Cinco
notas políticas sobre a direita em Portugal
(Proposta
de reflexão e esboço de diagnóstico)
por Abel Morais
1.
Legitimidade
A
direita não existe em Portugal – por si. Existe em função
de definições externas. A direita não existe por
direito próprio. Existe na dimensão em que lhe é
permitida a expressão.
A
direita não existe em Portugal por ter projecto próprio,
por se definir, caracterizar e actuar por si, delimitar as suas
fronteiras ideológicas e esfera de actuação,
mobilizar meios e sectores sociais. Existe porque alguns projectos
são rotulados como tal.
A
direita não existe em Portugal por ter ideologia, programa,
meios e capacidade de acção. Não é a
direita que se define, é a direita que é definida por
temas, conceitos e referências destinados a descaracterizar a
sua natureza e objectivos.
A
direita em Portugal foi transformada em herdeira forçada do
anterior regime numa continuidade genealógica imposta pela
esquerda. Foi ficcionado um conflito de legitimidade entre o novo e o
antigo regime por esta associação forçada que
priva a direita do seu espaço de representação
política.
2.
Heranças
A
direita funciona como instrumento da esquerda. É a realidade
em que aquela vê a imagem dos seus adversários
representados da forma mais conveniente. Há um direito
inerente à esquerda de se pronunciar sobre a direita, de dizer
o que pode ser e como pode ser, o que deve ser. Esta é a
direita concebida e armadilhada pela esquerda. A direita está
obrigada a justificar o passado e o presente, a recorrer a linguagem
e conceitos contaminados pela esquerda para referir-se a questões
e atitudes sociais ou a categorias políticas ou culturais. A
esquerda quer fixar a direita à defesa irrelevante de épocas
e conjunturas históricas, de factos e práticas que não
definem a direita ou se situam noutros universos políticos,
paralisar a elaboração autónoma sobre a herança
específica da direita em Portugal, a interpretação
do seu passado e – mais importante – a capacidade de actuar no
presente.
Ao
mesmo tempo, a genealogia da esquerda permanece intocada ou raramente
está sob crítica – apesar da longa herança na
concepção e vigência de regimes de ditadura, de
genocídios e estratégias de engenharia social
fracassada, da solidariedade com regimes criminosos, corruptos e
incompetentes.
3.
Estratégia e base de apoio
A
direita foi desideologizada. Não está em condições
de participar com eficácia na competição
política, reforçar o pluralismo e defender um projecto
para a comunidade. Não tem um programa de políticas
sociais nem um fio condutor ético. Não possui uma
fórmula estável de actuação política.
Pode ser estatista, social ou neoliberal, aceitar o Estado-gestor, o
Estado-terapêutico ou o mínimo de Estado. É uma
entidade que não se reconhece em si mesma, que põe em
causa a sua base de apoio por não possuir um modelo estável
de actuação nas áreas económica,
cultural, estética e moral; que não enfrenta a clivagem
social imposta pela esquerda, compreendendo que a sua base apoio deve
estar naqueles com uma clara percepção da realidade e
uma justificada suspeita da utopia.
Como
exemplo, cite-se uma ideia presente em muitos autores à
direita no século XIX, ao discutir-se o alargamento dos
instrumentos de representação política. Escreveu
um deles que era entre os que viviam directamente do seu salário
que se encontrava a sede “dos instintos conservadores mais
profundos da nação” (Jean-Baptiste de Villèle),
o que hoje se poderia traduzir como os mais adversos à
manipulação da realidade, às estratégias
de anulação dos vínculos sociais duradouros, à
atomização das identidades e ao culto da utopia.
4.
Mecanismos de controlo
A
direita vive envolta numa atmosfera de medo. Receia expor a sua visão
do mundo, aquilo que tem de defender sob pena de deixar de ser a
realidade que deve ser: um corpo coerente de referências
fundamentais, fundadoras de princípios e acção,
de conceitos contidos numa clara grelha ideológica que define
uma linha programática conjugando prática e discurso
atentos à caracterização, defesa e expressão
do interesse nacional devidamente identificado e à perpetuação
da unidade organizada com vista a um fim que é a comunidade.
Ao
ceder à intimidação, perdem sentido as ideias,
os princípios, as propostas de acção que
fundamentam uma visão do mundo e um corpo organizacional –
os argumentos que deveriam sustentar esta realidade são
banidos da linguagem pública. Esta estratégia de
intimidação em que vive refém a direita exprime
uma forma velada de tirania cuja finalidade é a hegemonia
sobre a comunidade, o controlo político por formações
partidárias e o controlo dos quadros culturais e das normas
cívico-éticas que a sustentam.
O
controlo das instituições representativas e executivas
não é indispensável para o real controlo de uma
comunidade. O domínio sobre a opinião publica –
enquanto categoria política, fonte de autoridade e de
legitimidade para as opções dos centros de decisão
e representação, espaço de definição
para a formação de consensos, comportamentos,
referências éticas, códigos sociais, súmula
e reflexo de uma comunidade – é mais importante do que o
controlo das instituições políticas.
O
exercício do poder político directo pode revelar-se
menos decisivo do que o controlo e possibilidade de uma eficaz
utilização dos instrumentos que criam e propiciam uma
atmosfera cultural e social – a ordem dos factores não é
aqui arbitrária – inibidora daquele. Deter o poder político
ou estar na oposição pode ser, em termos relativos,
indiferente para o detentor daqueles instrumentos. O fundamental é
influenciar os actos e os tempos da decisão política e
controlar os quadros de referência ético-cultural de uma
comunidade.
5.
Na essência do político
Esta
é uma conjuntura paradoxal: falido o modelo marxista, caídas
as ditaduras do “socialismo real”, operada a recentragem em
alguns partidos socialistas, questionada a viabilidade do modelo
social-democrata nórdico, em Portugal pouco disto se reflecte
no debate das ideias e suas consequências no aspecto político.
Mantém-se a hegemonia incontestada da esquerda, de que um
discurso “centrão” se transformou no melhor aliado com a
sua postura equidistante, tendencialmente neutra ou complacente no
plano dos valores, politicamente orientada para a composição
de interesses. Esta situação favorece um equívoco
fundamental, com a definição à direita de
personalidades e organizações que – de facto – não
o são.
Com
duas ordens de consequências:
a)
Aquelas nunca irão tornar seus temas, referências e
categorias que não pertencem ao seu real espaço
político e que, deste modo, vão permanecer ausentes do
debate e da acção política;
b)
Colonizada a área da direita pela não direita, qualquer
expressão daquela é remetida para o espaço
desautorizado e negativo onde confluem todos os fantasmas de ameaças
ao regime, de subversão do sistema, de radicalização
e acção extralegal, a partir do qual qualquer forma de
iniciativa política é fácil e imediatamente
desacreditada.
Esta
realidade origina uma forma de polarização absoluta que
se exprime por níveis distintos de conflitualidade a serem
accionados em função de uma atmosfera que se pretende
impor ou de um determinado fim a atingir.
Da
hostilidade extrema ao ostracismo ou descrédito com recurso
aos instrumentos de construção da opinião
pública, a finalidade é perpetuar um antagonismo que
deve estar presente em toda a parte: dos comportamentos sociais ao
modelo económico, das questões de educação
ao modelo de família, das questões de religião
ao modelo ético, para possibilitar a mobilização
de segmentos de toda uma área política em momentos e
planos distintos. Esta estratégia de mobilização
mascara o conflito político essencial expresso no desígnio
de impor derrotas sucessivas num processo permanente de anulação
e de recuperação da direita como ameaça. Com
isto perpetua-se a coesão, a mobilização e a
identidade política da esquerda; esta demonstra a eficácia,
poder de atracção e superioridade da sua visão
do mundo.
A
esquerda leu e aprendeu a lição de A Essência
do Político.
E
para que serve, afinal, a direita?
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