| Duas Notas Soltas: Do concurso “Os Grandes Portugueses“ e da justificação do Dr. Almeida Santos ao “Deserto“ do Ministro Mário Lino
por Pedro Amaral
A –
Do ainda concurso “ Os Grandes Portugueses “.
Não se pretende comentar, aqui, as vitórias e derrotas
que se julgue ter havido no concurso “ Os Grandes Portugueses “
que, bem há pouco tempo, teve a sua passagem pelo canal
televisivo da RTP 1.
Também não comentaremos as reacções
havias por certas pessoas, algumas delas ligadas à
política, reveladoras de uma atitude radical e nada amiga de
uma ambiência democrática onde a aceitação
da opinião diferente é o principal primado.
Nem nos debruçaremos sobre as desculpas tecidas por alguns
que, numa fuga para a frente, pretendem que os resultados obtidos não
correspondem à realidade por, entre outras razões, ter
havido a possibilidade de a mesma pessoa ter votado várias
vezes na mesma personagem. Como se o argumento não tivesse o
mesmo peso para aqueles que desejariam um resultado, no mínimo,
diferente, para não dizer a gosto.
O que se me afigura importante aqui é o resultado que foi
obtido 33 anos após o 25 de Abril e 39 anos depois de ter
morrido o Prof. Dr. Oliveira Salazar. E isso é revelador de
algo muito importante. Traduz fundamentalmente que o factor
tempo é crucial na avaliação posterior
que as pessoas façam de outras que se distinguiram, bem ou
mal, em certas áreas de actuação.
Repare-se que, após o 25 de Abril, nunca houve tanto tempo,
tanta vontade, tanta disponibilidade, tanto desejo, tanto poder e
possibilidade de atribuir ao Prof. Dr. Oliveira Salazar toda a
iniquidade ocorrida em Portugal. Mas pelos vistos e face ao resultado
obtido, o empenho havido no desiderato acima referido não foi
conseguido. E isso é o que mais dói para alguns: querer
abanar e derrubar algo que não cai e antes se afirma e
reafirma perante a realidade actual.
Volvamos ao factor tempo. Em época que já lá vai
( corria o ano de 1964 ) e numa aula de História do antigo 4º
ano do liceu, um professor dizia que um facto histórico só
o é se sobre ele passarem pelos menos 50 anos. Não
sabemos se isso é verdadeiro ou falso. Desconheçemos os
requisitos que os historiadores exigem para classificar um facto de
histórico. Porém, verificamos que esse professor
poderá ter razão e que o concurso “ Os Grandes
Portugueses “ será eventualmente a prova provadinha do
acerto da frase proferida.
É que o resultado havido no concurso em causa revela algo
muito singelo. O de que começa a despontar o tempo em que
gente aparece e toma posições criticas e de apreciação
da história e das suas personagens sem dependência a
ideias préconcebidas, “ slogans “ ou esteriótipos
ideológicos que exteriorizam uma diminuição
mental confrangedora.
É acima de tudo revelador de que se inicia uma época
onde a objectividade, a isenção e a análise desapaixonada dos factos históricos fará a sua
entrada em palco. Com tudo o que isso traga de bom e/ou de mau sobre
as personagens visadas. Com tudo o que isso represente de melhor para
a compreensão, por parte das novas gerações, do
que então se fez e não fez. Mas, sobretudo com tudo o
que isso possa revelar de alheamento em relação a
posições ideológicas intoxicantes,
condicionantes do modo de pensar e agrilhoantes de uma liberdade de
se ser e de se estar.
Uma última palavra para referir que o concurso passado foi
isso e só isso: um concurso. Daí que o eventual receio
de quem desejaria um resultado diferente situa-se na possibilidade de
que os números traduzam um dado estatístico e, a ser
assim, o ainda receio de que uma figura histórica, altamente
criticada após o 25 de Abril, tenha sobrevivido com uma
pujança bem maior do que alguma vez se esperaria. E para
aqueles que eventualmente encarem os dados obtidos como uma amostra
estatística com margem de erro maior ou menor, a verdade é
que, a ser assim, uma conclusão se extrai: ainda que se
queira encarar como não sendo uma vitória do estadista
Dr. Oliveira Salazar, foi seguramente uma enorme derrota para todos
os que se assumem ( ou se assumiram ), implícita e
explicitamente, como detractores daquele.
B- A
justificação do Dr. Almeida Santos sobre o recém
chegado “ Deserto “ do Exmº Sr. Ministro, Mário Lino.
O tema escolhido não tem tanto a ver com as declarações
do Exmº Sr. Ministro das Obras Públicas mas sim com a
fundamentação que, em jeito de ajuda, o Dr. Almeida
Santos, Presidente do Partido Socialista, teceu quando lhe foi pedido
que comentasse a infeliz frase proferida pelo Sr. Ministro das Obras
Públicas. E porquê centrar a nossa atenção
na fundamentação do Dr. Almeida Santos?
O Dr. Almeida Santos sempre nos habituou a um tipo de argumentação
quase que inatacável. Goste-se dele ou não, o discurso
do Dr. Almeida Santos, ao longo de toda a sua vida política,
pautou-se sempre pelo brilhantismo na argumentação,
pela inteligência na análise das diversas situações
e por uma aparente lógica e coerência entre as permissas
e as conclusões que retirava. Ainda que partisse de permissas
erradas ou por demonstrar. De qualquer das formas, o que foi singular
no Dr. Almeida Santos, e que se revelou contrário à
excelência a que nos tem habituado, assentou no argumento “
maior “, se assim se pode dizer, que, em jeito de conclusão,
atirou para o ar na ajuda que pretendeu dar ao Exmº Sr. Ministro
das Obras Públicas. E que argumento foi esse?
Todos nós estamos lembrados das palavras do Sr. Ministro das
Obras Públicas quando, numa dissertação sobre a
bondade da opção do novo aeroporto na Ota, referiu qua
a margem sul do Tejo, que para certas pessoas constituia o melhor
local para a construção do novo aeroporto, era um
deserto. A infeliz frase consequenciou de imediato uma série
de reacções de politicos e de cidadãos
residentes na referida margem sul.
Deixemos as questões técnicas para os peritos
defensores de qualquer das opções e atentemos naquilo
que o Dr. Almeida Santos disse, quando abordado. Começando por
admitir a infelicidade verbal do membro do Governo em causa, adiantou
que a opção tomada era a correcta porque, entre outras
coisas, existe o terrorismo. E que o terrorismo é uma
realidade que nos rodeia e, assim sendo, não seria de
descartar a hipótese de qualquer das pontes sobre o Tejo ser
alvo de atentados terroristas. E que a ser assim, os cidadãos
poderiam estar sob um potencial perigo acrescido quando se
deslocassem para o aeroporto situado ( a situar-se ) na margem sul do
Tejo.
Ficámos siderados com argumento tão aterrorizante. Não
tanto porque uma das pontes sobre o Tejo possa ser visada por um
desses novos “heróis “ da actual realidade globalizante
que é o terrorismo. Mas sim porque os corolários de tal
tese pousaram diante dos nosso olhos de uma forma sem igual. E quais
são eles?
1º
Corolário:
A dar real valia ao afirmado pelo Dr. Almeida Santos, constata-se que
não existe o mesmo perigo para os cidadãos que vivem na
margem sul e que tenham de se deslocar para o aeroporto da Ota. E
porquê? Muito simplesmente porque os terroristas saberão
antecipadamente e com uma precisão que faria inveja a um
relógio atómico que, por exemplo, os Srs. X e Y que
num dado momento se encontram a percorrer uma das pontes,são
da margem sul e, por isso, susterão, nesse momento, qualquer
ataque. Dito de outra forma, são os cidadãos que vivem
na margem norte o alvo dos terroristas quando pretenderem atravessar
o Tejo para o aeroporto que se venha a situar ( virá ? ) na
margem sul.
2º
Corolário
A ser verdade que o perigo também espreita o cidadão da
margem sul que atravessar as pontes sobre o Tejo em direcção
à Ota, a afirmação do Dr. Almeida Santos
leva-nos a concluir ( ainda que não queiramos ) da necessidade
de existirem dois aeroportos que sirvam os cidadãos das duas
margens e, com isso, desaparecerá o perigo da travessia das
pontes.
3º
Corolário:
A manter-se ainda a ideia de que o perigo existe para ambos os lados,
a afirmação do Dr. Almeida Santos conduz-nos a pensar
que os cidadãos do sul do Tejo serão bem mais
engenhosos que os do norte na passagem do rio Tejo em direcção
à Ota, não o fazendo pelas pontes mas por barco (
cacilheiros a operar mais a montante ), a nado ou de submarino.
4º
Corolário
Se uma das razões substanciais é o perigo de actos de
terrorismo nas pontes sobre o rio Tejo para quem pretenda dirigir-se
para o aeroporto situado na margem sul ( mera hipótese
académica ), não se descortinam os motivos que terão
levado os vários governos a construí-las, a mantê-las
e a pretender construir mais uma que se situará a montante de
Vila Franca de Xira e cujas obras decorrem.
5º
Corolário
Finalmente poder-se-á descortinar, no argumento do Dr. Almeida
Santos, o verdadeiro motivo que o norteou a dizer o que disse; o de
que a margem sul é realmente um deserto e, sendo-o, o únicos
alvos que existiriam, em matéria de terrorismo, seriam as
pessoas da margem norte que pretendem usufruir das benesses geradas
pelo novo aeroporto situado na margem sul, considerando a
desertificação desta, no que à raça
humana diz respeito.
E com isto o Dr. Almeida Santos ou pretendeu desculpar o Sr.
Ministro, na sua infeliz afirmação, proferindo uma bem
maior no intuito ( será ? ) de fazer esquecer a primeira ou,
sem querer, realizou um exercício escusado de atentado à
inteligência do homem mediano. O que, voltando ao início,
nos deixa perplexos, já que conhecemos, do antanho, a sua
superior inteligência que andou, neste caso, à deriva.
Nervosismo ou uma simples questão de idade?
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