A Vitória do
Centro à Direita
por Jorge Azevedo Correia
Nos últimos
meses viveram-se momentos estranhos “à direita”, que
culminaram no fim de um projecto de autonomia e sedimentação
de princípios que existia há vários anos.
Observar-se Ribeiro e
Castro, figura destacada do “centrismo” no seio do CDS,
apresentar-se como paladino da matriz ideológica de direita,
foi uma dessas surpresas. Ribeiro e Castro que havia batido a porta
no consulado de Adriano Moreira, por considerá-la uma deriva
“direitista” inaceitável e desvirtuadora dos príncipios
do partido, apresentou-se assim na última contenda como o
grande defensor de um projecto ideológico de direita para
Portugal. Infelizmente a proposta soou a falso e veio acompanhada de
um vazio de aplicação dos princípios a propostas
concretas confrangedora. A ideia de que o partido estaria pronto a
receber Freitas do Amaral de novo, apesar da forma presente em que
este reivindica um acervo de ideias do legado social-democrata
(Direitos Sociais Laicos, Culto da Igualdade, Democracia Radical), é
apenas uma das demonstrações de como o papel não
coube bem a Ribeiro e Castro.
Do outro lado da
contenda estava Paulo Portas, o gerador do projecto de direita
partidária que se passou a chamar PP. Num golpe de teatro
Paulo Portas voltou à ribalta contra o seu próprio
projecto. A “direita cultural” é coisa do passado e Portas
criou todo um projecto em torno da sua personalidade, como havia sido
apanágio do CDS e de toda a retórica do “partido de
notáveis”. Era esse partido com uma discursividade rotunda,
fundado no “centrão”, mas com “senhores” e uma
estrutura interna aristocrática (o CDS era um dos partidos que
mais se baseavam nas instituições e menos nas pressões
dos militantes, dispondo de um conjunto de órgãos
cooptados e não eleitos, onde a titularidade provinha de
serviços prestados) que Portas veio combater. Na recente
eleição para a liderança do partido, porém,
Portas veio reclamar-se de uma legitimidade que era a do CDS e não
a do PP, ou seja, que o carisma, a personalidade do líder e a
sua qualidade técnica, se encontra acima do “ideário”.
Merecia o Poder pela atenção das televisões e
não pelo que lhes diria.
O tema não é
novo e “à direita” ainda menos o é. A longa
tradição política portuguesa está cheia
de episódios em que a lealdade política é
reclamada não pelo projecto político, mas pelas
qualidades, virtudes e carisma do aspirante a líder. Marcello
Caetano, António de Spínola e Cavaco Silva são
apenas a ponta do icebergue à deriva que constitui a direita
portuguesa, reveladores de um profundo sentimento (dir-se-ia
sebástico) de que os homens são mais importantes que as
ideias que servem. A impreparação do pensamento
político, o deslumbramento com o Poder, são, no
Portugal recente e tecnocrático, o elemento que mais se faz
sentir na acção política e na afirmação
de que os posicionamentos nada são para além de
questões estéticas e de estilo.
De tudo isto está
agora refém o CDS. A revolução das suas
instituições tem sido contínua e encontra agora,
pela nomeação do líder por “directas”, um
vínculo de dependência fundamental entre a capacidade do
líder de dar às bases o que elas desejam, ainda que
estes desejos não sejam lícitos. A consequência é
uma implícita redução dos Partidos a uma função
de conquista do Poder em detrimento da sua função de
agregar mensagens e projectos políticos com validade para a
comunidade. Tal corresponde inevitavelmente a uma sectarização
em que a pertença política corresponde não a uma
relação com uma acção benéfica
para a comunidade, mas à obtenção de desíginios
individuais ou clientelares. A corrupção total de
qualquer sistema político ou a manutenção de um
pensamento único decorrem invariavelmente desta situação.
A aceitação
deste paradigma tecnocrático não é de somenos e
vai ao encontro do discurso do centrismo do PSD de Durão
Barroso, em que qualquer acção que não fosse
determinada pela ânsia do voto era considerada “sucata
ideológica”. O partido de Portas vai ter muita dificuldade
em explicar aos eleitores porque é que não vai agir no
problema dos casamentos homossexuais, no caso da defesa dos valores
cristãos da Europa, no subsídio público ao
Aborto ou a operações de mudança de sexo.
Todos estes são
“problemas concretos das pessoas”, como Portas assinalou, e não
se percebe como podem ser solucionados pela panaceia tecnocrática. |