Rostropovitch, entre nós
por F Santos
Jacqueline du Pré, Pablo
Casals, Mstislav Rostropovich. Três nomes, três génios
do violoncelo. Rostropovich, o mais famoso dos três, deixou-nos
no passado dia 27 de Abril, com 80 anos.
Quem diria que o jovem que aos 23
anos recebeu o Prémio Estaline viria a ser um dos mais
aguerridos críticos do sistema concentracionário que
representava a URSS?
Em
2002 declarou que o melhor passo da sua vida não se encontrava
na música mas numa página da carta que dirigiu ao
Pravda em 1972, em que declarava a sua solidariedade com Aleksandr
Solzhenitsyn e que lhe valeu a fúria do regime, a perda
da nacionalidade soviética e o exílio.
Em
1989 a imagem de um homem tocando uma sonata de Bach junto ao Muro de
Berlim correu mundo e como que coroou décadas de luta pela
liberdade no seu país. Quatro anos depois, em digressão
pela Rússia, é acompanhado pelo pianista Ignat
Solzhenitsyn, filho de Aleksandr Solzhenitsyn. Um símbolo.
São várias as obras que lhe foram
dedicadas e que estreou, de compositores tão notáveis
como Benjamin Britten (seu grande amigo), Henri Dutilleux, Dmitri
Shostakovich, Aram Khachaturian, Krystof Penderecki. O total de obras
que estreou foi de 117.
Para além da incrível
mestria técnica, Rostropovich era um músico de extrema
sensibilidade: “Apesar de ter tocado o Concerto de Dvorak milhares
de vezes, cada vez que toco as últimas notas tenho lágrimas
nos olhos, é tão belo. É isto que pretendo
trazer ao público.”
Os princípios de vida não
foram fáceis, na sua Baku natal (Azerbeijão). De origem
judaica, Rostropovich teve desde cedo a influência musical de
seu pai: “[O meu pai] morreu quando eu tinha 14 anos e éramos
bastante pobres. Durante a [Primeira] Guerra fomos evacuados para uma
cidadezinha chamada Orenburg e eu tinha que tocar no teatro local
para poder ganhar 70 rublos, o que bastava para comprar um pacote de
manteiga. Hoje tenho uma montanha de manteiga!”
Ao contrário de tantos russos
endinheirados que só pensam no seu conforto e em dispender
dinheiro de forma quase pornográfica, Rostropovich teve sempre
em mente as pessoas, o povo russo: “Criei fundações
na Rússia. Patrocinei a vacinação de mais de um
milhão de crianças na minha terra e fundei programas
escolares com os nomes de grandes compatriotas meus: Oistrakh,
Richter, Gilels, Shostakovich, Prokofiev e Schnittke.”
Não haverá outro
Rostropovich mas a sua herança fica: herança humanista
(na prática, não na teoria lamecha e hipócrita)
e herança musical, tanto pela influência sobre gerações
de músicos como sobre gerações de melómanos
apaixonados pelo seu mágico dedilhar.
Musica Aeterna. |