael
Castela Santos
Houve tempos
em que não havia nem direitas nem esquerdas. Mas veio a
Revolução Francesa e naquele iníquo parlamento sentaram-se
no lado direito os que queriam fazer uma Revolução sem pressas e,
no lado esquerdo, os mais apressados em revolucionar aquela França que -
com todos os seus defeitos - era hegemónica no mundo.
Houve um
tempo em que, ressalvando as devidas distâncias, ser de direita era
posicionar-se no lado correcto, e por isso se diz "right" em
inglês ou "recht" em alemão. Seguindo este fio
etimológico não será demais lembrar que esquerda em latim
é "sinister". Mas nisto de beleza e plasticidade, e bons
desejos, das línguas germânicas não igualam a
precisão lapidar da língua mãe latina ao situar no
âmbito da esquerda as ideologias que mais mortos têm provocado em
toda a história da humanidade.
O correcto,
se é que se poderia assim falar de uma "verdadeira direita",
não seria uma reacção à revolução
como estabelece o conservadorismo, mas sim lançar âncora nos
princípios imutáveis e eternos contidos na
Tradição. Daí que a diferença entre conservadorismo
e Tradição não tenha salvação: são
dois conceitos distintos. É maior a distância existente entre Da
Monarquia de Dante e O Príncipe de
Maquiavel, é menor do que a existente entre Tradição e
conservadorismo.
O que foi
anteriormente exposto pode ser demonstrado pelo exemplo do anticomunismo.
Durante o período da guerra fria multiplicaram-se as iniciativas
anticomunistas de todo o tipo. E o que ficou de tudo isso? O anticomunismo, como
tal e de per se, provou ser uma das opções mais
evanescentes e estéreis. Mais ainda, muitas vezes o anticomunismo -
frequentemente de tipo económico e pouco mais - dava lugar a uma
política cultural nitidamente esquerdista e esquerdizante.
A
Tradição europeia, exportada para todo o mundo, tem a sua base no
Cristianismo. E, por sua vez, o Cristianismo usa a forma filosófica
helénica no pensamento mas o modo romano na execução.
Acresce que o Cristianismo incorpora Israel, àquele Israel que espera
verdadeiramente a Cristo e não O renega, e cuja máxima
expressão moral e ética é o Decálogo. A
Tradição, incluindo as direitas conservadoras mais sérias,
não estabelecem contradição entre as suas ideias e o
Decálogo. Melhor dito, até se poderia dizer que explicitam o
Decálogo.
As
(pseudo)direitas acomodatícias, frequentemente de expressão
caciquista, de clã e grupúsculo de interesses, assim como
as(pseudo)direitas liberais, fazem tábua rasa do Decálogo
não tanto por uma questão de índole moral mas por uma
questão metafísica: são relativistas. Dado que estes dois
elementos são os mais prevalecentes nas (pseudo)direitas oficiais que
afectam os países ocidentais, daí resulta que o desenvolvimento
da política se situa longe da âncora dos princípios,
inclusivamente dos de Direito Natural, que liberais e “pancistas” negam.
Dizia Don
Juan Donoso Cortés que por detrás de um grande problema
político existe uma problema religioso. Tinha razão: os problemas
económicos são frequentemente sociais, os sociais são
políticos, os políticos, no fundo, são frequentemente
problemas filosóficos e os problemas filosóficos acabam por ser
problemas religiosos e/ou espirituais. Claro está que Donoso
Cortés, que começa liberal e depois se torna conservador, acaba
praticamente no campo da Tradição, numa trajectória
não muito diferente da de um outro verdadeiro homem de direita que
acabou no umbral da Tradição, Ramiro de Maeztu. Mas está
claro que nos nosso dias as (pseudo)direitas não vão beber a
Donoso, Maeztu, Menéndez Pelayo, Russell Kirk ou T.S. Elliot. Ao
desdenharem os princípios imutáveis que vão de
Sócrates a Francisco Elias de Tejada, para citar uma figura
relativamente recente, passando por Aristóteles e São
Tomás de Aquino, mas sobretudo por Jesus Cristo, as (pseudo)direitas
tornaram-se volúveis, em instrumentos úteis à
Revolução. A
máxima leninista de "dois passos para a frente e um para
trás" como modus operandi da
Revolução toma corpo nas (pseudo)direitas, que pouco a pouco
consolidam os "avanços" revolucionários.
Tudo isto se
demonstra facilmente. As (pseudo)direitas de hoje, incluindo os seus meios
mediáticos, são capazes de dizer coisas que antes teriam sido
impensáveis. Por exemplo, o ABC de Espanha
de 2007 - um diário considerado monárquico e de direita -
é capaz de propor coisas que nem o Mundo Obrero, o
jornal do Partido Comunista de Espanha, se teria atrevido a propor em 1940. Por
exemplo, muitas (pseudo)direitas dos nossos dias subscrevem o aborto, a
sodomia, as políticas anti-familiares claras ou a injustiça
social, esta última não abertamente, antes sob a forma da
globalização e da imigração descontrolada, as quais
acabam por configurar um status quo onde os
ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres,
amplificadas pelo apoio descarado das (pseudo)direitas às multinacionais
e aos grandes grupos financeiros de pressão causadores de danos
explícitos às pequenas e médias empresas, assim como ao
trabalhador por conta própria, verdadeiro tecido natural das sociedades
saudáveis e orgânicas. Consideraram a pessoa quase exclusivamente
como homo economicus, numa horizontalização
da vida humana em oposição ao conceito tradicional do homem como
pessoa a caminho da Eternidade.
Nas recentes
eleições francesas as bem pensantes "(pseudo)direitas"
congratularam-se com a vitória de Sarkozy. Esquecem-se, por exemplo, que
Sarkozy aposta na equiparação da união de homossexuais ao
matrimónio, ou que aplaude como poucos o aborto livre. Também
não podemos deixar passar em claro que Sarkozy se radica no
republicanismo, com desprezo absoluto - maioritariamente por omissão -
pelas raízes cristãs de França. Ou o seu eixo principal,
materialista e economicista, que rejeita a res-publica, o bem comum. Isto para
não mencionar as cotas de mulheres no governo e as suas
concessões ao feminismo, um dos post-marxismos mais eficientes, letais e
refinados. É isto "ser de direita"? Mais correctamente,
Sarkozy representa, e é, um girondismo recauchutado. Talvez não convenha esquecer de todo, nem ao
próprio Sarkozy, como acabaram os girondinos.
Em Espanha, por exemplo, o PP, o Partido
Popular (que se auto-define como de "centro-direita"), despreza a
trípode básica da direita espanhola, que não é
outra se não a de Narváez, Maura e Franco. Ainda para mais, este
partido, que teve a sua orígem na extinta Alianza Popular, eliminou
completamente políticos e pensadores conservadores e de direita
descomplexada, tais como Gonzalo Fernández de la Mora. Mais: o
líder com mais êxito e outrora Primeiro Ministro espanhol
José Maria Aznar, disse que a sua referência era Manuel
Azaña, um Primeiro Ministro republicano e maçon que levou Espanha
à Guerra Civil. Com semelhante pedrigree nem seria necessário
explicar que foi o PP, e não o PSOE, o partido que criou as bases para
uma imigração massiva e descontrolada em Espanha ou que tenha
sido o PP a facilitar abortos e pílulas do dia seguinte nos
municípios e regiões que controla, como é o caso de
Madrid. Avalizam estes factos a auto-classificação do PP como de
"centro-direita"? Melhor diríamos que de direita nada e ainda
por cima descentrada. Descentrada dos seus eixos.
Na Grã-Bretanha, a referência
do Partido Conservador continua a ser Margaret Thatcher. Esta ultraliberal
(aqui digo liberal no sentido europeu, e não no sentido americano do
termo) foi a mais fervorosa destruidora de quaisquer restos de conservadorismo
que pudessem encontrar-se na Grã-Bretanha. O legado de Thatcher é
terrível: foi proscrito todo e qualquer uso pré-industrial (ou do
seu remanescente) que todavia fosse possível encontrar em Inglaterra nos
anos setenta, culto obrigatório e prescritivo do êxito
económico e imposição de uma "managerial
culture" que se entranha em todos os estratos da vida britânica de
hoje. Não deixa de ser curioso que este legado tenha sido
definitivamente avalizado e consagrado por esse "direitista entre os
trabalhistas" que é Tony Blair. Seja como for, o resultado final
é o materialismo e o consumismo requintados à enésima
potência, graças aos sensacionais ofícios de Maggie
Thatcher; desapareceram os poucos vestígios da verdadeira
Tradição, inclusivamente os que possam ter ficado, em casca ou na
aparência, foram completamente esvaziados de significado. Em boa verdade
Thatcher limitou-se a tomar como boas as últimas conclusões
lógicas delineadas por Max Weber como consequência de uma moral
protestante: um desenfreado afã pelo lucro já purgado do
ascetismo calvinista. Será este culto ao dinheiro e esta idolatria do
êxito um legado verdadeiramente "tory"?
Vejamos que
em mais do que uma ocasião estas (pseudo)-direitas fazem dos pressupostos
materialistas e economicistas o eixo da vida humana. Isto é o marxismo.
Porque todos estes ultraliberais que fazem da economia o eixo primordial acabam
a encaminhar as sociedades para os pressupostos marxistas. Ou o neo-capitalismo
amoral, barbárie já anunciada por Croce, que em perfeita
conivência com a esquerda, lhe cede todas as parcelas culturais. Melhor
seria dizer que no caso de Thatcher, foi a Dama de Ferro quem deu razão
a Gramsci nestas benditas terras de Albion. Tenho ganas de continuar de caneta
em punho delineando as perigosas correlações entre Lord Disraeli
e Lady Thatcher, mas deixemos isso para melhor ocasião.
Surgem
perante este quadro, têm necessariamente que surgir, grupos à
direita da (pseudo)direita oficial. O débil pensamento de Vattimo,
cristalizado em pensamento único, completamente instalado e incrustado
no sistema, faz tudo o que pode e ainda mais para evitar que estas direitas um
pouco mais verdadeiras, na pior das hipóteses menos falsas, possam
aceder ao poder. Na mente de todos estão as jogadas contra Jean Marie Le
Pen para evitar que a Frente Nacional francesa pudesse ter poder real, a
ascenção controlada de Jörg Haider na Austria, a
substituição de Giorgio Almirante por um sucedâneo de baixa
qualidade como é Fini (convenientemente adocicado, descafeinado e
berlusconizado), a destruição de Pat Buchanan nos Estados Unidos
como referência de uma direita mais verdadeira ou a
castração a priori de qualquer movimento
genuíno de direita em países como a Alemanha, Espanha ou Portugal.
O sistema, o establishment, tem que se desfazer de qualquer voz
dissidente, por mais pequena que esta seja. O que se mova, mesmo que
faça o mais leve movimento, não sai na fotografia.
O que resta
da direita ainda é o que vai beber à tradição. Tudo
o mais, como reza o título, não passa de uma
(pseudo)direita" à la gauche". Que eu conheça
não há uma única direita no mundo, menos ainda uma
pseudo-direita, que possa dizer-se que está mais ou menos inspirada nos
princípios imutáveis recolhidos por Quevedo na sua Politica de
Dios y Gobierno de Cristo.
No fimde
contas, nestes tempos de ferro em que vivemos, a esquerda é a
negação explícita e aberta de Deus e a (pseudo)direita
é a negação de Deus em surdina. Mas ambas convergem,
precisamente, nisso: em negar a Deus feito homem em Jesus Cristo e Nosso Senhor
a Realeza Social que se lhe deve.
!Viva Cristo
Rey! |