Direita e Esquerda
por Miguel
Mattos Chaves*
1. O
que diferencia a esquerda da direita?
1.1
- Primeira tese que as diferencia: Igualdade!
1.1.1 A
direita considera que os Seres Humanos, as Pessoas, não são todas iguais
e como tal devem ser tratadas.
1.1.2.
A esquerda diz que todas as pessoas são iguais e como tal devem ser tratadas.
Uma
primeira nota sobre estas duas teses em confronto.
Partindo
do princípio, na minha opinião verdadeiro, de que as
pessoas não são todas iguais a direita está
melhor habilitada, porque mais realista, a tratar da governação
da sociedade.
Vejamos
então se é verdade que as Pessoas são todas
iguais:
-
no género: morfologicamente os homens são iguais às mulheres?
- na pirâmide demográfica: as crianças são iguais aos jovens e estes aos adultos?
-
Nas
características físicas: as pessoas são
todas iguais?
-
Na raça:
todas as pessoas são da mesma raça?
-
Na
religião: todas as pessoas professam a mesma religião?
Todas têm religião?
-
Na
formação: todas as pessoas chegam ao mesmo nível
de habilitações literárias, isto apesar de o
ensino ser universal? Todas as pessoas com o mesmo grau de
habilitação literária, dentro da mesma área
do saber, tem a mesma capacidade de desenvolvimento e aplicação
dos seus conhecimentos?
-
Na
educação: dois filhos, irmãos, com o
mesmo tipo de educação e de condições de
base, são muitas vezes completamente diferentes nos seus
comportamentos e atitudes perante a vida. Porquê?
-
No
carácter: todas as pessoas são conservadoras?
todas são inovadoras? todas são pioneiras? todas são
líderes naturais? todas são seguidoras?
-
Nos objectivos de vida:
todas as pessoas querem atingir o mesmo objectivo?
Dos
Três Pilares de base: Ser, Ter, Parecer – todas as pessoas nomeiam o mesmo pilar como ideal de vida?
Enfim,
poderia continuar com mais algumas questões, para mim, de
resposta óbvia. A
resposta continuaria a ser: NÃO! Não somos todos iguais! Somos todos
diferentes.
É
interessante fazer este exercício mental fora
das conjecturas, e do enquadramento, das “escolas oficiais” de pensamento, preferindo olhar para a realidade e deitando um olhar
sobre ela, para tentar chegar a um ponto onde se encontre um caminho
mais consentâneo com a realidade, partindo daí para o
traçar de um caminho possível que possibilite ás
elites governantes alcançar o bem comum de uma sociedade, fim
último de qualquer filosofia política.
1.2.
A Organização da
Sociedade
A
sociedade humana é estratificada.
Sempre o foi e sempre o será! Porquê?
Porque o ser humano é único no seu
ser; na sua forma de pensar; na sua forma de agir e interagir com os
outros seres humanos; na sua capacidade de sobrevivência; na
sua capacidade de prever o futuro e de se precaver dos tempos menos
favoráveis; na sua capacidade e habilidade de angariar bens;
na sua relação com o transcendental; no seu grau de
curiosidade de perceber o mundo que o rodeia.
E,
sendo diferente,
organizou-se naturalmente em consequência, formal ou
informalmente, desde os primórdios da humanidade.
Tendo por base
de organização da vida, a célula familiar (pai, mãe, filhos - mesmo quando não havia cerimónias
civis ou religiosas para o estabelecer), organizou-se a sociedade
segundo as capacidades de cada um dos seus membros de desenvolver
certas tarefas necessárias á sua própria
sobrevivência e á dos membros da sua família.
Organizou-se
progressivamente estabelecendo e organizando os laços com os
elementos da sua família
alargada (avós, tios e primos direitos), com os membros do seu clã (tios
avós, primos chegados e afastados), com o seu grupo
social (amigos e conhecidos) e com os seus compatriotas (aqueles que
racionalmente ou irracionalmente partilham os valores da Nação
e da Pátria).
1.3
– As Necessidades e
os Desejos
E
nos primórdios a sobrevivência era aquilo que é
necessário á manutenção da vida, ou seja: a)
alimentação, b) abrigo e c) vestuário.
E houve batalhas e guerras pela conquista destes três
factores/recursos.
E
hoje? Estas condições de pura sobrevivência
mudaram? Não!
Convém
aqui precisar o que quero, com isto, dizer. O ser humano complexo
físico e mental tem: Necessidades e Desejos.
As
necessidades são as três funções
necessárias á sobrevivência física, sem as
quais não existe a possibilidade de sobrevivência; ...
de vida mais ou menos prolongada.
Os
desejos já entram no capítulo diverso do
psicológico, do qualitativo,
i.e. melhor alimentação, melhor abrigo, vestuário
mais confortável, querer arranjar técnicas para viver
mais tempo e com melhor qualidade de vida física, querer mais
conforto, mais segurança física ou psicológica,
etc...
Garantidas
as três condições de base á sobrevivência,
o ser humano busca a melhoria qualitativa e o prolongamento da sua
vida terrena.
Assim
as necessidades evoluíram segundo o percurso evolutivo do ser
humano, ser pensante, na busca de melhores condições de
vida. Ser humano entendido como único e como membro da
comunidade de base que o rodeia.
1.4
– Mais algumas Diferenças e
Contradições
Então
se somos todos diferentes porque
diz a esquerda que somos todos iguais?
Porque
abstractamente, utopicamente, quer chegar á felicidade da
sociedade através de medidas gerais e universais.
a)
Somos todos seres humanos! Todos temos corpo e sangue!
b)
Todos temos capacidade de raciocínio! Todos queremos melhor
vida!
Estes
pontos de partida têm uma resposta também óbvia:
Sim!
Mas
convenhamos que para definir uma sociedade de seres humanos, não
chega.
E
muito menos para partir do princípio que somos todos iguais!
Se
nas questões que se prendem com a condição de
todos sermos seres humanos e todos sermos corpo e sangue não
há divergências.
Mas
o sangue é todo igual? (i.e. Tipo A, B,C e subgrupos). O
ADN é igual para todos os seres humanos? Pelos vistos até isso a ciência
veio dizer que não! Tudo bem. Deixemos isso de lado, como
deixemos igualmente de lado o facto de os corpos não serem iguais. E ainda bem! Perdoem-me a graça: Que
monotonia seria a vida!
Já
no que se refere á capacidade
de raciocínio. É verdade que todos a temos. Mas... o grau em que temos essa
capacidade é que é diferente de pessoas para pessoa e
isso faz a sua diferença na progressão de vida.
Todos
queremos melhor vida! Verdade! Mas todos dizemos o mesmo quando verbalizamos: melhor vida?
O que é para cada um, uma melhor vida?
Mais
uma vez, isso depende de cada pessoa, do tempo em que se desenrola a
sua vida, das coisas disponíveis e do espaço em que
vive.
Regressemos
então á base, da base: somos todos humanos!
E
aqui a Esquerda assenta o seu cavalo de batalha e tira conclusões:
se somos todos humanos, logo...somos todos iguais, logo... todos
temos direito ao mesmo, logo...não deve haver classes,
logo...a sociedade não é estratificada, logo ...etc...
E
extrapola todas as consequências desta sequência para o
seu pensamento dominante, para a sua acção política.
Mas
logo entra em contradição com o seu cavalo de batalha pois acrescenta: é preciso
defender os mais fracos e os menos capazes!
Então
em que ficamos? Se há mais fracos e mais fortes, somos todos iguais? Mais
fortes e mais fracos em quê?
Defendem-se
dizendo que a sociedade a caminho do socialismo ou da social
democracia sofre dessas desigualdades, mas que quando lá
estivermos seremos todos iguais... daí a célebre frase
dos socialistas e sociais democratas: a caminho do socialismo ou a
caminho da sociedade sem classes.
Pergunto:
como? Se tudo o que está para trás escrito das
diferenças que existem entre os seres humanos reais é
uma realidade e impossibilita cientificamente essa possibilidade?
1.5
– E a Lei? E as Defesas?
E a Previdência?
Iguais
perante a Lei! Eis
a suprema versão da esquerda, falhadas as outras versões. Muito bem. Quem elabora as Leis?
1º
- Seres humanos com capacidades próprias e distintas dos
demais.!
2º
- O seu cumprimento é para todos obrigatório. Mas...
todos a cumprem? E quando não a cumprem, todos são
condenados da mesma forma ou grau?
Quando
a Direita diz,
que é necessário proteger os mais fracos assume que é
face aos mais fortes. Sabe que existem mais fortes e mais fracos e
Assume-o claramente, sem hesitações nem complexos, como
assume todo o postulado de que somos todos diferentes. É, em
consequência, mais coerente com o seu postulado de base: os
seres humanos são todos diferentes. Daí a necessidade
de proteger o mais fraco do mais forte.
Então
que Consequências destas premissas de base se podem tirar?
Uma
delas foi a que levou a Direita a criar (no pós-guerra) o
Estado Providência, que não o Estado Social (criado pela Esquerda sobre as fundações do primeiro).
NOTA:
Não confundir a DIREITA
com LIBERAIS.
Uns nada têm a ver com os outros. (este erro é tão
comum hoje em dia em Portugal e isso tem contribuído para a
falta de organização e afirmação da
Direita em Portugal). Os Liberais defendem básicamente a LEI
do MAIS FORTE. A
Direita NÃO, como adiante se verá!
A
Direita assume: somos todos diferentes. Há os mais capazes e os mais fracos. E
postula que por isso ser uma realidade e por não querer ver
instalada na sociedade a lei do mais forte diz claramente, sem medo
das palavras, que por isso é preciso proteger os mais fracos.
De
quem? Dos mais fortes!
Mas
isto é feito sem amachucar os mais fortes, os mais capazes.
Porquê? Porque os mais fortes são os que têm mais
capacidades de organização da sociedade nos diferentes
níveis, de empreendedorismo, de condução da
sociedade, de prover ao sustento dos demais, de defender a sua
comunidade de ameaças de estranhos á mesma. E como tal
são necessários e imprescindíveis a uma
sociedade equilibrada.
Mas
estes têm, sejamos claros, o DEVER de protegerem os mais
fracos, os menos capazes. Em primeiro lugar ensinando-os,
enquadrando-os, dando-lhes a “cana para pescar”. Não o
peixe. Isso só em casos de incapacidade física ou
mental, que impossibilitem as pessoas de angariar o seu próprio
sustento.
O
dar a “cana” é proporcionar aos menos capazes os
ensinamentos necessários á sua sobrevivência
digna na sociedade.
Por
isso a Direita é normalmente muito atenta á construção de
Normas/Leis que protejam os interesses da sociedade sem possibilitar
aos mais fortes o abuso sobre os mais fracos e evitando que estes
tentem tirar desforço. Tenta, no seu ordenamento jurídico,
equilibrar os interesses em presença, privilegiando o
Indivíduo e a Família.
Mas
a Direita foi mais longe: e dada a imprevidência natural da maioria criou um sistema
qualitativo que permite:
- quando
estão doentes,
e não têem meios suficientes, as pessoas terem
assistência médica – as caixas de Previdência -
Assistência Médica e medicamentosa;
-
quando trabalham e se encontram
numa situação de involuntáriamente estarem desempregadas,
não morrerem de fome: o subsídio de desemprego;
- quando
trabalharam toda a sua vida,
quando atingem uma idade avançada, e já não
podem trabalhar, não morrerem de fome: a pensão de
reforma.
Ou
seja o Estado Previdência, alimentado ao longo da vida pelas contribuições dos
cidadãos.
A
Esquerda o que fez: tomou todas estas evoluções (almofadas sociais) e
flexibilizou de tal maneira as regras de acesso ao sistema, criando o
Estado Social, que subverteu a ideia inicial de ajuda aos que mais
precisam. Agora é para TODOS, precisem ou não. Daí
a sua falência!
ATENÇÃO: Este Estado Previdência tem sido o responsável pela
manutenção da Paz no Continente Europeu, desde a 2º
guerra mundial, dado que é uma "almofada social"
fundamental que ninguém quer perder!
2.
Referências Humanas – os três níveis -
individual, colectivo, transcendental
Mas
voltemos, para já, á organização da
sociedade, ás referências humanas:
O
primeiro nível da organização humana é a
família.
Em
primeiro lugar o ser humano precisa de ter á sua volta o núcleo
familiar para poder ser uma pessoa equilibrada, segura, capaz de desenvolver
as suas capacidades de inter-relacionamento saudável com os
outros níveis. É o seu “porto de abrigo”, a sua
influência directa no dar e receber, a sua fonte primeira de
aprendizagem.
Em
segundo lugar o ser humano necessita de sentir, de saber, que pertence a um grupo
social e a uma comunidade de interesses, de língua, de
história, de cultura: Uma Nação, com território,
com Povo que é, juntamente com os valores e factores comuns, a
sua Pátria. A sua grande casa e dos seus com-nacionais,
dos seus compatriotas, que o ajuda a identificar-se no meio do Mundo
como ser gregário e Políticamente organizado e
identificado.
Quer
a Nação tenha um Estado que a represente, ou não. Temos inúmeros
exemplos disto; um exemplo apenas: o Povo Curdo de que tanto se fala.
Não é pelo facto de terem o seu território
dominado pela Turquia e pelo Iraque, não é pelo facto
de não terem um Estado, um Poder Político reconhecido e
independente que os represente, que deixam de ter um sentimento
nacional, um sentimento de Pátria fortíssimo.
Em
terceiro lugar o ser humano necessita de acreditar no transcendental. Na sua busca
pela primeira razão da sua existência, - da existência
dos outros, do seu Mundo, do Mundo, - chega a Deus. Mesmo os que não
acreditam na sua existência acabam por lá chegar pela
Razão.
Se
não vejamos: a teoria mais na moda actualmente é que o
Mundo foi gerado pelo “Big—Bang”! Tudo bem! Isso pode até
ser a causa material, ao alcance da observação limitada
do ser humano...! Mas... quem deu origem á matéria que
originou o “Big-Bang”? Dizia Louis Pasteur: quanto mais aprofundo
os meus conhecimentos científicos, quanto mais procuro a causa
primeira, mais chego a uma resposta: Deus.
E
assim de há muito que, independentemente das religiões,
se estabeleceu no Ser Humano a trilogia fundamental das suas
circunstâncias. A sua própria individualidade é
rodeada dos três factores decisivos:
-
o da sua organização
próxima. O seu “porto de abrigo”, a esfera da sua
convivência do dia-a-dia: A Família;
-
o da sua organização
comunitária, do seu sentimento de pertença a uma
nacionalidade, a uma comunidade psicologicamente coesa: a Nação e a Pátria;
-
o transcendental, o que o
transcende, que está fora do seu domínio e muitas vezes
fora da sua compreensão, o sobrenatural: Deus
E
por temor deste enunciado, da sua força agregadora, da sua
força face a outras ideias, a
esquerda entreteve-se a deslustrar esta trilogia.
Porque
defende um Internacionalismo e uma Igualdade que só existe na
utopia. Mas como quer valorizar essas premissas e transformá-las em
valores, a Esquerda ridicularizou e tentou menorizar esta trilogia,
da raíz mais profunda, do ser humano que a
Direita portuguesa,
(a que deu corpo ao regime autocrático da 2ª República), e
a Democrática que também foi fundadora da 3ª República, defende
e deverá continuar, porque natural, a defender.
Já
não vale a pena referir que até á 2ª Grande
Guerra esta trilogia era defendida pela esmagadora maioria da
população portuguesa. A memória só é
curta para alguns.
Só
com o surgimento e o fortalecimento dos regimes internacionalistas (leia-se socialistas e comunistas, que buscaram as suas raízes
no século XIX) é que esta trilogia foi tentativamente
substituída por outra: Igualdade, Internacionalismo,
Ateísmo/Laicismo.
Em
Resumo:
NÍVEL ESQUERDA DIREITA
Individual Igualdade/Indivíduo Diferença/Família
Colectivo Internacionalismo Nação/Pátria
Transcendental Ateísmo/Laicismo Deus
O
livre arbítrio é um dado do ser humano. Pode fazer o
bem ou o mal. Pode acreditar ou não acreditar. Pode defender
as ideias que quiser. Ora assim não tente a esquerda retirar o
livre arbítrio aos outros. Livre arbítrio que para si,
e para os seus seguidores, guarda.
Que
a Esquerda Não tente impor como únicos os seus valores,
a sua trilogia.
As
consequências políticas, económicas e sociais de
cada um destes postulados são diversas.
Se
a partir disto a Esquerda quer impor o comportamento sexual das senhoras que estão no
cartaz, como comportamento igualitário, e difundir a ideia que
são iguais a nós, é problema dela. A
asneira não paga imposto!
Fico
hoje por aqui!
_______________________________
*Gestor e
Mestre em Estudos Europeus Pela
Universidade Católica |