Um
desafio para o nosso tempo
por Pedro Guedes da Silva
Poucas
vezes o Ocidente terá tido tantas verdades obrigatórias
ainda que, paradoxalmente, este seja um tempo de apologia da
banalidade, pelo menos teoricamente pouco favorável ao enriquecimento da
História das Ideias Políticas.
Gradualmente
instaurado na segunda metade do século passado um modelo
civilizacional dessacralizado e com cada vez menos Valores-âncora,
apenas orientado para o consumo e profundamente desumano na medida em
que entende o homem como um mero número, logrou o sistema a
maçada de se não ver forçado a enfrentar – no seu seio –
qualquer pensamento crítico que lhe seja suficientemente
incómodo. E não satisfeitos com os resultados
alcançados, ainda damos mostras de pretender exportar para os vários
cantos do mundo a boa nova da nossa mediocridade.
O
diagnóstico está feito: aos olhos do insuspeito Ignacio
Ramonet, vingou o “pensamento único”; Guillaume
Faye observou o êxito daquilo que qualificou de “ideologia
soft”; e José Javier Esparza, talvez melhor antecipando
o que podemos esperar do futuro, coloca-nos já no patamar da “modernidade senil” que vai sobrevivendo por lhe serem
sucessivamente ministrados “opiáceos do esforço
mental”. Esparza caracteriza ainda superiormente o tal
paradoxo de que falei antes no seu recomendável “Curso
General de Disidencia” (Ed. El Emboscado, Madrid, 1997): “[foi
imposto] um tipo de pensamento que é a todos os títulos
de uma fragilidade infinita, mas cujas fronteiras ninguém ousa
ultrapassar: na economia, um ultra-liberalismo que voltou a polarizar
o mundo entre ricos e pobres, como nos piores tempos do capitalismo
selvagem; na política, uma democracia mínima que
afastou os povos da participação no seu próprio
destino entregando o poder a grupos de pressão e aos aparelhos
partidários; uma sociedade individualista mascarada de
'tolerância' e 'solidariedade'; uma cultura de massas que,
impondo o apregoado cosmopolitismo, nos quer iguais em todo o mundo
(...)”.
Em
qualquer dos casos e independentemente do gosto de cada um, o que
qualquer uma destas classificações retrata é um
hemisfério cansado, de gente convencida pela propaganda
(quantas vezes travestida de publicidade) a baixar os braços,
embarcando no sonho individualista de dúzia e meia de
comodidades que, se e quando alcançadas, significam aos olhos
do outro uma espécie de realização e felicidade suprema.
Mas será
caso para decretar solenemente a morte do “ideológico”
para além da ideologia oficial? Não creio, sobretudo se entendermos a "ideologia" mais como comunidade dinâmica de destino e menos como supermercado de ideias em sistema de prêt-à-porter. É
certo que o actual estado do sítio marcou o fim das grandes
dicotomias que foram alimentando o pensamento político na
segunda metade do Séc. XX.: a perda dos territórios
ultramarinos pelas potências europeias, o fim da URSS e a queda
do Muro de Berlim, o caminho para o federalismo europeu, o cada vez
mais reduzido poder dos Estados mesmo intra-muros, essa aberração
totalitária que passou a determinar com força de Lei o
que é historicamente autorizado defender... ou mesmo pensar!
Tudo isto, naturalmente, com o prestimoso auxílio do Concílio
Vaticano II que, também ele cavalgando a ficção
da modernidade, conduziu a Igreja a um nível de demissão
que se traduz agora na menor capacidade de influenciar sejam as
mentes, sejam os Estados.
Ainda
assim, apesar de um quadro tão difícil para o renascer
de bastiões ideológicos, não se me afigura
verdadeiro que o a história tenha chegado ao fim e que o mundo
esteja hoje fechado. Pelo contrário. E desde logo pela
existência de “dissidentes”, de diferentes tonalidades,
princípios e métodos (estes bastante condenáveis
na maior parte das vezes), mas cada vez mais presentes um pouco por
toda a parte. Hoje, isto é tão evidente que não
será sequer necessário recordar o espanto desta
civilização feita “modernidade senil” perante um
Islamismo que, vazia de sacralidade, é totalmente incapaz de
compreender. Deste lado e perante a Fé do outro resta então
o cepticismo, o que frequentemente aconteceu às civilizações
mais prósperas como facilmente se constata pela leitura de
qualuer História Universal – como muito bem lembrava António
Marques Bessa no nº 62 (Set./Out. 2006) da revista Futuro
Presente.
Se
considerarmos esta linha verificamos então que não só
a História está em aberto, como provavelmente o seu
futuro poucas vezes terá sido tão incerto. E se assim
é, diria que, pelo menos, vale a pena o esforço de
continuar a pensar.
Sucede
que não é simples pensar sem ter como referência,
nem que seja apenas como ponto de partida, uma concepção
mínima do mundo e do homem. Ora, num mundo em mudança e
ao qual se deparam novos problemas e desafios, as ideologias que
conhecemos podem bem desempenhar um papel de “genealogia de ideias”
ou de auxiliar e quadro mínimo de referências, mas sem
que os seus defensores percam de vista a inultrapassável
necessidade de as adaptar ao mundo real que se nos depara (em Itália
há quem simplifique isto como segue: “não renegar,
não restaurar”). Serão assim uma espécie
de chaves que nos ajudem a interpretar o nosso tempo e que, não
solucionando evidentemente os novos problemas, podem servir de âncora
ou porto seguro de comunidades de destino e valores permanentes.
Em
paralelo, nunca será excessivo lembrar que o trabalho de
adaptação ou a afirmação de novas
propostas ideológicas com alguma solidez impõem, numa
primeira fase, uma forte aposta na batalha cultural. Será ela
– e por regra apenas ela – que, quando a tal “modernidade
senil” passar a defunta, determinará quem vence no plano
político. Foi quase sempre assim. |