Ano II - Nº 9, Setembro/Outubro de 2007
Alameda Digital
Ideologias
Duas Notas Soltas: Do concurso “Os Grandes Portugueses“ e da justificação do Dr. Almeida Santos ao “Deserto“ do Ministro Mário Lino

por Pedro Amaral

A – Do ainda concurso “ Os Grandes Portugueses “.

Não se pretende comentar, aqui, as vitórias e derrotas que se julgue ter havido no concurso “ Os Grandes Portugueses “ que, bem há pouco tempo, teve a sua passagem pelo canal televisivo da RTP 1.

Também não comentaremos as reacções havias por certas pessoas, algumas delas ligadas à política, reveladoras de uma atitude radical e nada amiga de uma ambiência democrática onde a aceitação da opinião diferente é o principal primado.

Nem nos debruçaremos sobre as desculpas tecidas por alguns que, numa fuga para a frente, pretendem que os resultados obtidos não correspondem à realidade por, entre outras razões, ter havido a possibilidade de a mesma pessoa ter votado várias vezes na mesma personagem. Como se o argumento não tivesse o mesmo peso para aqueles que desejariam um resultado, no mínimo, diferente, para não dizer a gosto.

O que se me afigura importante aqui é o resultado que foi obtido 33 anos após o 25 de Abril e 39 anos depois de ter morrido o Prof. Dr. Oliveira Salazar. E isso é revelador de algo muito importante. Traduz fundamentalmente que o factor tempo é crucial na avaliação posterior que as pessoas façam de outras que se distinguiram, bem ou mal, em certas áreas de actuação.

Repare-se que, após o 25 de Abril, nunca houve tanto tempo, tanta vontade, tanta disponibilidade, tanto desejo, tanto poder e possibilidade de atribuir ao Prof. Dr. Oliveira Salazar toda a iniquidade ocorrida em Portugal. Mas pelos vistos e face ao resultado obtido, o empenho havido no desiderato acima referido não foi conseguido. E isso é o que mais dói para alguns: querer abanar e derrubar algo que não cai e antes se afirma e reafirma perante a realidade actual.

Volvamos ao factor tempo. Em época que já lá vai ( corria o ano de 1964 ) e numa aula de História do antigo 4º ano do liceu, um professor dizia que um facto histórico só o é se sobre ele passarem pelos menos 50 anos. Não sabemos se isso é verdadeiro ou falso. Desconheçemos os requisitos que os historiadores exigem para classificar um facto de histórico. Porém, verificamos que esse professor poderá ter razão e que o concurso “ Os Grandes Portugueses “ será eventualmente a prova provadinha do acerto da frase proferida.

É que o resultado havido no concurso em causa revela algo muito singelo. O de que começa a despontar o tempo em que gente aparece e toma posições criticas e de apreciação da história e das suas personagens sem dependência a ideias préconcebidas, “ slogans “ ou esteriótipos ideológicos que exteriorizam uma diminuição mental confrangedora.

É acima de tudo revelador de que se inicia uma época onde a objectividade, a isenção e a análise desapaixonada dos factos históricos fará a sua entrada em palco. Com tudo o que isso traga de bom e/ou de mau sobre as personagens visadas. Com tudo o que isso represente de melhor para a compreensão, por parte das novas gerações, do que então se fez e não fez. Mas, sobretudo com tudo o que isso possa revelar de alheamento em relação a posições ideológicas intoxicantes, condicionantes do modo de pensar e agrilhoantes de uma liberdade de se ser e de se estar.

Uma última palavra para referir que o concurso passado foi isso e só isso: um concurso. Daí que o eventual receio de quem desejaria um resultado diferente situa-se na possibilidade de que os números traduzam um dado estatístico e, a ser assim, o ainda receio de que uma figura histórica, altamente criticada após o 25 de Abril, tenha sobrevivido com uma pujança bem maior do que alguma vez se esperaria. E para aqueles que eventualmente encarem os dados obtidos como uma amostra estatística com margem de erro maior ou menor, a verdade é que, a ser assim, uma conclusão se extrai: ainda que se queira encarar como não sendo uma vitória do estadista Dr. Oliveira Salazar, foi seguramente uma enorme derrota para todos os que se assumem ( ou se assumiram ), implícita e explicitamente, como detractores daquele.

B- A justificação do Dr. Almeida Santos sobre o recém chegado “ Deserto “ do Exmº Sr. Ministro, Mário Lino.

O tema escolhido não tem tanto a ver com as declarações do Exmº Sr. Ministro das Obras Públicas mas sim com a fundamentação que, em jeito de ajuda, o Dr. Almeida Santos, Presidente do Partido Socialista, teceu quando lhe foi pedido que comentasse a infeliz frase proferida pelo Sr. Ministro das Obras Públicas. E porquê centrar a nossa atenção na fundamentação do Dr. Almeida Santos?

O Dr. Almeida Santos sempre nos habituou a um tipo de argumentação quase que inatacável. Goste-se dele ou não, o discurso do Dr. Almeida Santos, ao longo de toda a sua vida política, pautou-se sempre pelo brilhantismo na argumentação, pela inteligência na análise das diversas situações e por uma aparente lógica e coerência entre as permissas e as conclusões que retirava. Ainda que partisse de permissas erradas ou por demonstrar. De qualquer das formas, o que foi singular no Dr. Almeida Santos, e que se revelou contrário à excelência a que nos tem habituado, assentou no argumento “ maior “, se assim se pode dizer, que, em jeito de conclusão, atirou para o ar na ajuda que pretendeu dar ao Exmº Sr. Ministro das Obras Públicas. E que argumento foi esse?

Todos nós estamos lembrados das palavras do Sr. Ministro das Obras Públicas quando, numa dissertação sobre a bondade da opção do novo aeroporto na Ota, referiu qua a margem sul do Tejo, que para certas pessoas constituia o melhor local para a construção do novo aeroporto, era um deserto. A infeliz frase consequenciou de imediato uma série de reacções de politicos e de cidadãos residentes na referida margem sul.

Deixemos as questões técnicas para os peritos defensores de qualquer das opções e atentemos naquilo que o Dr. Almeida Santos disse, quando abordado. Começando por admitir a infelicidade verbal do membro do Governo em causa, adiantou que a opção tomada era a correcta porque, entre outras coisas, existe o terrorismo. E que o terrorismo é uma realidade que nos rodeia e, assim sendo, não seria de descartar a hipótese de qualquer das pontes sobre o Tejo ser alvo de atentados terroristas. E que a ser assim, os cidadãos poderiam estar sob um potencial perigo acrescido quando se deslocassem para o aeroporto situado ( a situar-se ) na margem sul do Tejo.

Ficámos siderados com argumento tão aterrorizante. Não tanto porque uma das pontes sobre o Tejo possa ser visada por um desses novos “heróis “ da actual realidade globalizante que é o terrorismo. Mas sim porque os corolários de tal tese pousaram diante dos nosso olhos de uma forma sem igual. E quais são eles?

1º Corolário:

A dar real valia ao afirmado pelo Dr. Almeida Santos, constata-se que não existe o mesmo perigo para os cidadãos que vivem na margem sul e que tenham de se deslocar para o aeroporto da Ota. E porquê? Muito simplesmente porque os terroristas saberão antecipadamente e com uma precisão que faria inveja a um relógio atómico que, por exemplo, os Srs. X e Y que num dado momento se encontram a percorrer uma das pontes,são da margem sul e, por isso, susterão, nesse momento, qualquer ataque. Dito de outra forma, são os cidadãos que vivem na margem norte o alvo dos terroristas quando pretenderem atravessar o Tejo para o aeroporto que se venha a situar ( virá ? ) na margem sul.

2º Corolário

A ser verdade que o perigo também espreita o cidadão da margem sul que atravessar as pontes sobre o Tejo em direcção à Ota, a afirmação do Dr. Almeida Santos leva-nos a concluir ( ainda que não queiramos ) da necessidade de existirem dois aeroportos que sirvam os cidadãos das duas margens e, com isso, desaparecerá o perigo da travessia das pontes.

3º Corolário:

A manter-se ainda a ideia de que o perigo existe para ambos os lados, a afirmação do Dr. Almeida Santos conduz-nos a pensar que os cidadãos do sul do Tejo serão bem mais engenhosos que os do norte na passagem do rio Tejo em direcção à Ota, não o fazendo pelas pontes mas por barco ( cacilheiros a operar mais a montante ), a nado ou de submarino.

4º Corolário

Se uma das razões substanciais é o perigo de actos de terrorismo nas pontes sobre o rio Tejo para quem pretenda dirigir-se para o aeroporto situado na margem sul ( mera hipótese académica ), não se descortinam os motivos que terão levado os vários governos a construí-las, a mantê-las e a pretender construir mais uma que se situará a montante de Vila Franca de Xira e cujas obras decorrem.

5º Corolário

Finalmente poder-se-á descortinar, no argumento do Dr. Almeida Santos, o verdadeiro motivo que o norteou a dizer o que disse; o de que a margem sul é realmente um deserto e, sendo-o, o únicos alvos que existiriam, em matéria de terrorismo, seriam as pessoas da margem norte que pretendem usufruir das benesses geradas pelo novo aeroporto situado na margem sul, considerando a desertificação desta, no que à raça humana diz respeito.

E com isto o Dr. Almeida Santos ou pretendeu desculpar o Sr. Ministro, na sua infeliz afirmação, proferindo uma bem maior no intuito ( será ? ) de fazer esquecer a primeira ou, sem querer, realizou um exercício escusado de atentado à inteligência do homem mediano. O que, voltando ao início, nos deixa perplexos, já que conhecemos, do antanho, a sua superior inteligência que andou, neste caso, à deriva. Nervosismo ou uma simples questão de idade?

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