| Guernica
por J.
Luís Andrade
É tão descarada a distorção, é
tão frequente o re-escrever dos factos, é tão
aparatosa a barafunda académica com que se camufla a mentira,
que um fulano cai na tentação de se alegrar com a
indiferença dos jovens perante o acontecimento mais grave e
feroz do nosso século.
Federico Jiménez Losantos
A
GCE, com todos os seus factos, mitos e paixões, representa não
só um exemplo clássico e paradigmático do
inculcamento de uma visão pré-concebida e deformadora
da realidade, como também permite, por analogia, a análise
comparativa de evoluções políticas das
sociedades mais próximas de nós, no tempo e, até,
no espaço. Sendo questionável considerá-la como prelúdio da Segunda Guerra Mundial,
é, no entanto, indubitável reconhecer que ela se viu,
de facto, envolvida no lúgubre turbilhão que agitou o
globo no segundo quartel do século recém findo. O
estudo dos acontecimentos da GCE tem sofrido a deformação
dos propagandistas filocomunistas sem qualquer oposição
significativa. Os outros historiadores, nestes domínios,
sempre pecaram por omissão. Por paulatina repetição,
as mentiras e inverdades mitificaram-se e fossilizaram-se, sendo
hoje, muitas delas, consideradas factos irrefutáveis,
instalados no imaginário do mais insuspeito cidadão.
Avulta
entre os mitos mais eficazmente inculcados no património
informativo do público o relativo à destruição
de Guernica, a vetusta cidade biscaína que alberga os símbolos
da liberdade dos povos bascos. Contrariamente ao que é costume
afirmar-se, os rebeldes não tiveram nem o monopólio nem
sequer a primazia dos bombardeamentos aéreos indiscriminados
sobre populações civis. Os governamentais destacaram-se
nesse campo sendo Oviedo, Saragoça e Huesca exemplos bem
marcantes de cidades massacradas pelo terror aéreo .
Os bombardeamentos de Barcelona e especialmente de Guernica, tão
propagandeados pela Frente Popular, foram executados por
italianos e alemães. Na capital catalã, uma das bombas
atingiu um camião de munições, tendo a explosão,
assim amplificada, provocado a morte de cerca de 800 pessoas. Em
Guernica, um dos grandes mitos da GCE e sede dos símbolos
forais das liberdades bascas, terão morrido cerca de 120
pessoas e não os milhares divulgados pelos propagandistas franceses e
anglo-saxónicos simpatizantes da causa da Frente Popular . Para colocar a questão na sua devida ordem de grandeza,
note-se que, naquela região, só num asalto a uma prisão, detonado por um bombardeamento dos
sublevados em que morreram cinco pessoas, foram linchadas 224 pessoas, incluindo
sacerdotes e religiosos.
O
bombardeamento de Guernica não foi mais que um dos muitos
episódios da ofensiva das forças rebeldes a Norte,
neste caso na campanha militar para a conquista de Bilbau. Com o
impasse em Madrid, nó-górdio da Guerra e, por várias
razões (qualidade e quantidade das tropas em confronto), a
frente principal, Franco resolveu deslocar o centro de gravidade da
guerra para o Norte. Na Biscaia, na Cantábria e nas Astúrias,
ainda na posse dos governamentais, encontrava-se quase toda a
indústria de armamento e explosivos do país bem como as
mais importantes minas de ferro, carvão e zinco. A manobra era
arriscada, já que ao diminuir a pressão sobre a
Capital, permitia ao Governo recuperar a iniciativa, dispondo de um
exército forte, muito bem equipado e organizado, e moralmente
reforçado por ter sido capaz de travar Franco. Por outro lado,
o objectivo não era simples. A orografia favorecia a defesa e
não o ataque, as forças oponentes estavam bem equipadas
e eram numerosas embora o seu moral não fosse o mais elevado. A convivência
entre forças ideológicas tão díspares
como o PNV de José António Aguirre e os seus aliados frentepopulistas nunca foi fácil e a criação
de um governo autónomo basco (mesmo que tivesse na sua
composição ministros socialistas e comunistas) não
veio facilitar as coisas. A agravar essa questão de fundo, o
falhanço da reconquista da província basca de Álava,
em que 15.000 combatentes, com total supremacia aérea e
artilheira, não haviam conseguido levar de vencida 800
revoltosos, entrincheirados em Villareal, não era de molde a
alimentar o ânimo. Este desaire valeria a José António
Aguire, por chacota, o epíteto de Napoleonchu. As
deserções para os sublevados, sobretudo de montanheses
cantábricos, eram frequentes; digna de nota foi a fuga para as
tropas de Mola de um dos projectistas do conjunto de fortificações
(o Capitão engenheiro Alejandro Goicoechea) que o lehendakari Aguirre mandara construir para proteger Bilbau, intitulado
Cinturão de Ferro.
A
ofensiva poderia ter começado por qualquer das três
regiões .
A partir de Oviedo, directamente sobre Santander ou sobre a Biscaia.
Mola preferiu esta última quer porque tinha a leste (na
ocupada Guipúzcoa) e a sueste importantes concentrações
de forças basco-navarras, entretanto já organizadas em
brigadas e divisões, à semelhança do que fizera
Madrid com as suas tropas, quer por haver vários caminhos
alternativos para a penetração. Eram 39 batalhões
ao ataque contra 50 à defesa; algum equilíbrio em
artilharia e supremacia aérea dos sublevados com a entrada em
jogo da Legião Condor e dos italianos. Quando o avanço
começou a 31 de Março, quer a tentativa feita pelo sul
quer, depois, a do Leste, pelo eixo Durango-Guernica, demonstraram a
necessidade de suprir a insuficiência artilheira pela arma
aérea. A aviação italiana atacou Durango, tendo
causado cerca de 200 mortos.
O
Gen. Juan Vigón, comandante da 4ª Brigada de Navarra, ao
não conseguir transportar a artilharia que necessitava (retida
na conquista dos montes Intxortas) para envolver a área a
Norte de Durango, anuiu na colaboração da Legião
Condor, proposta por Wolfgang von Richthofen. As acções
requeridas, de natureza táctica, tinham por objectivo, por um
lado, fustigar o inimigo que recuava da frente de Marquina permitindo
assim acelerar o avanço da Infantaria e, por outro, destruir
os acessos aos caminhos de fuga, em direcção a Bilbau .
É provável que o comando alemão pretendesse
infligir um castigo exemplar ao inimigo em debandada para colher os
louros de uma rendição precipitada ou até para
vingar o linchamento do seu piloto que tivera de saltar em
pára-quedas, em Bilbau. Talvez por isso tenha decidido, por
sua conta e risco, envolver meios aéreos superiores aos
necessários para responder às necessidades de Vigón.
No
dia 26 de Abril, o conjunto urbano Guernica-Luno, com perto de cinco
mil habitantes de acordo com o último censo de então, a
que há ainda que descontar mais de 370 jovens a cumprir o
serviço militar, foi atacado pela aviação ao
serviço dos sublevados. O ataque iniciou-se com a missão
exploratória de um bimotor Dornier-17 da Legião
Condor, seguido pela passagem de três Savoia Marchetti-79 italianos (saídos de Soria) que sobrevoaram e bombardearam,
com 12 bombas de 50 Kg cada, a parte oriental do objectivo cerca das
16h20m, sem causar grandes estragos .
Seguiram-se dois bimotores alemães Heinkell-111. Duas
horas depois a Legião Condor atacou em força a
povoação, com três esquadrilhas, em tandem e em cunha, lançando mais de 20 toneladas de bombas, de
fragmentação (250 e 50 Kg) e incendiárias com
retardamento (1 Kg). A única passagem dos aviões fez-se
de Norte para Sul, paralelamente ao eixo do caminho-de-ferro, desde o
mar, passando pela ponte de Rentería, sobre o rio Oca,
aparentemente o verdadeiro objectivo militar do bombardeamento. A
força atacante foi constituída por 18 ou 19 Ju-52,
escoltados por 10 caças italianos Fiat-32. As
condições do vento que soprava de nordeste com muita
força, associadas à grande quantidade de pó e
fumo provocados pelas vaga da frente, bem como a inexperiência
da maior parte dos pilotos da Legião Condor propiciaram o erro
técnico que esteve na origem da destruição de
parte da povoação .
Cerca de um quinto da área urbana ficou arrasado, por impacto
ou explosão, mas os incêndios que se propagaram nas
horas imediatas acabariam por afectar praticamente 70% dos edifícios.
Contudo, a parte histórica, incluindo o lendário
carvalho, salvou-se da destruição, ao contrário
do que os propagandistas afectos à Frente Popular sempre afirmaram, por ignorância ou má-fé .
Mais
de um quarto dos mortos resultou da derrocada de um refúgio
inacabado, o de Santa María, indevidamente utilizado,
segundo afirma Cástor Uriarte. Este responsável
municipal pela Protecção Civil dá uma cifra
global inferior a 250 pessoas mortas, indicando também, para
além do refúgio, o Asilo Calzada e o princípio
da estrada de ligação a Luna, como os de maior
densidade de mortos. A maioria dos habitantes assistiu ao
bombardeamento a partir das colinas envolventes, onde haviam
procurado um refúgio mais eficaz.
O
interesse militar de Guernica, ao contrário do que normalmente
se afirma, era bem significativo já que na localidade existiam
importantes indústrias bélicas e quatro aquartelamentos militares .
Aparentemente, o objectivo da aviação militar não
eram essas instalações logísticas mas sim, como
já se disse, tentar cortar a retirada ao Corpo de Exército
basco, impedindo-o de atravessar a ria de Mundaca a fim de se
refugiar na linha protectora Bermeo-Guernica, cintura avançada
de Bilbau. Contudo, a decisão do General Mola em manter o eixo
de marcha da 1ª Brigada Navarra sobre Durango acabou por retirar
qualquer consequência militar ao bombardeamento táctico
de Guernica.
Rafael
Casas de la Vega, no seu livro, Errores Militares de la Guerra
Civil, dá nota de uma conversa que teve em França
com o cónego Alberto de Onaindía que, ao ir buscar sua
mãe à zona de Marquina, fora testemunha involuntária
do bombardeamento. O religioso, autor de um livro intitulado, Hombre
de paz en la guerra, onde relata com seriedade o que viu,
contou-lhe como no regresso da viagem se havia encontrado com o lehendakari Aguirre, seu amigo. Este, ao aperceber-se do
alcance político que a publicidade internacional sobre o caso
estava a trazer à causa basca, pediu-lhe que, uma vez em
França, tentasse divulgar ainda mais o bombardeamento de
Guernica .
Cabe
perguntar porquê Guernica e não Durango (bombardeada
pelos italianos) onde o número de baixas fora maior!? Com a
intervenção germânica conhecida, os sectores que
em Londres mantinham uma tensa vigilância à política
expansionista alemã, também não descuraram a
oportunidade de meter os alemães em cheque. O correspondente
do The Times, Lowther Steer, vendo a oportunidade, rapidamente
editou um livro em que a verdade surgia distorcida, empolando ao
exagero a acção da Legião Condor. A publicação,
como seria de esperar, calou fundo em muitos sectores conservadores
britânicos, até aí mais inclinados para a causa
rebelde.
Todas
essas campanhas internacionais, dirigidas com grande dinamismo,
contaram com o paradoxal apoio do Comando dos insurrectos e dos meios
informativos ao seu serviço. Estes empenharam-se em negar o
facto, por demais evidente ,
atribuindo a destruição e o incêndio da vila às
tropas bascas em retirada (maioritariamente constituídas por
comunistas e anarquistas), à semelhança do que estes
haviam comprovadamente feito em Irún e em Eibar, aplicando a
táctica da terra queimada. A provável mentira total só veio amplificar ainda mais o mito de
Guernica.
Criou-se
assim mais uma lenda negra que procura fazer acreditar que o ataque
tinha como objectivo estratégico deliberado a destruição
da vila e, concomitantemente, dos símbolos da identidade e
liberdade bascas. A tese romântica de que a Legião
Condor pretendia destruir esse conjunto emblemático é
desmentida, com evidência, pelo próprio facto da Casa
de Juntas (ou dos Fueros) e a Arbola terem ficado
indemnes .
Posteriormente, em 1976 viria a surgir uma prova documental
irrefutável, constituída pelas ordens de combate do
destacamento aéreo italiano (ordem de operação
nº 48 do Comando do Grupo do aeroporto de Soria), encontradas
por Massimo Olmi em 1976 e publicadas por Jesús Salas. Nelas,
para além de se confirmar a efectiva participação
dos italianos na operação (sempre desmentida ou
ignorada), afirma-se que o objectivo é o bombardeamento da
ponte de Guernica e que a povoação, por
evidentes razões políticas ,
não deve ser bombardeada.
Com
o intuito de dourar a pílula, Guernica é sempre
apresentada como uma área aberta, sem o menor interesse
militar, o que, como já vimos, não correspondia à
verdade. Para marcar ainda mais a imagem de idílica localidade
e, quiçá, aumentar o hipotético número de
vítimas, fala-se ainda do facto de o dia 26 de Abril ter sido
dia do mercado semanal a que haviam ocorrido todos os lavradores da
região; assim, o descontraído e pacífico
encontro rotineiro, teria sido dispersado pelo inesperado e mortífero
ataque da aviação alemã. A realidade, porém,
é que o mercado bem como o jogo de pelota que normalmente lhe
sucedia havia sido cancelado face à proximidade da frente, a
menos de 15 Km, e à avalanche de tropas bascas em retirada,
apenas tendo estado presentes um pequeno número de lavradores
inadvertidos.
Guernica
também passou à História como o paradigma dos
ensaios da estratégia aérea. Das declarações
de Goering aos investigadores ingleses Maier e Sender, durante o
julgamento de Nuremberga, pretenderam alguns inferir que a Legião
Condor havia usado a Guerra Civil de Espanha como banco de ensaio de
novas armas e materiais para a Luftwaffe. Se o fez, não foi
certamente em Guernica já que o grosso dos aviões
utilizados pelos alemães era, já na altura, considerado
tecnicamente ultrapassado .
As bombas foram as padronizadas para as Forças aéreas
alemã e italiana, sem qualquer inovação. Resta
apenas considerar Guernica como uma experimentação das
teses do General Douhet sobre o emprego da arma aérea, o que estava formalmente
proibido por Franco e Mola, quanto mais não fosse pela
protecção devida às numerosas quintas-colunas.
Outro
dos testemunhos amiúde invocados como justificadores da
agressão gratuita, é o do ás da Força
Aérea Alemã, Adolf Galland. No seu livro Os
primeiros e os últimos, Galland afirma que os pilotos da
Luftwaffe que haviam estado na Legião Condor não
gostavam de falar sobre Guernica. Alguns historiadores para
realçar o embaraço do ás alemão, dão-no
mesmo como tendo participado na operação. Ora Galland
só desembarcou em O Ferrol, a 7 de Maio; graduado em capitão,
iria comandar uma esquadrilha de caças bi-planos Heinkel-51,
alcunhada Mickey Mouse e apenas teria o seu baptismo de fogo
na batalha de Brunete. No princípio dos anos 80, tive
oportunidade de conversar com Galland durante um festival aeronáutico
em Falcon Field, um aeródromo nos arredores de Phoenix,
Arizona, e o velho general confirmou-me que, tanto quanto tinha
conseguido saber, o bombardeamento de Guernica, fora mesmo um
exercício aéreo de iniciativa alemã, sob o
pretexto do ataque à ponte sobre o Rio Oca (já a cargo
dos italianos), destinado a estudar a sincronização do
bombardeamento em passagens agrupadas, com o deficiente equipamento
aéreo então disponível. No entanto, insistiu
que, das conversas que teve com os seus camaradas que haviam
participado na operação, colheu a certeza de que o
núcleo urbano sempre estivera fora dos objectivos delineados e
que só as más condições de vento e de
visibilidade, e a inexperiência dos apontadores, permitiram o
resultado que a História registou. Como muitos outros que não
testemunharam presencialmente os factos mas que sabiam não ser
(totalmente) verdade a estória divulgada pela propaganda dos
sublevados, Galland estava mesmo convencido de que da agressão
aérea resultara num número de vítimas
considerável. Quando lhe expliquei que isso era materialmente
impossível e que, de acordo com os dados que então conhecia, o número
de mortos não deveria ultrapassar 250, ficou deveras
surpreendido e comovido.
O Guernica de Picasso
Mas a imagem distorcida e falsa ficou e muito dificilmente se poderá
repor a verdade. Em Guernica, o Mito superou a História e
acabou por ficar imortalizada pelo genial pincel de Picasso que,
com o seu famoso quadro, consolidou uma lenda que muito dificilmente
alguém corrigirá. Picasso havia sido nomeado Director
do Museu do Prado em Agosto de 1936 mas nunca tomou posse. Com toda a
probabilidade, achava que, naqueles tempos, os ambientes franceses
eram mais propícios à sua criatividade …
Em Janeiro de 37, Max Aub, adido cultural da embaixada espanhola
(frentepopulista) em Paris, tinha contratado Picasso para a
realização de um mural ou painel para ilustrar o
Pavilhão de Madrid na EXPO (universal) a realizar na capital
francesa. O valor acordado foi 150.000 francos franceses, o qual lhe
foi pago em 28 de Maio de 1937 (e o recibo assinado a 31), a título
de gastos, classificado na rubrica contabilística Propaganda de acordo com o documento que se encontrou nos
arquivos pessoais de Luís Araquistáin, na posse de seu
filho Ramón, de alcunha Finki.
Não é que credível que, face à
responsabilidade da encomenda (e do seu valor, que correspondeu a
mais de 10% do custo total do Pavilhão espanhol), o pintor só
o começasse a executar a 1 de Maio como reza o mito quando a
EXPO deveria abrir a 23 desse mês, para comemorar o 1º
centenário do Arco do Triunfo. Foram razões
imponderáveis, relacionadas com um surto grevista em França
que protelou a abertura dos vários pavilhões. A não
ser que Picasso tivesse o dom da presciência, seguramente não
era em menos de um mês que conseguia pintar um painel com 3,5 m
por 7,77 m e 300 kg de peso. Resta serena e logicamente concluir que
o mesmo foi iniciado muito antes de 1 de Maio. Ora, o ataque aéreo
a Guernica aconteceu em 26 de Abril…
O quadro, que segundo o seu autor demorou a fazer sessenta dias, foi
dado por concluído entre 6 e 8 de Junho pela sua amante da
altura, a fotógrafa e pintora jugoslava Dora Maar, que
terminou o painel nos detalhes que Picasso considerava mais
cansativos e monótonos. Foi entregue formalmente em fins de
Junho e colocado no seu lugar, no Pavilhão espanhol, em 11 de
Julho. A 28 de Maio, no exacto dia em que recebeu os 150.000 FF,
Picasso efectua uma declaração contra a posição
fascista dos rebeldes franquistas e afirma que chamará
Guernica ao mural em que está a trabalhar… Esta
Declaração foi feita por exigência do embaixador
de Madrid em França, Luis Araquistáin, para combater o
boato que corria em alguns meios intelectuais e na imprensa da altura
que dava Picasso como simpatizante de Franco.
Nunca
uma acção tão limitada nos seus fins e tão
reduzida nos meios que utilizou teve tanta repercussão nem
tamanha projecção universal.
BIBLIOGRAFIA
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Deutschland im Bombenkrieg 1940 – 1945, Propyläen,
Munique, 2002
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guerra, Plus Ultra, Madrid, s.d.
Casas de la Vega, Rafael, Errores
Militares da la Guerra Civil, San Martín, Madrid, 1997
Martínez Bande, J. M., S.H.M.-Monografias de la Guerra de España, t. 6, Vizcaya,
San Martín, Madrid, 1971
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de la Guerra Civil, La esfera de los libros, Madrid, 2003
Onaindía, Alberto de, Hombre de paz en
la guerra, Ekin, Buenos Aires, 1973
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La Cierva, Ricardo, Historia esencial de
la Guerra Civil Española, Fénix, Madridejos, 2001
Salas Larrazábal, Jesús, Guernica: el bombardeo, Madrid, 1981
Steer, George Lowther, The Tree of
Guernika, Londres, Hodder and Stoughton, 1938
Talon, Vicente, Arde Guernica, San
Martín, 1970
Thomas, Gordon et Witts, Max
Morgan, El día en que murió Guernica, Barcelona,
Plaza y Janes, 1976
_________________________________
(1) Em minha opinião, a GCE foi a grande guerra ideológica
do séc. XX enquanto que a Segunda Guerra Mundial foi
essencialmente um confronto de potências mundiais (ou a isso
aspirantes), detonado pelo chega para lá de
totalitarismos expansionistas, nos teatros europeus e do
extremo-oriente. Ao contrário do que indica o superficial
registo histórico-político, Mussolini não se
alia a Hitler por simpatias ideológicas mas por imperiosa
necessidade de sobrevivência política; ponderando os
riscos, entre a potencial ameaça alemã, sobretudo após
o Anschluss (a Áustria fora a potência dominante no
Norte de Itália), e a paternalista arrogância inglesa,
optou por neutralizar a primeira.
(2) Os bombardeamentos aéreos a núcleos de população
civil vinham sendo preconizados por muitos tratadistas militares
desde a 1ª Grande Guerra (vide, mais à frente,
nota sobre o General Douhet). Eram considerados uma técnica
sucedânea dos bombardeamentos de artilharia, potenciados pelo
grande desenvolvimento da arma aérea, apresentando maior
eficácia e menores riscos. Supunha-se que essas acções
destruiriam a moral da retaguarda e precipitariam o fim da guerra.
Tal foi a lógica dos bombardeamentos ingleses em Dresden e em
outras cidades alemãs (vide Jörg Friederich, O
Incêndio, a Alemanha e as bombas, 1940-1945) e dos
americanos em Tóquio, Hiroxima e Nagasáqui. As bombas
foram especificamente concebidas para atear incêndios e matar,
não só pelo impacto deflagrante mas também pelo
efeito térmico e asfixiante.
(3) Vide Jesús Salas Larrazábal, Guernica,
1987, Madrid no qual o autor apresenta o resultado do inventário
nominal das vítimas. Segundo Salas, nos dias 26 a 29, houve
75 enterros considerando já as vítimas que faleceram
no hospital de Basurto, em Bilbau. Quando os navarros entraram em
Guernica foram retirados 25 cadáveres do refúgio de Santa Maria e foram identificadas mais duas vítimas,
totalizando 102 pessoas. Houve, mais tarde, 18 inscrições
de óbito o que perfaz 120 vítimas, havendo no entanto
dúvidas se parte destes últimos inscritos não
teriam já sido considerados no primeiro número de não
identificados.
(4)
Entre 1.654 segundo uns, mais de 3.000 segundo outros…
(5) Vários foram os métodos de assassínio de
prisioneiros e as correspondentes designações. Por
exemplo, a de saca compreende o acto de, à
margem de toda a legalidade, milicianos ou militantes políticos,
irem aos locais de detenção de prisioneiros e
selectivamente, mediante listas previamente elaboradas, ou por
reconhecimento à vista, ou de forma indiscriminada retirarem
os seleccionados para, de seguida, os torturarem e/ou os lincharem.
Muitas vezes, a sanha de chacina era tanta que procediam ao assalto
das prisões, mesmo que as forças de protecção
pública o tentassem impedir, para de seguida assassinar
indiscriminadamente todos os presos que encontrassem pela frente;
era então o asalto.
(6)
Durante esse ataque, a 4 de Janeiro, um piloto alemão que,
por ter sido atingido o seu avião tivera de saltar em
pára-quedas, foi atado a um automóvel e arrastado
pelas ruas até morrer. Sperrle, comandante da Legião
Condor solicitou verbalmente a Franco um bombardeio de represália
sobre Bilbau mas Franco não o autorizou, ordenando que sem
ordem expressa não se bombardeará nenhuma cidade ou
centro urbano e que, quando haja necessidade de
bombardear objectivos militares em povoações ou
próximo delas, dever-se-á ter especial cuidado com a
precisão do tiro para que se evitem vítimas na
população civil (vide Mis Cuadernos de
guerra, A. Kindelán, s.d., Plus Ultra, Madrid).
(7)
Perto de 150.000 homens, 350 canhões e cerca de 150 aviões
de combate.
(8)
O Exército governamental do Norte, comandado pelo General
Llano de la Encomienda, funcionava, de certa forma, regionalizado. O
1º Corpo de Exército, o de Euzkadi, que estava, na
realidade, às ordens do lehendakari Aguirre, com o
Coronel Montaud (francês), como Chefe de Estado-Maior, era
composto por 4 divisões e 16 brigadas mistas. O Coronel
Garcia Vayas comandava o 2º Corpo de Exército, o
santanderino, com 3 divisões e 12 brigadas. O Corpo de
Exército Asturiano, às ordens do Tenente-coronel
Linares, era constituído por 7 divisões e 17 brigadas.
(9)
O que foi feito sobre Arbacegui-Guerricaíz e Urruchúa.
(10)
Nomeadamente, a ponte sobre o rio Oca, a nordeste de Guernica, na
zona de Rentería, a única passagem rodoviária
em muitos quilómetros.
(11)
Não é igualmente despiciendo o facto de o arrogante
Tenente-coronel Wolfgang von Richthofen (um apolítico militar
profissional) se encontrar frequentemente em rota de colisão
com Mola e até com o seu comandante, o Tenente General Hugo
Sperrle, considerando que os espanhóis eram pouco lestos em
explorar os seus êxitos militares.
(12)
No seu relatório, o comandante da esquadrilha italiana afirma
que apesar das dificuldades, o objectivo foi atingido,
ignorando que a ponte permanecia incólume.
(13)
Claramente atribuíveis aos Junkers, houve 17 impactos
na periferia do núcleo urbano, junto à ponte sobre o
Rio Oca, e 13 no interior do perímetro urbano.
(14) Vide, por exemplo, Joaquim Namorado, A Guerra Civil de
Espanha na poesia portuguesa - uma Antologia.
(15)
Entre outras, a fábrica de armas ligeiras Unceta y Cia,
e as Oficinas de Guernica onde se fabricavam diversos tipos
de explosivos para a Força Aérea e a Marinha.
(16)
Havia em Guernica vários quartéis onde estavam
estacionados os batalhões Saseta, Loiola e Guernikako Arbola. Estava lá igualmente estacionado o
Comando de uma divisão do Exército de Euskadi, sob o
comando do Cor. Llarch, para a defesa do sector.
(17) O que Onaindía conseguiu junto de sectores católicos
progressistas, liderados por Jacques Maritain, que subscreveram um
vigoroso manifesto de indignação.
(18)
Em Setembro desse ano, uma comissão técnica chefiada
por um engenheiro do Ministério das Obras Públicas
(Estanislao Herrán), depois de ouvir múltiplas
testemunhas e investigar as ruínas, elaborou um minucioso e
detalhado relatório que provava sem sombra de dúvida a
existência do bombardeio, incluindo dados técnicos como
a localização dos impactos das bombas e as linhas de
progressão dos focos de incêndio. Mas os peritos de
propaganda e comunicação dos sublevados haviam
decidido negar tudo e o Relatório Herrán, como viria a
ficar conhecido pelo nome do seu autor, foi arquivado até
Ricardo de la Cierva o ter trazido a lume.
(19)
Digo provável e não evidente porque há fortes e
documentados testemunhos de sapadores do Exército rebelde e
mesmo de habitantes que afirmam ter visto vestígios de
armadilhas incendiárias colocadas pelo Exército basco
em retirada. Esta prática é aliás confirmada
por Víctor de Frutos, comandante de Divisão
governamental e autor do livro Los que no perdieran la guerra.
Ao descrever a queda de Bilbau, Frutos afirma:
«...», a
companhia (responsável pela protecção das
forças em retirada) abandonaria as posições
ao amanhecer, com a missão de incendiar a cidade velha,
atrasando o passo às forças inimigas e aos seus
tanques. «...»
No caso de Guernica
esses artefactos poderiam ter sido colocados pelos bombeiros de
Bilbau que, chamados por Cástor Uriarte, acorreram ao combate
ao incêndio cerca das 22h00 mas cuja actuação,
pusilânime e descontrolada, acabou, segundo muitos, por ser a
verdadeira razão das proporções do sinistro.
Uriarte e o comando dos bombeiros tomaram decisões
profundamente erradas, sendo uma delas, o terem hesitado em
circunscrever o incêndio pela técnica do contra-fogo,
fazendo explodir os edifícios periféricos ao núcleo
do sinistro. Pelas 3 da madrugada, perante o alastramento do
incêndio, Cástor Uriarte deu ordem de desistir do
combate às chamas pelo que os bombeiros regressaram a Bilbau.
(20) Franco e Mola desconheciam em absoluto os planos dos alemães.
Ficaram profundamente irritados com a acção
indisciplinada de Guernica e admoestaram os alemães.
Cometeram, no entanto, o erro de se deixar influenciar por Luis
Bolín que os convenceu a negarem o bombardeamento, como forma
de damage control. Ao tomar conhecimento de que alguns camisas nuevas da Falange se preparavam para, uma vez
conquistada Guernica, cortar o mítico carvalho, Mola mandou
imediatamente guardá-lo por uma escolta de requetés.
(21)
As evidentes razões políticas referem-se
necessariamente à natureza simbólica da urbe e não,
como alguns historiadores afirmam, à tentativa que o Exército
de Euskadi estava a fazer para conseguir negociar uma rendição
separada com os italianos, naquilo que viria a ficar conhecido como
o Pacto de Santoña. Juan de Ajuriaguerra, presidente do Bizkai Buru Batzar iniciou os contactos com os italianos
apenas após a queda de Bilbau e não antes.
(22) Com efeito, os alemães não possuíam
aviões bombardeiros pesados (o que lhes viria a ser fatal na
batalha de Inglaterra). A doutrina alemã da guerra aérea
considerava a Luftwaffe como uma arma táctica de apoio
à infantaria. A maior parte dos bombardeamentos da Blitzkrieg foi feita com aviões ligeiros de ataque ao solo, os célebres Stukas. A má prestação dos He 111 (e dos
Ju-86) na GCE levou ao seu abandona e os Ju-52 eram apenas
bombardeiros improvisados, sendo aviões de transporte de
raiz.
(23)
O general italiano Giulio Douhet (1869-1930) que, no início
dos anos 20, teorizou o uso estratégico dos ataques aéreos
à retaguarda inimiga, sem discriminação de
combatentes e civis, largamente usado na Etiópia.
(24) Considerando tão-somente a demografia conhecida da zona (no
máximo 6 mil pessoas, considerando os militares lá
estacionados) e o bom-senso, já que mesmo o menor número
de vítimas apresentado pelas díspares versões
do mito, é superior ao que Madrid sofreu durante toda a GCE.
(25) Inicialmente concebida para dar resposta a uma encomenda do governo
para um painel a integrar no Pavilhão espanhol da Exposição
Universal de Paris, a tela foi rapidamente rebaptizada a fim de dar
visibilidade plástica logotípica ao mito do
bombardeamento daquela povoação basca. |