Fátima
foi incessantemente o
grito de fé de um povo
por Simão
dos Reis Agostinho
A eterna
disputa entre direita e esquerda políticas é a guerra
civil institucionalizada do sistema ideológico. Comunistas,
Socialistas, Social-democratas, Liberais, Fascistas ou qualquer outra
facção que ponha o querer das ideias sobre a boa
imposição da realidade contribui, de forma desastrosa,
para a luta interminável entre pólos e o descorar de um
olhar descomprometido mas responsável do real.
Acontece
que votámos toda a actividade política a isto. Depois
de iniciada uma determinada corrente da história nas terras de
França, ao sabor de sangue guilhotinado e de perseguição
motivada pelo ódio, confinámos a argumentaria da
oratória da arte de governar os povos ao combate letal da
oposição de ideias fabricadas e escolhidas. Demasiadas
vezes vimos a vontade suprema de moldar o mundo segundo a ideologia
ser levada na ponta da espingarda.
Uma
ideologia, seja ela qual for, rege-se por um princípio
limitador da inteligência: aprisiona o pensamento e o
discernimento humanos a um padrão que determina de que forma
se compreende o que é objectivo. Em suma, omite todo o sentido
de “bom senso” na prática da soberania das sociedades,
como se o querer esquematizado pudesse sobrepor-se à verdade
das coisas.
Hoje os
partidos são escolas profissionais refugiadas nestas
ideologias. Estruturas de cunha, amiguismo, arrivismo e garantia de
emprego e poder de alguns. O sistema democrático que servem é
o campo que abriram a todos os jogos que dominam, perante claques
mais ou menos entusiasmadas conforme o decorrer dos desafios. É
ideologia organizada em sistema empresarial, que promete boas
partidas e enche jornais com as contratações.
No fim, a
ideologia é hoje um pretexto das sociedades complexas, ditas
livres e dos direitos fundamentais garantidos, para a existência
legal da competição pelo poder. E isto levanta um
problema fundamental, de cuja resposta dependemos em grande escala
para garantir o futuro: o poder é um direito a ser disputado
ou um dever a ser herdado?
Dir-me-ão
que a direita compreende melhor, nos seus trâmites estatutários
e programáticos, toda a lógica que repudia o poder
popular. Ou seja, reconhece que o poder político e de Estado é
mais a quem deve do que a quem quer. Mas daí surge outra
questão, mais complexa e difícil de debater, que se
prende com as várias direitas que se assumem neste espectro e
o reclamam.
Primeiro
porque o liberalismo se rege pelo princípio da meritocracia
burguesa. Segundo porque as ideologias autoritárias da direita
legitimam o poder num culto do chefe, na divinização da
personalidade e na crença em algo que morre com o seu autor.
Salvo raríssimas excepções de circunstância
motivadas pelo decorrer dos factos históricos, como no caso do
Estado Novo e de Salazar, é esta a verdade da autoridade da
direita presa à cartilha da ideologia.
Mas é
obvio que a direita e a esquerda não são correntes a um
mesmo objectivo humano, distinguindo-se apenas na forma. É
manifestamente abstruso colocar a apreciação na suposta
“boa vontade” dos indivíduos que querem fazer valer
qualquer visão do mundo. Em última análise,
impor essa visão seria limitador de uma Liberdade maior, esta
sim um direito. As direitas têm em grande parte partículas
de Bem Comum. As esquerdas substituem-nas pelo bem da ideologia e do
Estado porque todos são, teoricamente, o Estado.
O assunto
é em mais profundo do que o que aqui tento explanar, mas na
prática tudo se resume à defesa, ou não, da não
imposição de algo que não seja a Verdade. E o
que as ideologias fazem é construir as suas próprias
ilusões de manipulação ao sabor de uma vontade,
tantas vezes desligada de qualquer sentido de realidade ou fruto de
uma leitura parcial do fluxo da história.
Ora, a
Verdade não se constrói, nem manipula ou detém.
A Verdade cumpre-se no que ela tem de imutável porque eterna.
Chama-nos a todos para conhece-la pelo reconhecimento,
independentemente do querer transitório e efémero dos
indivíduos. A ideologia não serve esta Verdade na mesma
medida em que a Verdade não é ideológica. E é
por isso que, sem medo de apreciações erradas, me nego
ser de direita, de esquerda, de centro ou de qualquer outra posição
de hemiciclo. Sou do que, na melhor forma temporal de cumprir e fazer
cumprir o eterno passa o testemunho do poder que é dever.
Porque o
poder só se torna direito se construirmos a sua função
e o seu objectivo. É dever na medida em que reconhece ser
deposito de algo que nos é exterior, mas no qual somos
convidados a participar como executores.
Também
na direita há violação do princípio deste
reconhecimento. |