Anti-Política
por Eduardo Silvestre dos Santos
“Eu não acredito nos seres humanos (…) Não
acredito na capacidade dos homens fazerem qualquer coisa socialmente
boa. Só são capazes de fazer qualquer coisa segundo os
seus interesses pessoais (…) Ou seja fascismo, ou seja democracia,
seja o que for, os homens ou aproveitam a dureza do fascismo para
obrigarem os outros a fazer aquilo que desejam, ou aproveitam a
liberdade da democracia para fazerem aquilo que podem em seu proveito
(…)”
RÓMULO DE
CARVALHO/ANTÓNIO GEDEÃO
O conhecimento político tende a ser construído a partir
de locais e posições de poder político,
económico e cultural. Porém, existem milhares de
histórias alternativas que podem ser contadas da perspectiva
daqueles que resistem ao Estado e às suas práticas
políticas. Estas histórias de resistência podem
caracterizar-se como “política dos níveis
inferiores”, saídas de posições sociais
subalternas que desafiam a hegemonia política, económica,
militar e cultural do Estado e das suas elites. Em contraste com a
Política, a Anti-Política acentua o papel das ideias, a
capacidade dos seres humanos em fazer escolhas e de defender essas
escolhas, bem como a possibilidade de mudança, apesar das
restrições de condições objectivas.
A Anti-Política pode ser imaginada como uma força
ética, política e cultural dentro da sociedade civil,
(...) que desafia a noção que os interesses da classe
política do Estado são idênticos aos interesses
da comunidade. Afirma uma independência permanente do
Estado, quem quer que esteja no poder, e articula duas formas
inter-relacionadas de luta anti-hegemónica. Em primeiro lugar, desafia o poder político material dos
Estados e instituições globais; em segundo lugar,
desafia as representações impostas pelas elites
políticas para servir os seus interesses. A Anti-Política
mostra quão profundamente ideológica pode ser a
Política, revelando “a política escondida do
conhecimento geopolítico”, segundo as palavras de Gearóid
O’Tuathail.
Apesar das práticas anti-políticas estarem normalmente
localizadas dentro das fronteiras políticas de um Estado,
sendo este o adversário principal, nem sempre assim acontece.
Com a intensificação do processo de globalização,
os movimentos sociais estão a tornar-se cada vez mais
transnacionais, desafiando as principais instituições
internacionais e estruturas globais de poder.
A Anti-Política não é um assunto de hoje. A
desobediência civil de Gandhi e os movimentos políticos
nacionalistas de descolonização do período após
a 2.ª Guerra Mundial podem ser definidos como a luta social das
populações, combinada ou não com a luta armada.
Nos EUA, os movimentos anti-guerra do Vietname e de direitos civis,
contra a segregação e discriminação
raciais, liderada por Martin Luther King foram, nos anos 1960’s,
outro exemplo de Anti-Política. Estabeleceram a ligação
entre o imperialismo fora das fronteiras e o racismo e a pobreza
dentro do país. Na Europa de Leste, enquanto a URSS apoiava
movimentos revolucionários no “Terceiro Mundo”, as ideias
dissidentes de Václav Havel, líder da escola
geopolítica checa, e Andrei Sakharov, entre outros, eram
consideradas fora da lei. Aí se engloba, do mesmo modo, o
“movimento de paz” na Europa Ocidental, contra a colocação
dos mísseis de cruzeiro e Pershing-II.
George Konrad, um húngaro que escreveu durante a
“guerra fria”, definiu a Anti-Política como uma força
moral da sociedade civil que articulava a desconfiança e
rejeição públicas do monopólio de poder
da classe política dentro do Estado – um poder brandido
contra as populações através de legislação
repressiva (i.e. a censura). Esta força moral não
pretendia derrubar o poder político, mas opunha-se à
opressão que ele exercia sobre as populações.
“Qualquer que seja a ideologia defendida por um
político, o que ele diz é apenas um meio para ganhar e
manter o poder. Um político para quem o exercício do
poder não seja um fim em si mesmo, é uma contradição
(...) A Anti-Política é a actividade política
daqueles que não querem ser políticos e que recusam a
sua quota de poder.(...) é um contra-poder que não o
toma e que nem sequer deseja fazê-lo. (...) A Anti-Política
e o governo trabalham em duas dimensões e esferas diferentes.
A Anti-Política não apoia nem se opõe a
governos; é diferente. Os seus apoiantes estão bem onde
e como estão; vigiam o poder político, exercem
pressão com base apenas no seu estatuto cultural e moral. É
o seu direito e a sua obrigação mas, acima de tudo é
a sua autodefesa. (...) A Anti-Política é a rejeição
do monopólio do poder da classe política. (...) Se
a oposição política ganhar o poder, a
Anti-Política mantém-se à mesma distância
e mostra a mesma independência do novo governo.
Com o desmembramento da URSS e a “Guerra do Golfo”, criou-se uma
nova ordem mundial, envolvendo uma maior dimensão
geo-económica e uma doutrina de neoliberalismo. O princípio
central desta doutrina é a liberdade económica para os
poderosos, uma economia que deve ser livre dos impedimentos e
“grilhetas” impostas pelos Estados, para tentar regulá-la
em nome do interesse público, que são consideradas
barreiras ao fluxo livre do comércio e do capital, e à
liberdade das empresas transnacionais de explorar a força de
trabalho e o ambiente no seu interesse. Por isso, a doutrina
argumenta que as economias nacionais devem ser desregulamentadas
(i.e. através da privatização das empresas
estatais) para promover a distribuição dos recursos
pelo “mercado”, o que significa na prática, pelos mais
poderosos.
O neoliberalismo defende a mobilidade de capitais, o afastamento da
produção dos Estados desenvolvidos e a centralização
do controlo da economia mundial nas mãos de empresas
multinacionais e seus aliados nas agências governamentais,
grandes bancos internacionais e instituições como o
Banco Mundial, o FMI e a OMC.
A competição global por empregos e investimentos que
esta doutrina provocou, teve como resultado o empobrecimento e a
marginalização de populações locais, dos
camponeses agricultores e dos trabalhadores da indústria, bem
como uma redução nos postos de trabalho e nas condições
sociais e ambientais, aquilo a que se chamou “o nivelamento por
baixo”. Um dos exemplos mais conhecidos dos movimentos que se
rebelaram contra este estado de coisas foi o “Movimento Zapatista”
do México.
Como este, vários exemplos de resistência ao
neoliberalismo surgiram em todo o mundo nos últimos 15 anos.
Movimentos sociais, de direitos humanos, organizações
não-governamentais, ambientais e locais. Esta resistência
é frequentemente uma resposta a condições
locais que são em parte produto de forças globais,
resistência que existe quer a nível local, quer global.
Em contraste com o discurso político oficial sobre a economia
global, estes movimentos articulam uma “globalização
inferior” que envolve uma “política de nível
inferior”, uma rede internacional emergente de grupos, organizações
e movimentos sociais.
Vários autores propuseram uma agenda para este tipo de
resistência, para contrariar e transformar a agenda do
neoliberalismo, onde se inclui a revitalização das
práticas democráticas e das instituições
públicas, a promoção da sustentabilidade
económica e ambiental, o encorajamento das raízes do
desenvolvimento económico, e a responsabilização
das empresas transnacionais pelo cumprimento de códigos de
conduta.
Podem os leitores perguntar-se o que terá esta sequência
de conceitos mais ou menos abstractos sobre a Anti-Política
com o actual estado de coisas no nosso País?
Pois bem! Eis o que penso:
O nível de competência e de liderança da nossa
classe política tem vindo a baixar progressiva e
inexoravelmente desde 25 de Abril de 1974. O PCP demonstrou
imediatamente a seguir, até Novembro de 1975, aquilo que
pretendia: o social-fascismo! Fora dele, a geração que
lutou contra o Estado Novo, dentro e fora do País, foi
desaparecendo por causas naturais e a qualidade da democracia
portuguesa foi baixando de nível com as mortes de Sá
Carneiro e Amaro da Costa e com a saída de Mário Soares
da Presidência da República, tal como a falta de
sucessores políticos à altura para Bismarck, em 1890,
levou a Alemanha, unificada e forte, vencedora da França e da
Áustria em 1870, à derrota na 1.ª Guerra Mundial.
A geração seguinte, repleta de reconhecidos pensadores
políticos e gestores tecnocratas (Miguel Cadilhe, Vital
Moreira, Ângelo Correia, Adriano Moreira, Valente de Oliveira,
Medina Carreira, Ernâni Lopes, etc.), cansada e desencantada de
estar manietada por opções políticas que nunca
souberam colocar o interesse do País acima dos interesses
partidários, optou por se dedicar ao ensino ou ir ganhar
chorudos vencimentos nas empresas privadas ou de capital público.
Deixaram assim o campo aberto maioritariamente àqueles que,
por nunca terem conseguido ter carreiras profissionais de sucesso, se
tornaram políticos profissionais, bem como à
inexperiência e ao oportunismo de outros mais jovens que,
filiados nas juventudes partidárias desde os primeiros tempos
da Universidade, estavam ansiosos por “mostrar serviço”,
como “yes men” exemplares que os ensinaram a ser.
Deste modo, alguns jovens militantes dos partidos do “arco do
poder”, ignorantes, inexperientes, mas cheios de vontade de
auto-afirmação, promovidos repentinamente a
Directores-Gerais e a Secretários de Estado, apressaram-se a
aplicar, de modo abstracto e teórico, as orientações
políticas emanadas dos seus “mestres”. Em conjunto com a
falta de coordenação entre os Ministérios, o
resultado está bem à vista!
Para qualquer lado da vida pública que nos viremos (Educação,
Saúde, Forças Armadas, Justiça, Administração
Pública, Obras Públicas, etc.), os resultados da
descoordenação, da incompetência, da corrupção
e da subordinação do Interesse Nacional à
conservação pura e simples do Poder, são
evidentes e chocantes.
Uma das questões cruciais que Portugal enfrenta e que impede o
seu desenvolvimento económico e social adequado, é o
seu fraco nível de desenvolvimento institucional. Os partidos
políticos em Portugal estão obsoletos, necrosados ou
refugiam-se em vanguardismos abstractos e folclóricos.
Colocaram na gaveta os seus princípios programáticos (à
excepção do PCP) e tornaram-se em meras correias de
transmissão de obscuros interesses económicos
globalizantes ou de agendas pessoais de poder. Não servem por
isso os interesses básicos dos cidadãos, que se sentem
desencantados e têm a noção que o espectro
partidário vigente está esgotado e que as eventuais
soluções futuras serão piores.
Por algum motivo surgiu nas eleições presidenciais um
candidato da área do PS que, concorrendo fora do “aparelho”,
conseguiu mais votos que o candidato oficial do Partido. Porém,
a confirmação mais peremptória desta tendência
verificou-se mais recentemente nas eleições
intercalares para a Câmara Municipal de Lisboa: os candidatos
oficiais dos dois maiores Partidos tiveram que enfrentar candidatos
dissidentes dos seus Partidos, concorrendo como independentes; um
deles ficou em segundo lugar, ultrapassando o candidato oficial do
partido que anteriormente o tinha apoiado, e o outro conseguiu melhor
resultado do que três partidos com assento “permanente” na
Assembleia da República; por último e mais importante,
mais de 60% dos munícipes decidiram alhear-se da votação,
demonstrando um enorme desinteresse pelo discurso e pelo acto
políticos.
Vem assim fazendo cada vez mais sentido a ideia de que grupos
organizados de cidadãos, oriundos da sociedade civil, libertos
das “grilhetas” partidárias e aglutinando éticas,
saberes e vontades “desinfectadas”, terão de assumir um
papel activo importante no controlo das actividades do Estado, na
crítica pública das mesmas e na resolução
dos inúmeros problemas que nos afligem, através de
iniciativas credíveis e sustentadas.
É triste verificar que o nosso País continua a
escorregar alegremente pelo plano inclinado que desemboca no estatuto
de “Estado exíguo”, tão bem descrito pelo Prof.
Adriano Moreira, onde impera a impunidade, onde os Órgãos
de Soberania são os primeiros a não cumprir as leis e a
ferir a Democracia, coarctando direitos fundamentais às
Instituições em que devia assentar a sua legitimidade,
e onde a justiça se aplica apenas nalgumas situações!...
Fá-lo com a morbidez e – porque não dizê-lo? -
a incompetência inconscientes (ou não!) dos Órgãos
de Soberania e da classe política em geral. Esta
“escorregadela” fez-nos já descolar do núcleo
central de países da UE, colocando-nos à porta do
“terceiro mundo” ou, dito de outro modo, dos “países em
vias de desenvolvimento”, mas em “marcha atrás”, com o
potencial risco de nem aí se conseguir parar.
Algo tem de ser feito para o impedir, e depressa!
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[1] Entrevista à RTP, 1999.
[2] ROUTLEDGE, Paul – “The Geopolitical reader”, pp. 245.253.
[3] KONRAD, George – “Antipolitics: A moral force”, em “The
Geopolitics reader”, pp. 283-285. Sublinhado do autor.
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