| Clínica das Letras
por Bruno
Oliveira Santos
Eu,
Poeta e Tu, Cidade Associado quase sempre aos temas da
ruralidade, Pedro Homem de Mello (1904-1984) surge nesta antologia
como um homem da cidade —
um Pedro urbano que canta os poetas sentados nos cafés,
os jardins públicos, os namorados, o castelo do Queijo, os
mendigos, Miragaia («a minha Madragoa»), os anúncios
luminosos, as praias e o rio —
o eterno “rio Doiro”. Nesta obra, a que a editora acrescentou a
reprodução fac-similada do manuscrito, o autor
revela-se um poeta exigente, maduro, com domínio do processo –
escrevendo algumas das suas melhores composições e
dando-se por inteiro a uma cidade em que as ruas, como o rio, correm
aflitas pela urbe. «Deviam chamar “Pedro” em vez de
“Porto” / Ao burgo, se é tal qual do meu tamanho».
[Pedro
Homem de Mello, Eu, Poeta e Tu, Cidade, Edições
Quási, 2007, 172 págs., €15,75]
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Terra
Ingrata A seriação integral da obra literária
de João de Araújo Correia (1899-1985), que a Imprensa
Nacional traz em curso, constitui empresa meritória. A prova,
afinal, de que a Pátria nem sempre é terra ingrata para os seus filhos, para aqui nos valermos dum dos títulos
ora coligidos de quem foi —
ele sim, com toda a propriedade —
um clínico das Letras.
Como
(não) se sabe mas é de justiça reconhecer, foi
igualmente João de Araújo Correia um dos maiores
prosadores novecentistas da nossa língua. Com um estilo rijo e
vero, saborosíssimo e marcial, assim conduziu ele as operações
no campo de batalha do alfabeto. Semelhantes feitos das letras em
armas, entre seus contemporâneos, só estiveram ao
alcance de Aquilino Ribeiro, Tomás de Figueiredo e poucos
mais.
[João
de Araújo Correia, Contos e Novelas, vol. I, INCM,
2007, 398 págs., €27]
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Vanguarda «Make it new», insistia Ezra Pound. Inovar antes
de mais nada. Entre nós, responde pelo pseudónimo de
Ruben A. quem tomou o mestre mais ao pé da letra. Ruben A.
(1920-1975), o mais importante autor de sua nobre família —
o ficcionista da ironia, do humor e da irreverência, servidos
por uma prosa de vanguarda. Um registo próprio e singular.
Este
livro contém três produções de teatro,
sendo «Júlia» a única que teve edição
ântuma, em 1963 (Livraria Portugal). É uma peça
que encontrou decerto inspiração em The Cocktail
Party, de T. S. Eliot, autor que Ruben A. admirava e com quem
conviveu em Londres.
«Relato
1453» é a sequência dramática dos dias que
precedem a queda de Constantinopla, conquistada por Maomé II,
o «bebedor de sangue». Mas é a peça de
abertura, «Triálogo», datada de 1951, que merece
exame mais extenso. Personagens: Luís de Camões, uma lady inglesa e o próprio Ruben A. Isto, só por
si, apenas encontra paralelo na moderna dramaturgia portuguesa em Galileu, Leonardo e Eu, que Almada Negreiros editou em 1965.
«Triálogo»
é a denúncia, sob a forma de sátira, à
burocracia asfixiante. Entra um chefe de repartição
vestido de cubo, isto é, seis vezes quadrado. E a páginas
tantas, alguém requer «seja equiparado como membro da
comissão permanente das comissões de investigação
às comissões investigadas». Podia ser hoje.
[Ruben
A., Triálogo / Júlia / Relato 1453, Assírio
& Alvim, 2007, 237 págs., €18]
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Não
se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo Nova edição
portuguesa de «A Sonata de Kreutzer», ensaio fundamental
sobre o amor e o ciúme, agora pela mão da Relógio
d’Água. Um livro ao qual assentaria bem por epígrafe
o título consagrado de Nelson Rodrigues. O autor é um
Tolstoi maduro, senhor de si e das letras, que nos fala do amor, da
educação, do casamento, do ciúme, do divórcio,
da relação entre homens e mulheres, tendo por palco a
carruagem dum comboio. Ainda que o autor não atinja a
profundidade psicológica de Stendhal, o livrinho recomenda-se.
Sobretudo aos casais modernos e evoluídos que —
profundamente convencidos de que o casamento deve fundar-se no amor e
outros equívocos semânticos — atrelam-se em ambiente de grande euforia e, poucos anos depois, acabam
a pagar os luxos de psicólogos e psiquiatras, quando
não de curandeiros e outros endireitas do espírito.
[Lev
Tolstoi, A Sonata de Kreutzer, Relógio d’Água,
2007, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, 115
págs., €14]
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Feiras
do Livro As feiras de Lisboa e Porto, que visitei em Junho,
estavam às moscas. Menos editoras, menos stands, menos
público. Na Invicta, a organização tentou
disfarçar o fracasso com uma exposição de livros
proibidos pela censura durante o Estado Novo. Em Lisboa não se
lembraram de colóquios sobre tortura e flagelação
de mulheres. Ao menos isso.
Que
se pode fazer? Primeiro, alargar os horários. Se as feiras
estivessem abertas à hora do almoço, sobretudo a de
Lisboa, que está em zona de escritórios, circulariam
por ali milhares de pessoas que, com os horários vigentes,
rumam céleres para a periferia às sete da
tarde.
Segundo, repensar a própria localização.
O Parque Eduardo VII é um plano inclinado, mais talhado para
exercício físico do que para recreação
intelectual.
Terceiro,
garantir estacionamento gratuito para os visitantes.
Quarto,
criar condições para a presença de todas, mas
mesmo todas as editoras, com vista a convocar um universo vasto de
leitores.
Se nada se fizer, a Internet e a FNAC encarregar-se-ão
de liquidar um certame velhinho de décadas.
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