Ano I - Nº 8, Maio/Junho de 2007
Alameda Digital
A Direita e as Direitas
A Vitória do Centro à Direita

por Jorge Azevedo Correia

Nos últimos meses viveram-se momentos estranhos “à direita”, que culminaram no fim de um projecto de autonomia e sedimentação de princípios que existia há vários anos.

Observar-se Ribeiro e Castro, figura destacada do “centrismo” no seio do CDS, apresentar-se como paladino da matriz ideológica de direita, foi uma dessas surpresas. Ribeiro e Castro que havia batido a porta no consulado de Adriano Moreira, por considerá-la uma deriva “direitista” inaceitável e desvirtuadora dos príncipios do partido, apresentou-se assim na última contenda como o grande defensor de um projecto ideológico de direita para Portugal. Infelizmente a proposta soou a falso e veio acompanhada de um vazio de aplicação dos princípios a propostas concretas confrangedora. A ideia de que o partido estaria pronto a receber Freitas do Amaral de novo, apesar da forma presente em que este reivindica um acervo de ideias do legado social-democrata (Direitos Sociais Laicos, Culto da Igualdade, Democracia Radical), é apenas uma das demonstrações de como o papel não coube bem a Ribeiro e Castro.

Do outro lado da contenda estava Paulo Portas, o gerador do projecto de direita partidária que se passou a chamar PP. Num golpe de teatro Paulo Portas voltou à ribalta contra o seu próprio projecto. A “direita cultural” é coisa do passado e Portas criou todo um projecto em torno da sua personalidade, como havia sido apanágio do CDS e de toda a retórica do “partido de notáveis”. Era esse partido com uma discursividade rotunda, fundado no “centrão”, mas com “senhores” e uma estrutura interna aristocrática (o CDS era um dos partidos que mais se baseavam nas instituições e menos nas pressões dos militantes, dispondo de um conjunto de órgãos cooptados e não eleitos, onde a titularidade provinha de serviços prestados) que Portas veio combater. Na recente eleição para a liderança do partido, porém, Portas veio reclamar-se de uma legitimidade que era a do CDS e não a do PP, ou seja, que o carisma, a personalidade do líder e a sua qualidade técnica, se encontra acima do “ideário”. Merecia o Poder pela atenção das televisões e não pelo que lhes diria.

O tema não é novo e “à direita” ainda menos o é. A longa tradição política portuguesa está cheia de episódios em que a lealdade política é reclamada não pelo projecto político, mas pelas qualidades, virtudes e carisma do aspirante a líder. Marcello Caetano, António de Spínola e Cavaco Silva são apenas a ponta do icebergue à deriva que constitui a direita portuguesa, reveladores de um profundo sentimento (dir-se-ia sebástico) de que os homens são mais importantes que as ideias que servem. A impreparação do pensamento político, o deslumbramento com o Poder, são, no Portugal recente e tecnocrático, o elemento que mais se faz sentir na acção política e na afirmação de que os posicionamentos nada são para além de questões estéticas e de estilo.

De tudo isto está agora refém o CDS. A revolução das suas instituições tem sido contínua e encontra agora, pela nomeação do líder por “directas”, um vínculo de dependência fundamental entre a capacidade do líder de dar às bases o que elas desejam, ainda que estes desejos não sejam lícitos. A consequência é uma implícita redução dos Partidos a uma função de conquista do Poder em detrimento da sua função de agregar mensagens e projectos políticos com validade para a comunidade. Tal corresponde inevitavelmente a uma sectarização em que a pertença política corresponde não a uma relação com uma acção benéfica para a comunidade, mas à obtenção de desíginios individuais ou clientelares. A corrupção total de qualquer sistema político ou a manutenção de um pensamento único decorrem invariavelmente desta situação.

A aceitação deste paradigma tecnocrático não é de somenos e vai ao encontro do discurso do centrismo do PSD de Durão Barroso, em que qualquer acção que não fosse determinada pela ânsia do voto era considerada “sucata ideológica”. O partido de Portas vai ter muita dificuldade em explicar aos eleitores porque é que não vai agir no problema dos casamentos homossexuais, no caso da defesa dos valores cristãos da Europa, no subsídio público ao Aborto ou a operações de mudança de sexo.

Todos estes são “problemas concretos das pessoas”, como Portas assinalou, e não se percebe como podem ser solucionados pela panaceia tecnocrática.

   
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