Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
Rostropovitch, entre nós

por F Santos

Jacqueline du Pré, Pablo Casals, Mstislav Rostropovich. Três nomes, três génios do violoncelo. Rostropovich, o mais famoso dos três, deixou-nos no passado dia 27 de Abril, com 80 anos.

Quem diria que o jovem que aos 23 anos recebeu o Prémio Estaline viria a ser um dos mais aguerridos críticos do sistema concentracionário que representava a URSS?

Em 2002 declarou que o melhor passo da sua vida não se encontrava na música mas numa página da carta que dirigiu ao Pravda em 1972, em que declarava a sua solidariedade com Aleksandr Solzhenitsyn e que lhe valeu a fúria do regime, a perda da nacionalidade soviética e o exílio.

Em 1989 a imagem de um homem tocando uma sonata de Bach junto ao Muro de Berlim correu mundo e como que coroou décadas de luta pela liberdade no seu país. Quatro anos depois, em digressão pela Rússia, é acompanhado pelo pianista Ignat Solzhenitsyn, filho de Aleksandr Solzhenitsyn. Um símbolo.

São várias as obras que lhe foram dedicadas e que estreou, de compositores tão notáveis como Benjamin Britten (seu grande amigo), Henri Dutilleux, Dmitri Shostakovich, Aram Khachaturian, Krystof Penderecki. O total de obras que estreou foi de 117.

Para além da incrível mestria técnica, Rostropovich era um músico de extrema sensibilidade: “Apesar de ter tocado o Concerto de Dvorak milhares de vezes, cada vez que toco as últimas notas tenho lágrimas nos olhos, é tão belo. É isto que pretendo trazer ao público.”

Os princípios de vida não foram fáceis, na sua Baku natal (Azerbeijão). De origem judaica, Rostropovich teve desde cedo a influência musical de seu pai: “[O meu pai] morreu quando eu tinha 14 anos e éramos bastante pobres. Durante a [Primeira] Guerra fomos evacuados para uma cidadezinha chamada Orenburg e eu tinha que tocar no teatro local para poder ganhar 70 rublos, o que bastava para comprar um pacote de manteiga. Hoje tenho uma montanha de manteiga!”

Ao contrário de tantos russos endinheirados que só pensam no seu conforto e em dispender dinheiro de forma quase pornográfica, Rostropovich teve sempre em mente as pessoas, o povo russo: “Criei fundações na Rússia. Patrocinei a vacinação de mais de um milhão de crianças na minha terra e fundei programas escolares com os nomes de grandes compatriotas meus: Oistrakh, Richter, Gilels, Shostakovich, Prokofiev e Schnittke.”

Não haverá outro Rostropovich mas a sua herança fica: herança humanista (na prática, não na teoria lamecha e hipócrita) e herança musical, tanto pela influência sobre gerações de músicos como sobre gerações de melómanos apaixonados pelo seu mágico dedilhar.

Musica Aeterna.

   
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