SÉTIMA ARTE
O
Pioneiro de Lisboa
por João Marchante
Manuel
Maria da Costa Veiga inicia a sua actividade cinematográfica
como exibidor de filmes estrangeiros em Lisboa. Embora residente em
Algés, era uma típica figura da Capital na viragem do
século XIX para o XX — dandy alto e espadaúdo,
de farta mas cuidada barba à moda —, além de curioso
e especialista em mecânica e electricidade, o que lhe dava uma
aura de mágico, nesses tempos da iluminação a
gaz.
Costa
Veiga ajudou Edwin Rousby na primeira exibição em
Portugal de imagens em movimento, que decorreu no Real Coliseu da Rua
da Palma (hoje desaparecido, para dar lugar a caixotes pós-modernos);
sessão essa que teve na assistência o Infante D. Afonso,
irmão do Rei D. Carlos I, o que revela o empenho da Casa Real
nas novidades científicas e artísticas que estavam a
surgir, na Europa, na sequência da primeira apresentação
pública — em Paris, a 28 de Dezembro de 1895 — de imagens
captadas, reveladas e projectadas pelos irmãos Lumière,
com a sua maravilhosa máquina Cinématographe.
A
referida estreia lisboeta aconteceu em Junho de 1896 e nela foram
projectadas fitas rodadas à volta do Mundo por operadores do
pioneiro londrino Robert-William Paul. Foi um sucesso público,
esta iniciativa do misterioso exibidor itinerante (húngaro ou
americano, ninguém sabe) Edwin Rousby, «o electricista
de Budapeste». Este, em Setembro, propicia nova sessão
pública em Lisboa, agora com películas já
filmadas no nosso País, pelo operador Harry Short, que Paul
mandara para o sul da Europa à caça de imagens. A
Cinemateca Portuguesa possui dois destes filmes: A Boca do Inferno e A Praia de Algés na Ocasião dos Banhos. Em
Janeiro de 1897, Rousby parte definitivamente de Portugal, mas deixa
em Lisboa a semente da cinefilia.
Depois
deste flask-back, para enquadramento histórico da
aparição do Cinema («Animatógrafo»,
nas palavras de então) em Lisboa, vamos ao nosso pioneiro:
Costa Veiga, após várias tentativas falhadas nesse
sentido, conseguiu estabelecer-se como exibidor, inaugurando o Éden
Concerto, aos Restauradores, e a esplanada D. Luiz Filipe, em
Cascais. Não tardou, no entanto, a dar o salto para a produção
de filmes. Assim, aproveitando a estada sazonal do Rei D. Carlos em
Cascais, no Verão de 1899, filma a pessoa real na praia, capta
mais algumas vistas da então famosa estância balnear, e,
finalmente, apresenta a sua primeira película: Aspectos da
Praia de Cascais.
Foi
o início de uma carreira de grande actividade como
documentarista (palavra e conceito inexistentes à época,
mas é disso que já se trata), que atravessará
toda a primeira década do século XX, registando os
principais acontecimentos sociais e políticos, com a sua
câmara inglesa Urban.
As
vindas a Portugal de Chefes de Estado, e outras altas figuras, não
lhe escaparam; e, temos, assim, a Série — interessante e
fundamental para a compreensão da História da Europa —
«Visitas a Lisboa»: Eduardo VII (1903), Afonso
XIII (1903), Duques de Connaught (1903) Imperador da
Alemanha Guilherme II (1905), Presidente de França
Émile Loubet (1905), Rei de Saxe (1908).
Por
este motivo, ficou conhecido por «Cineasta dos Reis», em
oposição jocosa ao seu contemporâneo Aurélio
da Paz dos Reis, «o Reis Cineasta», do Porto — primeiro
português a dar à manivela uma câmara de filmar,
e, revolucionário republicano, por sinal… Deste, falaremos
noutro dia.
Entretanto,
Costa Veiga fundou uma empresa produtora de Cinema — Portugal Filme
—, continuando ainda a sua actividade profissional nos ramos da
exibição e distribuição de fitas.
Descobriu também, para o Cinema Português, Artur Costa
de Macedo, que viria a ser um dos nossos melhores directores de
fotografia, decisivo na Época de Ouro do Cinema Português
(décadas de 1930 e 1940), e que trabalhava antes na garagem
Auto-Palace, ao Rato.
Num
tempo muito anterior ao advento da Televisão, era através
do Cinema que os Estados comunicavam com os seus cidadãos e
passavam para o exterior as imagens do País. Neste contexto,
os filmes de Costa Veiga fizeram parte de uma grande e última
ofensiva diplomática da Monarquia Portuguesa. A já
referida Série «Visitas a Lisboa» foi distribuída
por toda a Europa, com o apoio do Rei D. Carlos, mostrando Lisboa,
como capital cosmopolita, acolhendo as principais figuras políticas
do Mundo.
Note-se
que os filmes, embora numa fase embrionária da Sétima
Arte — em formato de curtas-metragens, a preto-e-branco, mudos —,
eram um negócio rentável; e, Costa Veiga pôde
enriquecer, com a produção, distribuição
e exibição de fitas, despertando, desta maneira, o
apetite de muitos outros para esta indústria, os quais não
tardaram a aparecer, em força, em Lisboa,
Sendo
Costa Veiga «O Cineasta dos Reis», de facto, pode também
dizer-se que a sua carreira sofre um grande abalo com o horrível
regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço.
Temos assim — simbolicamente — como uma das últimas obras
do realizador: Os Funerais de S. M. El-Rei D. Carlos I e do
Príncipe Real D. Luiz Filipe (1908).
Às
portas de passarem cem anos sobre o cobarde crime do Terreiro do
Paço, não será a hora de se desenterrarem e
exibirem os filmes do pioneiro lisboeta — do Cinema Nacional —
Manuel Maria da Costa Veiga?
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