Um César das Letras e da Portugalidade
por José Carlos Craveiro Lopes
Refiro-me, como é óbvio ao Amândio, ao muito nosso Amândio César.
Alguém disse que a vida é um caminho ladeado de túmulos e em que o último é o nosso. Com a idade tenho vindo a compreender a totalidade deste aforismo. À medida que vamos subindo os degraus da escalada da Vida, chegamos a uma altura em que começamos a ouvir – com insistência e nitidez -, vozes do passado, a chamar-nos. Amigos que nos deixaram e que “nos abrem, na alma, sulcos de dor e amargura”. E também de alegria por os termos conhecido e com eles convivido, por termos tido a oportunidade (e o privilégio) de termos bebido tudo o que conseguimos naqueles sempre fugazes momentos em que com eles estivemos e naquela “passagem vertical de cultura” que tão importante e determinante tem sido para o progresso do Homem e da sua Cultura. De entre os muitos que conheci dois vultos perfilam-se, majestosos, no alto trono em que merecem estar. Rodrigo Emílio e Amândio César. De Rodrigo muito tenho falado e escrito. E será sempre pouco, eu sei!
Quero hoje falar do nosso Amândio. Do Homem e Português que “quis correr o risco de o ser, até ao fim do seu fim”.
Conheci Amândio César, apresentado pelo meu Pai, teria eu doze, treze anos. Foi no Café Aviz, estou certo. Fiquei aturdido, lembro-me, por causa daquele ar enorme de Amândio: a sua cabeça, as suas mãos, a sua voz. Do que me disse nada me lembro. Fiquei sempre com a impressão que me tratou não como uma criança, mas sim como um “jovem adulto”.
Poucos anos depois – dois, três – passei a frequentar as tertúlias do velho Aviz. Aí sim já me lembro de muito. Amândio recordou-se logo de mim e aceitou que eu me sentasse na sua mesa (ou numa contígua) e desfrutasse da sua contínua escola de cultura que ele e outros (de igual jaez) prodigalizavam a uns poucos de jovens e menos jovens que por lá andavam.
Passado pouco tempo tive de enfrentar a vida adulta um pouco mais novo do que seria de esperar (pelo menos na altura). Comecei a trabalhar na Emissora Nacional. E qual não é o meu espanto quando fui colocado nos Noticiários Ultramarinos, dirigidos pelo Amândio César, e que ficou tão surpreendido (como eu) de nos (re)encontrarmos naquele local. Amândio tinha pedido um redactor e apareci-lhe eu – um puto! Mas não deu o braço a torcer. Destinou-me logo o noticiário desportivo. Aí eu não poderia fazer muitos disparates! Lá me saí melhor ou pior e passados menos de dois meses chama-me ao seu gabinete e diz-me: “a partir de amanhã ficas tu responsável pela parte internacional, e o outro vai para o desporto. Mas eu quero ver tudo o que escreves”. Bom, fiquei encantado. Passados menos de 15 dias diz-me que a partir daquela data passaria a acumular e fazer também o noticiário nacional. E passou a velar por tudo o que eu escrevia. A certa altura passou-me a dar muita liberdade. Só desejava ser contactado caso fosse algum caso mais “bicudo” ou importante.
Foi, reconheço-o o meu grande mestre. Com ele bebi, no dia-a-dia, muito do pouco que hoje sei. Foi um segundo Pai, numa altura em que eu tinha acabado de perder o meu. Tratou-me com a severidade e o amor que um Pai prodigaliza a um filho. Ensinou-me, corrigiu-me, orientou-me. Por tudo isso eu teria de lhe ser eternamente grato!
Mas não, não é só por isso que eu lhe dedico esta admiração ou estas minhas linhas. É do vulto de Cultura e Portugalidade que eu quero falar. Aí sim ele é enorme. Não é pois de gratidão que aqui falo. É sim de admiração e respeito por um Homem Total que ele foi!
E quem foi e o que representou Amândio César, agora que se cumpriram 20 anos do seu desaparecimento físico?
Esta é a primeira pergunta que a mim próprio fiz antes de alinhavar estas poucas palavras. Bem sei que me é difícil responder. Em poucas palavras poderia caracterizá-lo: amava Deus, a Pátria, o Rei e entranhadamente a sua Família.
Mas esta definição é muito (mesmo muito) redutora. Tentemos outra: um “espírito irrequieto, cultíssimo, atento ao circundante que interiorizava, a tudo o que lhe tocava a sua sensibilidade, um vulcão que tumultuava de emoções, um “destrinçador” de situações com disciplina mental e inteligência enriquecida pelo seu muito saber e pela sua grande memória, um amante e respeitador dos cânones da ética e da estética. Um aglutinador e nunca um divisor. Um amigo dadivoso para os seus amigos. Aquele que procurava em cada um tudo o que pudesse ter de bom, omitindo-se de criticar o menos bom (ou mesmo o mau). E tanto (mas mesmo tanto) falta nesta síntese das minhas recordações de Amândio.
Mas sistematizemos um pouco estas minhas atabalhoadas memórias de Amândio César. Em muitos campos foi um verdadeiro César. Quero apenas aqui referir dois: o César do campo literário e o César do campo da Portugalidade.
Enquanto criador foi Poeta, jornalista, contista, ensaísta, critico literário, especialista em geografia literária, divulgador – até que a alma lhe doesse – da literatura ultramarina e de todo o mundo lusófono. ( e também co-autor – com José Moreira – do estatuto editorial da Livraria Editorial Pax, de Braga, marco cultural português do século XX).
Foi também um divulgador e acima de tudo um Homem que se interessou por tudo o que era publicado (fosse por quem fosse, e de qualquer cor politica ou de pele). Tinha necessidade de ver o belo. Devorava (é o único termo possível de ser aplicado) livros. Com frenesim, mas com espírito critico. Era capaz de ler dois livros por dia (e noite – pouco dormia). Sendo um católico empenhado odiava a injustiça (social ou cultural). Alguém lhe chamou o “neo-realista” de direita (veja-se o seu poema “Natal”, mas em que também não teme falar “das Nações ocupadas pela liberdade alheia”...). Aceitou de bom grado – e com fino humor – este epíteto.
Era um vulcão de sensibilidade, debaixo daquela couraça aparente da sua verve avassaladoramente excessiva. Tudo nele (poderemos dizer) era excessivo. Mas somente porque a vida era para viver no seu todo (não – nunca - às prestações). Ou era ou não era. E ele em tudo era. Na Vida, nas suas Amizades, no Quotidiano, no Respeito pelos seus Mestres (como recordo quando nos falava de Alfredo Pimenta), no respeito ao verdadeiro Povo e à Tradição, no Amor à Família, a Deus, à Pátria (que só concebia do seu Minho ao seu Timor), ao Rei, ao Belo, ao Ético e ao Estético. Tudo tinha de ser intenso ou então não era!
Corajoso (como poucos) nunca hesitou em dar o corpo ao manifesto. Percorreu as picadas de Angola e as da Guiné, com o seu camuflado, junto daqueles que arriscavam a pele no dia-a-dia. Precisava de ver, de contar, de escrever o que lá se passava. Mas não de Helicóptero ou de avião (com um Oficial ao lado a mostrar-lhe o que eles queriam). Isso não era para ele!
Os “do 25 do 4” nunca lhe perdoaram o seu combate literário aos do “neo-realismo”, que se tentava impor como politica oficial nos escritores, poetas, pintores, etc. no tempo do Estado Novo. Apesar de muitas – mas mesmo muitas – vezes Amândio reconhecer aqui e ali alguma genialidade nos seus escritos e poemas e não se eximir a escrevê-lo. (aprendi com ele e com o Rodrigo Emílio a respeitar o que é belo e bom, mesmo que de campos adversos ao nosso).
No dia 28 de Setembro de 1974 (e já de luto bem carregado pela morte da sua Pátria) é quase linchado na sua Coimbra de estudante. Consegue safar-se (sabe-se lá como) e vai de imediato procurar refúgio no seu Minho Natal. Junto de outro enorme vulto da Cultura Portuguesa – José Moreira. Passa depois a fronteira e vai-se aquecer à lareira de Castela. Segue-se o seu périplo por terras de Vera Cruz e o seu regresso à Pátria menorizada e definhada. (e ao seu fabuloso livro “País em Fuga”). Para continuar o combate na “Rua”. Os seus “Provisórios e Definitivos” são um marco literário e politico – que merecia, por si só, integrar-se num livro da sua Opera Omnia.
Amândio já tinha morrido um pouco – muito - com a queda da Índia Portuguesa. Morreu definitivamente com a perda do seu (nosso) Portugal. Ficou vivo – apenas fisicamente. Até que o “seu irmão corpo” lhe pregou a partida de o incapacitar. E assim ficou até ao fatídico dia de Agosto de 1987 em que o seu corpo disse definitivamente adeus ao vale de lágrimas em que Portugal se tinha transformado.
Foi amortalhado (conforme sempre desejou) na Bandeira da Tradição que foi também a do Senhor D. Miguel. António de Séves conseguiu que a Bandeira pedida lá estivesse. Para acariciar um corpo e uma Alma que sempre tinham envergado aquele Símbolo Sagrado da sua (nossa) Pátria.
Estas minhas palavras ficaram tumultuosas e confusas, e logo eu que as queria tronitroantes (como a sua voz e o seu pensamento) e belas. Mas pessoas há (muito poucas, infelizmente) que nos fazem entrar num turbilhão de recordações e de situações que impedem (quando se escreve de repelão e de seguida) absolutamente um pensamento racional escorreito e lógico. Às malvas, pois, com todas essas regras. Viva a Vida!
Confesso que pequei por excesso, e/ou omissão e também – e sobretudo - por desorganização mental. Mas ganhei em Alma, pois tudo o que tinha a dizer de Amândio só poderia ser dito de forma visceral e arrebatada.
Amândio César foi (e disso não nos esqueçamos) – para além de tudo o mais – um Grande, um Enorme Arrebatador! A que nada, nem ninguém, (para o bem ou para o mal) ficava indiferente!
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