Ano II - Nº 9, Setembro/Outubro de 2007
Alameda Digital
Ideologias
Clínica das Letras

por Bruno Oliveira Santos

Eu, Poeta e Tu, Cidade Associado quase sempre aos temas da ruralidade, Pedro Homem de Mello (1904-1984) surge nesta antologia como um homem da cidade — um Pedro urbano que canta os poetas sentados nos cafés, os jardins públicos, os namorados, o castelo do Queijo, os mendigos, Miragaia («a minha Madragoa»), os anúncios luminosos, as praias e o rio — o eterno “rio Doiro”. Nesta obra, a que a editora acrescentou a reprodução fac-similada do manuscrito, o autor revela-se um poeta exigente, maduro, com domínio do processo – escrevendo algumas das suas melhores composições e dando-se por inteiro a uma cidade em que as ruas, como o rio, correm aflitas pela urbe. «Deviam chamar “Pedro” em vez de “Porto” / Ao burgo, se é tal qual do meu tamanho».

[Pedro Homem de Mello, Eu, Poeta e Tu, Cidade, Edições Quási, 2007, 172 págs., €15,75]

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Terra Ingrata A seriação integral da obra literária de João de Araújo Correia (1899-1985), que a Imprensa Nacional traz em curso, constitui empresa meritória. A prova, afinal, de que a Pátria nem sempre é terra ingrata para os seus filhos, para aqui nos valermos dum dos títulos ora coligidos de quem foi — ele sim, com toda a propriedade — um clínico das Letras.

Como (não) se sabe mas é de justiça reconhecer, foi igualmente João de Araújo Correia um dos maiores prosadores novecentistas da nossa língua. Com um estilo rijo e vero, saborosíssimo e marcial, assim conduziu ele as operações no campo de batalha do alfabeto. Semelhantes feitos das letras em armas, entre seus contemporâneos, só estiveram ao alcance de Aquilino Ribeiro, Tomás de Figueiredo e poucos mais.

[João de Araújo Correia, Contos e Novelas, vol. I, INCM, 2007, 398 págs., €27]

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Vanguarda «Make it new», insistia Ezra Pound. Inovar antes de mais nada. Entre nós, responde pelo pseudónimo de Ruben A. quem tomou o mestre mais ao pé da letra. Ruben A. (1920-1975), o mais importante autor de sua nobre família — o ficcionista da ironia, do humor e da irreverência, servidos por uma prosa de vanguarda. Um registo próprio e singular.

Este livro contém três produções de teatro, sendo «Júlia» a única que teve edição ântuma, em 1963 (Livraria Portugal). É uma peça que encontrou decerto inspiração em The Cocktail Party, de T. S. Eliot, autor que Ruben A. admirava e com quem conviveu em Londres.

«Relato 1453» é a sequência dramática dos dias que precedem a queda de Constantinopla, conquistada por Maomé II, o «bebedor de sangue». Mas é a peça de abertura, «Triálogo», datada de 1951, que merece exame mais extenso. Personagens: Luís de Camões, uma lady inglesa e o próprio Ruben A. Isto, só por si, apenas encontra paralelo na moderna dramaturgia portuguesa em Galileu, Leonardo e Eu, que Almada Negreiros editou em 1965.

«Triálogo» é a denúncia, sob a forma de sátira, à burocracia asfixiante. Entra um chefe de repartição vestido de cubo, isto é, seis vezes quadrado. E a páginas tantas, alguém requer «seja equiparado como membro da comissão permanente das comissões de investigação às comissões investigadas». Podia ser hoje.

[Ruben A., Triálogo / Júlia / Relato 1453, Assírio & Alvim, 2007, 237 págs., €18]

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Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo Nova edição portuguesa de «A Sonata de Kreutzer», ensaio fundamental sobre o amor e o ciúme, agora pela mão da Relógio d’Água. Um livro ao qual assentaria bem por epígrafe o título consagrado de Nelson Rodrigues. O autor é um Tolstoi maduro, senhor de si e das letras, que nos fala do amor, da educação, do casamento, do ciúme, do divórcio, da relação entre homens e mulheres, tendo por palco a carruagem dum comboio. Ainda que o autor não atinja a profundidade psicológica de Stendhal, o livrinho recomenda-se. Sobretudo aos casais modernos e evoluídos que — profundamente convencidos de que o casamento deve fundar-se no amor e outros equívocos semânticos — atrelam-se em ambiente de grande euforia e, poucos anos depois, acabam a pagar os luxos de psicólogos e psiquiatras, quando não de curandeiros e outros endireitas do espírito.

[Lev Tolstoi, A Sonata de Kreutzer, Relógio d’Água, 2007, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, 115 págs., €14]

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Feiras do Livro As feiras de Lisboa e Porto, que visitei em Junho, estavam às moscas. Menos editoras, menos stands, menos público. Na Invicta, a organização tentou disfarçar o fracasso com uma exposição de livros proibidos pela censura durante o Estado Novo. Em Lisboa não se lembraram de colóquios sobre tortura e flagelação de mulheres. Ao menos isso.

Que se pode fazer? Primeiro, alargar os horários. Se as feiras estivessem abertas à hora do almoço, sobretudo a de Lisboa, que está em zona de escritórios, circulariam por ali milhares de pessoas que, com os horários vigentes, rumam céleres para a periferia às sete da tarde.
Segundo, repensar a própria localização. O Parque Eduardo VII é um plano inclinado, mais talhado para exercício físico do que para recreação intelectual.

Terceiro, garantir estacionamento gratuito para os visitantes.

Quarto, criar condições para a presença de todas, mas mesmo todas as editoras, com vista a convocar um universo vasto de leitores.
Se nada se fizer, a Internet e a FNAC encarregar-se-ão de liquidar um certame velhinho de décadas.

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