Os Direitos Humanos: a Ideologia do Presente
por Jorge Azevedo
Correia
Aquando da Queda do
Muro de Berlin, Francis Fukuyama prenunciou o Fim da História
e a emergência da hegemonia liberal. Tal visão é
sempre absurda, por presumir um conhecimento do próprio tecido
da Eternidade, que só pode derivar do pensamento religioso, ou
da própria patranha ideológica que se pretendeu
analisar. Não é estranho que sejam os proponentes de um
determinado tipo de ideologia e da sua mitologia, a prenunciar a
vitória da sua visão do mundo, nem é estranho
que a difusão e a elevação da obra ao estatuto
de peça central do pensamento contemporâneo (junto com
as obras de Daniel Bell, que faziam semelhante prognose) venha da
parte do “marxismo mal-resolvido” e institucionalizado a que se
convencionou chamar “neoconservadorismo”. É evidente a
ligação com o “socialismo-científico”, que
também postulava a incondicional marcha para o sistema
comunista, onde a gestão tecnocrática do mundo geraria,
de forma escatológica, o fim da escassez.
A ideologia é
sempre o exacerbar de um desejo, a divinização de um
elemento terreno que tenta subordinar a realidade e que se blinda
sempre ao retirar do domínio da racionalidade aos que nela
embarcam. O marxismo afirmava que todas as acções
humanas estariam condicionadas pela relações económicas
e pelo interesse material. Onde tal não era observável
o marxismo professava que se tratava de um erro na observação
(que não teria sido suficientemente “científica”).
O mesmo aconteceu ao liberalismo, que cimentou a hegemonia dos
direitos que divinizou num condicionamento da realidade e do passado
a uma posição irreal, construída para dar o
resultado que desejava. O contratualismo, nas suas várias
facetas, existe como justificação imperativa para um
resultado determinado à partida. Da mesma forma, o pensamento
de alguma “direita conservadora” também não se
encontra imune à praga ideológica, não lhe
faltando uma dose de cepticismo radical, na crença de que
“vivemos no melhor dos mundos possíveis”. Pangloss não
diria melhor...
Poder-se-ia imaginar
que com a emergência da pós-modernidade e do carácter
relativista que a reveste, o domínio das ideologias poderia
findar. A generalidade dos autores pós-modernos, e em
particular Foucault, insurgiram-se contra a ideologia,
diagnosticando-a como projecção de uma verdade
transcendente, inexistente e abrangente, utilizada como instrumento
de poder. Basta, porém, observar a forma como os políticos
da Esquerda Radical se referem aos Direitos Humanos, aos Direitos das
Minorias, aos Direitos dos Animais, para perceber a contradição
com que nos deparamos. Proclama-se a não existência de
verdades superiores ao indivíduo, para depois se tratarem os
direitos como um elemento imperativo que é preciso concretizar
na realidade.
Pode parecer paradoxal
a forma como os Direitos Humanos se conseguiram implantar de forma
tão visível numa época em que se proclama a
inexistência de tudo o que seja superior ou prévio ao
Homem e ao indivíduo. O que aconteceu, na realidade, foi uma
progressiva degradação do valor dos Direitos Humanos
que acompanhou a sua utilização como ferramenta
política pelos países do “terceiro-mundo” e
posteriormente na aproximação da Europa ao mundo
descolonizado, de que o bloco europeu pretende ser exemplo e
referência. No paradigma liberal clássico os Direitos
Humanos consistiam numa premissa inviolável e estruturada na
maneira de ser das coisas (existe no liberalismo clássico um
deísmo quase sempre assumido), nos nossos dias os Direitos
Humanos existem sem qualquer tipo de fundamentação que
não seja o desejo da comunidade internacional, dos Estados,
dos indivíduos.
Sem uma fundamentação
maior os Direitos Humanos encontram-se à mercê dos
tempos e das vontades, o que é desanimador, tendo em vista o
propósito constituinte de combater o despotismo e os flagelos
que assolaram o século XX. Só assim se justifica a
forma como o acervo dos Direitos Humanos foi ganhando direitos
materiais profundamente abstractos e desprovidos de sentido. Conceder
um direito ao vestuário aos pigmeus das Filipinas, ou férias
pagas a uma comunidade recolectora das florestas tropicais (ou ao
Abominável Homem das Neves, como caricaturou Hayek) é,
não apenas uma paródia do que deve ser uma ordenação
jurídica, mas uma mentira com intuitos perfeitamente
identificáveis. Ao tomar a Justiça como obtenção
de elementos materiais (emprego, habitação, férias
pagas, segurança social), nomeia-se a “social-democracia”
como única forma de governação legítima
na ordem internacional e caracteriza-se o progresso material como
critério de justiça internacional para avaliação
de um regime.
Uma das lacunas
centrais do sistema de Direitos Humanos consiste na ausência de
uma estrutura coesa de valores, ou sequer de uma finalidade ou
orientação coerente. Dentro do seu articulado cabe uma
defesa dos direitos de propriedade individual e, simultaneamente, o
direito à propriedade dos outros, através do direito ao
trabalho, à segurança social, a férias pagas.
Uma vez que não exista uma precedência de um direito
sobre o outro, permanece-se na arbitrariedade dos princípios
abstratos e vazios. Onde não existe um princípio claro,
sobra o poder de facto para ordenar as coisas, apesar das palavras e
das intenções. Instala-se a arbitrariedade que os
Direitos Humanos supostamente viriam abolir. Os Direitos Humanos não
são uma ordenação jurídica ou moral, mas
uma verdadeira “Carta ao Pai Natal”, como notou Jeane
Kirkpatrick, embaixadora da Administração Reagan junto
das Nações Unidas.
Todas as concepções
abstractas de direitos enfermam de um problema fundamental. Ao não
se fundarem numa legitimidade superior e anterior à existência
da comunidade, permanecem justificadas no domínio da Vontade
Colectiva, facto que impede que existam restrições ao
Poder e que esse Direito tenha qualquer intuito que não seja
meramente declaratório. A questão foi amplamente
analisada por Edmund Burke nas suas “Reflexões sobre a
Revolução em França”, ao prognosticar a
emergência do “Terror Revolucionário” e ao
identificá-lo precisamente com a tentativa de começar
uma sociedade ex nihilo. A ausência de preconceitos e
preceitos morais da comunidade e a afirmação da razão
humana como único guia da acção política,
teve como consequência lógica a invenção
de um conjunto de direitos metafísicos, em que os seus
sujeitos se julgariam no Paraíso (ao invés da
concretização real de princípios de Justiça
perenes), mas que as comunidades políticas não tinham
fundamento para respeitar, assim que julgassem de outra maneira. Daí
que o sistema político que engendrou os Direitos Humanos, se
tenha tornado a máquina de matar que todos conhecem da
guilhotina, do empalamento da Nobreza, dos afogamentos colectivos de
Cristãos.
O facto de os Direitos
Humanos serem a grande fonte de retórica política do
nosso tempo e serem acriticamente aceites pela nossa sociedade, não
os tornam menos ideológicos. A pretensão de
neutralidade que os envolve é apenas a camada que a protege de
uma análise mais profunda. Tal só demonstra que nos
encontramos numa época tão, ou ainda mais, ideológica
que a precedente.
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