Ano II - Nº 9, Setembro/Outubro de 2007
Alameda Digital
Ideologias
Um desafio para o nosso tempo

por Pedro Guedes da Silva

Poucas vezes o Ocidente terá tido tantas verdades obrigatórias ainda que, paradoxalmente, este seja um tempo de apologia da banalidade, pelo menos teoricamente pouco favorável ao enriquecimento da História das Ideias Políticas.

Gradualmente instaurado na segunda metade do século passado um modelo civilizacional dessacralizado e com cada vez menos Valores-âncora, apenas orientado para o consumo e profundamente desumano na medida em que entende o homem como um mero número, logrou o sistema a maçada de se não ver forçado a enfrentar – no seu seio – qualquer pensamento crítico que lhe seja suficientemente incómodo. E não satisfeitos com os resultados alcançados, ainda damos mostras de pretender exportar para os vários cantos do mundo a boa nova da nossa mediocridade.

O diagnóstico está feito: aos olhos do insuspeito Ignacio Ramonet, vingou o “pensamento único”; Guillaume Faye observou o êxito daquilo que qualificou de “ideologia soft”; e José Javier Esparza, talvez melhor antecipando o que podemos esperar do futuro, coloca-nos já no patamar da “modernidade senil” que vai sobrevivendo por lhe serem sucessivamente ministrados “opiáceos do esforço mental”. Esparza caracteriza ainda superiormente o tal paradoxo de que falei antes no seu recomendável “Curso General de Disidencia” (Ed. El Emboscado, Madrid, 1997): “[foi imposto] um tipo de pensamento que é a todos os títulos de uma fragilidade infinita, mas cujas fronteiras ninguém ousa ultrapassar: na economia, um ultra-liberalismo que voltou a polarizar o mundo entre ricos e pobres, como nos piores tempos do capitalismo selvagem; na política, uma democracia mínima que afastou os povos da participação no seu próprio destino entregando o poder a grupos de pressão e aos aparelhos partidários; uma sociedade individualista mascarada de 'tolerância' e 'solidariedade'; uma cultura de massas que, impondo o apregoado cosmopolitismo, nos quer iguais em todo o mundo (...)”.

Em qualquer dos casos e independentemente do gosto de cada um, o que qualquer uma destas classificações retrata é um hemisfério cansado, de gente convencida pela propaganda (quantas vezes travestida de publicidade) a baixar os braços, embarcando no sonho individualista de dúzia e meia de comodidades que, se e quando alcançadas, significam aos olhos do outro uma espécie de realização e felicidade suprema.

Mas será caso para decretar solenemente a morte do “ideológico” para além da ideologia oficial? Não creio, sobretudo se entendermos a "ideologia" mais como comunidade dinâmica de destino e menos como supermercado de ideias em sistema de prêt-à-porter. É certo que o actual estado do sítio marcou o fim das grandes dicotomias que foram alimentando o pensamento político na segunda metade do Séc. XX.: a perda dos territórios ultramarinos pelas potências europeias, o fim da URSS e a queda do Muro de Berlim, o caminho para o federalismo europeu, o cada vez mais reduzido poder dos Estados mesmo intra-muros, essa aberração totalitária que passou a determinar com força de Lei o que é historicamente autorizado defender... ou mesmo pensar! Tudo isto, naturalmente, com o prestimoso auxílio do Concílio Vaticano II que, também ele cavalgando a ficção da modernidade, conduziu a Igreja a um nível de demissão que se traduz agora na menor capacidade de influenciar sejam as mentes, sejam os Estados.

Ainda assim, apesar de um quadro tão difícil para o renascer de bastiões ideológicos, não se me afigura verdadeiro que o a história tenha chegado ao fim e que o mundo esteja hoje fechado. Pelo contrário. E desde logo pela existência de “dissidentes”, de diferentes tonalidades, princípios e métodos (estes bastante condenáveis na maior parte das vezes), mas cada vez mais presentes um pouco por toda a parte. Hoje, isto é tão evidente que não será sequer necessário recordar o espanto desta civilização feita “modernidade senil” perante um Islamismo que, vazia de sacralidade, é totalmente incapaz de compreender. Deste lado e perante a Fé do outro resta então o cepticismo, o que frequentemente aconteceu às civilizações mais prósperas como facilmente se constata pela leitura de qualuer História Universal – como muito bem lembrava António Marques Bessa no nº 62 (Set./Out. 2006) da revista Futuro Presente.

Se considerarmos esta linha verificamos então que não só a História está em aberto, como provavelmente o seu futuro poucas vezes terá sido tão incerto. E se assim é, diria que, pelo menos, vale a pena o esforço de continuar a pensar.

Sucede que não é simples pensar sem ter como referência, nem que seja apenas como ponto de partida, uma concepção mínima do mundo e do homem. Ora, num mundo em mudança e ao qual se deparam novos problemas e desafios, as ideologias que conhecemos podem bem desempenhar um papel de “genealogia de ideias” ou de auxiliar e quadro mínimo de referências, mas sem que os seus defensores percam de vista a inultrapassável necessidade de as adaptar ao mundo real que se nos depara (em Itália há quem simplifique isto como segue: “não renegar, não restaurar”). Serão assim uma espécie de chaves que nos ajudem a interpretar o nosso tempo e que, não solucionando evidentemente os novos problemas, podem servir de âncora ou porto seguro de comunidades de destino e valores permanentes.

Em paralelo, nunca será excessivo lembrar que o trabalho de adaptação ou a afirmação de novas propostas ideológicas com alguma solidez impõem, numa primeira fase, uma forte aposta na batalha cultural. Será ela – e por regra apenas ela – que, quando a tal “modernidade senil” passar a defunta, determinará quem vence no plano político. Foi quase sempre assim.

As ideologias: ocaso ou eclipse?
Os Direitos Humanos: a Ideologia do Presente
Notas sobre a “Ideologia”
Direita e Esquerda
O bombista suicida, o conflito indirecto e o relojoeiro cego
Um desafio para o nosso tempo
Si non è vero…
Hipnoses
Ideología, revolución y post-revolución: el ejemplo británico
A trági-comédia nacionalista

A natalidade em Portugal
Encruzilhada de Caminhos
Anti-Política
O Aborto
Duas Notas Soltas: Do concurso “Os Grandes Portugueses“ e da justificação do Dr. Almeida Santos ao “Deserto“ do Ministro Mário Lino

A saga da Constituição Europeia
Hong Kong: Dez anos à procura de uma nova identidade

Um César das Letras e da Portugalidade
Clínica das letras
Pelo Autor é que Vamos
Carlos Eduardo de Soveral, Presente!
Desculpe... cheguei atrasado!
Mais Um Adeus
Soberano Soveral

Iberismo – uma aproximação
Revisitar Mouzinho de Albuquerque
Macau, a potente plataforma lusófona na Ásia: “Das lusas vantagens no Extremo-Oriente”
O Heroísmo dos Grandes Portugueses no Oriente

Editorial
Ecos da blogosfera
Capa

Nacional Internacional Cultura História Ideologias Ficha Técnica Publicidade Contactos Apoie-nos