O bombista suicida, o conflito
indirecto e o relojoeiro cego
por Abel Morais
Nada
mais definitivo, irreversível e final do que a acção
do bombista suicida. Expressão corrompida de uma visão
do mundo, é o desafio último à
modernidade e aos seus limites.
Com
o seu acto, o bombista suicida procura devolver ordem à
desordem, procura coagir, converter e punir. Quem são os
inimigos do bombista suicida e por que ataca este as sociedades
ocidentais?
Estamos
perante um acontecimento de magnitude indisfarçável que
produz um efeito de choque, espanto e medo. A sua eficácia é
consequência da sua magnitude. O bombista suicida afirma que as
ideias – mesmo corrompidas, exprimindo uma vocação
totalitária e o absoluto desprezo pela vida – são a
base mobilizadora da acção. A acção do
bombista suicida é um desafio que necessita de uma resposta.
Com
a sua recusa da eficiência da tecnologia, a sua presença
centrada no espaço urbano – centro do mundo e modelo da
modernidade –, a sua disseminação e natureza
voluntária – um suicida pode ser um homem, uma mulher, um
jovem –, a sua arrogância, expressa na desvalorização
da vida ao serviço do despotismo ideológico, o bombista
suicida integra a modernidade para a enfrentar e contestar.
O
bombista suicida deixou de ser apenas o jovem muçulmano sem
perspectivas, uma mera oferenda sacrificial – é hoje da
classe média no país de origem ou de acolhimento, ou um
militante político que entendeu ser maior o medo do número
de baixas nos quadros civilizacionais e políticos do Ocidente
do que o medo de uma derrota militar e de um revés político.
O que indica que o principal inimigo nas sociedades ocidentais é
hoje o inimigo interno.
O
bombista suicida é o militante islâmico que considera o
Ocidente corrupto e decadente, escandalizado com a arrogância e
a ignorância secularista, que procura a “purificação”
do seu espaço civilizacional das “invasões” e
influências ocidentais (do modelo de regime político à
influência cultural ou à contaminação das
modas), que prossegue uma jihad defensiva e ofensiva – isto
é, que se estende ao território dos “infiéis”,
que privilegia este espaço como campo de acção
para impedir “a destruição dos países
muçulmanos” .
A
modernidade reivindica a aniquilação das ideologias, o
absoluto secularismo, a sociedade como metamorfose constante, a
centralidade da vida material e do indivíduo, a transformação
de qualquer objectivo em resultado e a ausência deste em
fracasso, o primado da engenharia social como fim em si. Este
fenómeno está no centro do combate do bombista suicida,
é um dos seus progenitores ideológicos a contrario
sensu.
O
libanês Walid Raad, na apresentação dos álbuns
de fotografia My Neck Is Thinner Than a Hair, lembrando os
efeitos dos mais de três mil veículos armadilhados que
explodiram no seu país entre 1975 e 1991, escreve que “o
motor é a única parte do veículo que permanece
intacta” – metáfora adequada para traduzir o significado
do bombista suicida: a pessoa morre, fica o “motor” do gesto e as
suas consequências. O bombista suicida é “arma,
tecnologia, acontecimento, forma de discurso”, aspira a ser
alternativa à modernidade.
Numa
obra recente sobre o fenómeno, What Makes a Terrorist:
Economics and the Roots of Terrorism (2007), Alan B. Krueger
explica que o terrorismo deixou de fascinar apenas os desprovidos de
perspectivas de realização social e de acesso ao
conhecimento. Hoje, são aqueles que possuem acesso ao
conhecimento e à informação, que se situam pelo
menos num patamar médio de rendimentos, a sentirem-se atraídos
pelo terrorismo em geral e pelo atentado suicida em certas
circunstâncias.
Krueger
considera os conteúdos do ensino nos países islâmicos
como um alvo prioritário a vigiar, mas é num plano mais
vasto – as construções culturais da modernidade –
que se encontra a explicação mais plausível para
o fascínio e eficácia do atentado suicida, como o autor
libanês o dá a entender.
É
pelo carácter espectacular, pelo exemplo e pela divulgação
que este tipo de acção seduz aquele que se encontra em
tensão com as sociedades que toma como alvo. O seu desprezo
pela vida é uma forma de desprezo pelo alvo e uma contestação
das referências da modernidade. Por que esta restringe os meios
de contestação não violenta e a diversidade de
perspectivas numa estratégia não muito distante do
conceito de hegemonia proposto por A. Grasmci na sua explicação
das relações sociais e políticas. Perante isto,
“a contestação vira-se previsivelmente para meios
violentos”, escreve Krueger .
Um
processo de pacificação universal está assim a
abrir as portas para um conflito global. “O conflito entre
comunidades de fé sobre valores existenciais não pode
ser resolvido pelo compromisso”, nota Jurgen Habermas, tornando
presente que uma ideologia enquanto processo de interpretação
e organização do mundo integra necessariamente uma
relação activa com a fé, ou a sua falta. E que dificilmente sociedade alguma pode viver sem permitir a
dimensão religiosa, porque esta comporta um papel político
e social, escreve Habermas que cita neste ponto um comentário
de John Rawls sobre as características de uma sociedade
pluralista. A ausência da possibilidade de fé é a
afirmação do carácter incompleto de uma
sociedade porque retira ao indivíduo religioso uma parte da
sua vida: a sua fé é parte do seu dia e este não
será a mesma realidade, pessoal e social, consoante exista ou
não aquela possibilidade, refere o autor alemão.
O
bombista suicida e as estratégias de hegemonia islâmica
que contestam e recusam a modernidade, que a entendem como o fim
anunciado das sociedades, exprimem na sua solução
totalitária o oposto complementar do projecto da modernidade:
em termos ideológicos, em termos de projecto de sociedade, em
termos de visão do indivíduo.
A
modernidade instalou um conceito do indivíduo nas sociedades
ocidentais que procura criar para este um estado ideal, permanente,
do qual estão ausentes as características associadas a
cada etapa da vida, e onde o envelhecimento surge como a etapa
temida, até interdita, numa construção
intelectual que neutraliza os momentos constitutivos de toda e
qualquer experiência humana. E, de um outro modo, de toda uma
sociedade.
Aquele
conceito, organizado em torno da ficção de uma “eterna
juventude”, um estado perfeito, de abundância de certas
características de morfologia física e de capacidade de
esforço é um dos empreendimentos utópicos da
modernidade. Fazer desaparecer uma etapa da existência humana
equivale a diminuir e a retirar à sociedade, enquanto
agrupamento humano e conjunto de experiências e trajectos
humanos, uma dimensão da sua identidade e natureza. À
semelhança do pretendido com a expulsão da fé
como realidade visível na sociedade.
A
corrupção do ritmo e das etapas da existência
biológica e dos deveres conexos de uma sociedade para com os
seus membros é uma forma de des-hierarquização e
corrupção das referências essenciais de um espaço
social. Este processo de desvalorização opera-se sobre
as etapas do início e fim da vida, aquelas que exigem maior
mobilização pessoal, maior disponibilidade,
solidariedade e intervenção. Neste esquema utópico
aquelas duas etapas são temidas por restringirem o espaço
de manobra, a desresponsabilização social, a liberdade
pós-moderna da permanente disponibilidade para – vocábulo
decisivo – a realização das preferências
individuais, colocando no limite lógico um dos fundamentos do
Iluminismo.
A
estratégia de desaparecimento ou neutralização
das idades deforma a natureza e o valor dos componentes de cada
sociedade, colocando os seus membros perante a tentação
da utopia última: evadirem-se da morte, do ciclo permanente do
início e fim. Perante o inevitável fracasso deste
objectivo, o desespero e a angústia aceitarão qualquer
sucedâneo de uma utopia menor.
É
esta violação das regras fundamentais de uma
civilização para com os seus membros que o bombista
suicida desafia, por desprezo e por temer a reprodução
no seu espaço civilizacional.
O
carácter extremo do niilismo activo do bombista suicida – e
das ideologias conexas que representa – é incompreensível
no quadro intelectual da modernidade que, no melhor dos casos, o
considera um anacronismo ou a manipulação da vontade de
emulação num ambiente de constrangimento ideológico.
No entanto, o niilismo e a corrupção ideológica
que convida ao martírio não é se não um
reflexo da modernidade. Uma manifestação de desafio que
só terminará com o fim da modernidade.
A
ideologia exige tensão, mas não é tensão
ou radicalidade absoluta. Pressupõe mártires, mas desde
que ancorada numa justa ordenação da realidade e, numa
adequada relação com os seus protagonistas, não
é seu objectivo o martírio. A ideologia é
expressão de radicalidade, como elemento de identificação;
a radicalidade não é um fim. Uma ideologia terá
sempre uma teoria de defesa; não tem necessariamente uma
teoria da violência, embora seja regra atribuir-lhe uma como
factor de desvalorização e elemento de irracionalidade.
A finalidade de uma ideologia é a prossecução de
um projecto de civilização e sociedade no quadro
adequado à identidade e perpetuação destas. Nem
todas as ideologias se equivalem na relação com os seus
protagonistas, individuais e colectivos, e a vida em si.
A
vida, como parte da realidade, “não é permanente
salvação, revolução ou paixão”
(Daniel Bell, The End of Ideology). Como regra, a realidade
“não é heróica” – o que não quer
dizer que não exija uma ética, princípios e
referências inegociáveis. E, por vezes, heroísmo.
Por isto, se distinguem as ideologias e se torna claro o erro do
bombista suicida e da sua motivação, que responde às
estratégias hegemónicas da modernidade com o erro de
uma opção totalitária.
Ideologia
é actuação sobre a realidade, é o centro
da agência humana, colectiva e individual. A ideologia é
indissociável dos conceitos de conflito e tensão. A
modernidade, pelo contrário, integra como estratégia
central a desmobilização da noção de
conflito, superada por uma noção hegemónica
superadora das tensões e centros de conflitos num projecto
tirânico de auto-dissolução de todas as
identidades. O que não lhe reduz a natureza de projecto
ideológico.
O
projecto da modernidade distingue-se pelo seu carácter utópico
em termos teleológicos e por uma estratégia de conflito
indirecto (soft conflict) como instrumento estratégico
dos seus fins.
Cada
civilização enfrenta, assim, dois inimigos. Um,
externo, o imperialismo ideológico que se reveste hoje da
forma do multiculturalismo, com a sua ambição de
hegemonia universalista, em que um discurso da máxima
tolerância convive com a prática do mais total
despotismo, repetindo o modelo messiânico dos primeiros anos da
Revolução Francesa e do seu fundamento ideológico,
o Iluminismo.
As
civilizações (e nem sempre em planos semelhantes de
complexidade) sempre interagiram entre si e puderam fazê-lo
devido à sua identidade e distinções. Uma
relação hoje minada pelo multiculturalismo com a
estratégia de integrar num só modelo aspectos
seleccionados de cada civilização, forçando a
adopção de ideias, práticas, atitudes, modelos
de interpretação e negando validade aos restantes, como
se a importância e a definição de um modelo
civilizacional se satisfizessem numa técnica de compilação
de elementos.
O
segundo inimigo é o conflito indirecto (soft conflict),
o instrumento de descaracterização e desestruturação
de cada sociedade num dado espaço civilizacional, de
desvalorização das suas referências, de
aniquilação da sua diferença e da sua posição
específica na hierarquia – funcional e ética – de
culturas daquele espaço.
O soft conflict . define-se como a ausência do recurso à força ou a
manifestações das componentes de um conflito político
clássico, com a mobilização dos elementos que
permitem a resolução de tensões, o
estabelecimento claro de novos equilíbrios e a obtenção
de resultados que assinalam a constituição evidente
para todos de uma nova organização de forças. Os
resultados manifestam-se sob a forma de um consenso social, um facto
natural no interior de uma sociedade.
Obtêm-se
comportamentos, atitudes, novas categorias e consensos que passam a
ser considerados naturais, legítimos e inerentes numa
sociedade. E isto sucede com recurso a meios de pressão que
visam cada indivíduo em si e evitam clivagens claras ou
alianças entre sectores que se sintam sob ameaça. Os
meios de acção do conflito indirecto (soft conflict)
têm como objectivo tornar natural e aceitável o que, de
outra forma, encontraria oposição e recusa.
A
estratégia do conflito indirecto neutraliza a possibilidade de
crítica e de desmontagem dos conceitos que se pretendem impor
numa dada sociedade – sendo vectoriais, orientados para alvos
específicos, foi instituído um mecanismo ideológico
que bloqueia a sua crítica em nome da transformação,
volatilidade e actualização permanentes definidos como
regra de qualquer corpo social.
Assiste-se
à neutralização da tensão imanente a
diferentes visões do mundo substituída pela propagação
de conflitos sectoriais, tridimensionais e transversais. Por exemplo,
conflitos de negação, desvalorização,
crítica e culpabilização das referências
tradicionais de ordenamento e funcionamento de uma sociedade,
culpabilização do seu trajecto histórico ou,
pelo contrário, a sua absolvição; apologia da
tecnologia como cristalização material do progresso e
crítica da tecnologia como elemento de culpa civilizacional;
negação da organização familiar,
definição política do valor da vida e
manipulação dos deveres de conduta social através
dos códigos de vestuário, atitude e linguagem, apologia
da ruptura da identidade sexual, entre outros.
Com
o fracasso das instituições, das normas e dos níveis
de autoridade social, com o eclipse de uma clara moral social e a
indiferenciação entre a esfera particular e a esfera
pública pela multiplicação e horizontalização
dos níveis de comunicação e influência,
com a desmaterialização dos elementos políticos
de afirmação do poder, a manipulação dos
códigos da linguagem, aniquilam-se símbolos e limites,
transformam-se comportamentos e níveis do permitido e do
tolerado, a percepção intelectual da realidade e dos
modos de acção. A reconfiguração
pretendida pelo multiculturalismo assinala o início de um
processo de descivilização, ou seja, a memória e
prática fundacionais de um espaço civilizacional deixam
de possuir sentido e podem, aleatoriamente, ser substituídos
por quaisquer outros.
A
propagação de conflitos cujo desenlace não é
percepcionado como real, isto é, sem fim à vista,
origina um clima de ansiedade e a progressiva desmobilização
para os deveres sociais. A comunidade passa a ser entendida como
lugar de múltiplos e permanentes conflitos – que a
estratégia do conflito indirecto irá transformar em
meros aspectos das tensões entre o progresso e o seu oposto ou
tornar invisível a sua percepção – que se
sobrepõem e valem mais do que a coesão daquela.
Deixa
de existir uma visão única da comunidade, isto é,
como esta se define, se entende, se situa perante si própria e
as outras e compreende o seu destino, projecto e finalidade. A
comunidade torna-se campo de batalha invisível e constante, em
permanente reconfiguração com os actores sociais a
prosseguirem uma estratégia de alianças e choques de
geometria infinitamente variável, em que o interesse central
se define em função de cada conjunto, não da
comunidade como entidade real e última.
Cada
sociedade é menorizada enquanto tal, transformada em mera
plataforma residencial de diferentes agrupamentos, de características
cada vez mais especializadas, em que a identidade étnica,
cultural e religiosa começa a ser apresentada como um excesso
ou anacronismo, dos quais nada se espera e nada se pede e se aceita
que a sua especificidade se imponha e prevaleça sobre o
conteúdo fundador do espaço civilizacional, político
e cultural em que se encontram.
A
multiplicação de grupos com uma identidade especial e,
no plano político-social, com toda uma carta de direitos
imprescindíveis, emanados de um processo de engenharia social
de óbvia motivação ideológica, provoca a
balcanização e tribalização da sociedade,
a que não faltam sequer fenómenos de apartheid social e cultural, e a sua descaracterização num
processo de dessolidarização e dessocialização
em que cada núcleo específico se sobrepõe ao
conjunto. A tese central não é a de que se estes grupos
têm ou não direito à expressão da sua
identidade, mas se esta deve ou não sobrepor-se e afirmar-se
como um núcleo indiferente e não submetido aos códigos
e referências da comunidade em que estão presentes. A
prevalecer a primeira hipótese, a estratégia do
conflito indirecto demonstrará a sua eficácia.
A
sociedade torna-se então o centro de actividades organizadas
sem elaboração intelectual, sem visão ou
propósito permanente, reduzida à superação
do presente prosseguida sem consciência de si própria,
sem um desígnio ou uma finalidade,
à semelhança
do “relojoeiro cego” que entusiasma Richard Dawkins.
Perante
a ausência de desígnio, cada acção começa
e esgota-se em si num frenesim de actuação sem sentido
e que liberta de todas as responsabilidades para com o passado, o
presente e o futuro numa fraude em que o objectivo se justifica pela
simples acção. Escreve Dawkins em The Blind
Watchmaker (1986), que “o verdadeiro relojoeiro tem um
objectivo: concebe as suas peças, planeia as suas interacções,
com um propósito futuro em vista. A selecção
natural e o desígnio da criação [este é o
tema da obra], o processo automático, cego, sem consciência
de si, descoberto por Darwin, e que sabemos hoje é a
explicação para a existência e para o propósito
aparente de todas as formas de vida, não tem qualquer
desígnio”. Como deixa de existir um desígnio e
propósito numa sociedade.
Mais
adiante, o autor define aquilo que funciona como síntese do
processo regido pelas leis do conflito indirecto: “A selecção
natural é o relojoeiro cego, cego porque não pensa no
futuro, não antevê as consequências dos seus
actos, não possui qualquer finalidade. E, contudo, os
resultados vivos da selecção natural não podem
deixar de nos impressionar com a aparência de um desígnio
e de um plano”. Mas não há nenhum objectivo final,
insiste Dawkins num livro cujo conteúdo ideológico
serve bem os adeptos do relativismo, mas onde o quadro aplicado à
selecção natural traduz graficamente a presente
conjuntura nas sociedades ocidentais, em que estas estão a
perder clareza e sentido para os seus membros. Mas, ao contrário
do postulado pelo biólogo e zoólogo britânico,
existe de facto um objectivo evidente, apenas camuflado pelas
tácticas do conflito indirecto.
Este
moderno utopismo baixou os padrões de comportamento e de virtú social, o lugar das gerações anteriores e futuras,
apagou as restrições morais e os deveres de obrigação,
para assegurar que a sua finalidade estratégica se cumpre,
relativizando a inerradicável possibilidade do mal no homem.
Finalidade esta que é concretização do interesse
próprio, longe de qualquer responsabilidade social,
tornando-se dependente da ilusão do patamar seguinte na
piedosa intenção de que um individuo se torna
necessariamente melhor no âmbito de uma transformação
cultural ou social, em que o economicismo marxista foi substituído
pela neutralidade axiológica e pelas imagens de afluência
e de sofisticação cosmopolita da modernidade.
A
sugestão ambiciosa de resolver todos os problemas – das
assimetrias económicas aos limites dos modelos de
desenvolvimento, das questões ambientais à redefinição
da psicologia do indivíduo e suas motivações, à
criação de um nirvana moral imune a qualquer tensão
– e de, assim, permitir uma completa realização do
indivíduo e do grupo humano, finalmente libertos de
preconceitos e referências obsoletas, é outro aspecto
deste desígnio ideológico.
Um
desígnio que assenta na fórmula de que todos os
indivíduos serão imperiosamente melhores ao serem
forçados a partilhar um mesmo objectivo e um mesmo conjunto de
referências na expectativa de que este despotismo uniformizador
produza um só resultado – o melhor dos mundos. Como se fosse
possível abolir as tensões e os conflitos, a
diversidade psicológica dos indivíduos, e no plano
histórico abolir a guerra como instrumento dissipador de
tensões, produtor de novos equilíbrios e criador de paz
no momento em que se determina o resultado de um conflito, como se
para tornar o mundo um lugar seguro e aceitável fosse
necessário tornar o mundo num entidade de um só molde.
Um desígnio cuja legitimidade é atestada pela lógica
deste movimento que se apresenta como conduzido pela maioria dos
homens para benefício da maioria – e mais ainda, de todos os
indivíduos. Mas “ser humano algum e grupo algum de seres
humanos pode dirigir de forma justa todos os seres humanos” (Leo
Strauss). Esta universalidade hegemónica contradiz os próprios
argumentos de diversidade, pluralidade, diferença e autonomia
que se apresentam como argumentos centrais do seu projecto
ideológico.
Qualquer
universalidade no plano ideológico não pode deixar de
ser tirânica. A legitimidade de uma ideologia pode tender a ser
a universal enquanto produtora de uma visão do mundo, mas não
pode deixar de conter em si um mecanismo corrector que admita a
vocação inacabada e tendencial do seu desígnio
último, ao entender que se move no plano da realidade
ontológica e intercivilizacional, onde a sua legitimidade,
actualidade e valor residem na tensão com os restantes
projectos e na distinção e complementaridade entre
civilizações.
O
projecto de uma só cultura universal em que se escuda o
multiculturalismo, parafraseando a análise de Samuel
Huntington sobre crença ocidental na universalidade da sua
cultura, “padece de três problemas: é falso, é
imoral, é perigoso”.
É
falso, porque outras civilizações possuem outros ideais
e outras normas. É imoral, porque “o imperialismo é a
consequência lógica, necessária do
universalismo”. É perigoso, porque reúne todas as
condições para suscitar um conflito ideológico
global, como o atesta o bombista suicida. Os elementos de outras
civilizações, ao verem-se confrontados com um projecto
que postula a necessidade de uma uniformização e trata
essas suas referências como anacrónicas, forçando-as
a adoptar as referências de uma espécie de aristocracia
civilizacional – promovendo na prática genocídios
culturais –, só pode desencadear um processo que, numa
gloriosa ironia, não é outra coisa do que “lutas de
libertação nacional”, ou melhor, civilizacional no
contexto em causa, contra o projecto de imperialismo ideológico
que procura hoje validação universal.
É
fundamental lembrar que uma das primeiras críticas a projectos
de imperialismo civilizacional e, por outro lado, de reconhecimento
dos direitos do “outro” – “o estrangeiro”, the stranger – teve origem em Edmund Burke, adversário da revolução
francesa de 1789 enquanto produto político do Iluminismo, no
qual se inspira em muito a visão do mundo fundada no
multiculturalismo.
Burke
manteve uma controvérsia reveladora com figuras ligadas ao
liberalismo, em que criticou a “moralidade geográfica”
daqueles que postulavam uma atitude no Reino Unido e o seu oposto na
Índia, com o argumento de “trazer os selvagens à
civilização” .
Para Burke não pode existir um “acto de opressão em
Inglaterra que não seja um acto de opressão na Europa,
Ásia, África e no resto do mundo”.
Se
um acto de opressão, como muitas outras realidades, é
universal e exige uma mesma resposta, Burke é capaz de
compreender e aceitar as civilizações não
ocidentais, de compreender a sua diferença e não
pretender subjugá-las, ao contrário dos seus
adversários liberais, que, então como hoje sucede com
os partidários do multiculturalismo, possuíam uma visão
intransigente e imperialista sobre o encontro de civilizações
e o seu resultado.
Então,
como hoje, o verdadeiro combate foi entre os adeptos da diferença
e da tradição, como centro do sentido do mundo e base
de uma identidade individual e colectiva, e os cultores de uma
estratégia de hegemonia total. Então, como hoje, o
choque verifica-se num campo que permite ao terrorista Ben Laden
afirmar que “nada é mais sagrado do que a fé, excepto
rechaçar o inimigo que ataca a religião e a vida” . O desafio é claro: que ideologia para enfrentar o niilismo da
modernidade e os seus avatares, sem ceder à tentação
totalitária personificada no desígnio do bombista
suicida?
_______________________
[1] Fatwa de Osama Ben Laden e Ayman al-Zawahiri, Uma Frente Islâmica Mundial pela Jihad Contra os Judeus e os
Cruzados (Fev. 1998), citado em The
Anatomy of Ideology: An Analysis of the Structure of Ideology and
the Mobilisation of Terrorists, Andrew Zwitter, in HUMSEC
Journal, n.º 1 (www.humsec.eu) [voltar]
[2] Noutro
plano, que se entrosa com a lógica da modernidade, Krueger
assinala que as técnicas de ampliação e
sensacionalização de actos como um atentado suicida
contribuem para a ansiedade nas sociedades, funcionando como
utensílios indirectos das estratégias terroristas. [voltar]
[3] Religion in the Public Sphere, Jurgen Habermas, European
Journal of Philosophy, vol. 14, n.º 1, 2006 [voltar]
[voltar] |