O Heroísmo dos Grandes Portugueses no Oriente
por Vitório Rosário Cardoso
Nesta
viagem pelo vasto Oriente Marítimo, contaram-se inúmeras
aventuras, inúmeros gestos heróicos e patrióticos
de portugueses, dignos do conhecimento público e de
transmissão às gerações vindouras. Numa
era de nacionalismos românticos, que foi o século XIX,
Portugal, através dos Portugueses soube sempre responder e
comportar-se à altura, às difíceis exigências
políticas e na defesa de um modo de vida que mais de 158 anos
depois, foi a que vingou.
Hoje
graças ao heroísmo e abnegação de dois
grandes portugueses, Ferreira do Amaral, Governador de Macau e
Coronel Mesquita, o Herói Macaense do Forte de Passaleão,
mais de meio milhão de chineses vivem livremente em Macau
“Da
Consolidação da Soberania Nacional no Oriente”. Quarenta
anos antes da Conferência de Berlim, acontecimento histórico
onde as potências imperiais estabeleceram e fixaram as suas
fronteiras tanto no ultramar, como nas colónias, Portugal
antecipou-se geopoliticamente na definição das
fronteiras fixas dos seus territórios ultramarinos na Ásia.
Macau,
como pequeno enclave banhado pelos Mares do Sul da China, começou
por ser um entreposto comercial, passando a Cidade Cristã
Portuguesa - Cidade do Santo Nome de Deus, até se tornar num
território ultramarino português.
Esta sequência
que veio a consolidar cada vez mais a presença portuguesa só
foi possível por uma questão, pela presença lusa
em Macau, interessar à geopolítica e geoestratégia
chinesas. Por isso mesmo, a Península de menos de seis
quilómetros quadrados, numa imensa China, tornou-se na oferta
do Imperador chinês à Coroa Portuguesa, também
por sinal de gratidão pelos grandes feitos e esforços
da Marinha Portuguesa no combate e expulsão dos piratas que
assolavam os mares da região. Nas entrelinhas desta oferta,
autoridades lusas teriam de se comprometer, fazer da Cidade um tampão
de segurança, que serviria para impedir que outros europeus ou
“bárbaros do sul” invadissem o Império do Meio,
pelos mares.
Em 1844, período histórico do
estabelecimento da “Pax Britânica”, da hegemonia inglesa no
mundo, a Cidade do Santo Nome de Deus, Macau, ao ter sobrevivido a
vários ataques holandeses nos séculos anteriores,
depois de merecer a divisa dada por D. João VI,“Não
há Outra Mais Leal”, as autoridades políticas e
militares ao serviço de Sua Majestade Fidelíssima Dona
Maria II, sentiram necessidade de reafirmar a soberania Nacional em
Macau.
Primeiro, devido à instabilidade regional causada
pelo período de entre Guerras do Ópio (1839-42 e
1856-60), com a proliferação de confrontos bélicos
na região, contávamos ao tempo já com a
conquista britânica aos chineses da ilha de Hong-Kong
(Victoria), ou chamada "cedência forçada" do
Tratado de Nanquim.
O
Império Britânico impôs ainda à China, um
segundo de muitos outros famosos "Tratados Desiguais", que
visou a permissão dos britânicos a estabelecerem-se em
Xangai, Ningpó, Xiamen e Fuzhou.
Em
1898, o sexto de sete tratados sino-britânicos, contemplou a
concessão por 99 anos dos Novos Territórios (península
de Kowloon) para estabelecimento militar e defesa da ilha de
Victoria.
Sendo a lusa Cidade Católica um outro enclave de
alto valor estratégico que permitiria o domínio
absoluto do Delta do Rio das Pérolas (rio que vem de Cantão),
seria também da maior atenção e interesse da
cobiça Vitoriana. De tais cobiças, Portugal veio a
sentir na pele, aquando do ultimato do Mapa Cor-de-Rosa.
Segundo,
porque ao registar-se o gradual aumento da ingerência britânica
nos assuntos internos de Macau, através de militares e outros
agentes britânicos que por lá aportavam e causavam
desacatos e movimentos subversivos, Portugal teve a necessidade de
tomar medidas drásticas para controlar a situação
e manter a influência geopolítica na região, o
que tornaria imperativo a reafirmação da soberania
Nacional em Macau e aos olhos das potências europeias.
PROVÍNCIA
ULTRAMARINA DE MACAU, TIMOR E SÓLOR.A 20 de Setembro de
1844, entrara em vigor o Decreto real, que viria a reformular a
administração local, então baseada na autoridade
do Leal Senado, a assembleia dos homens bons da Cidade e primeira
Câmara Municipal de Macau e da Ásia-Oriental,
consagrando a figura do Governador como principal órgão
político-administrativo. Ainda no século XIX, o
estatuto de Território Ultramarino deu lugar à
Província Ultramarina, tornada autónoma da jurisdição
do Estado Português da Índia, e contou com acrescidas
responsabilidades ao passar a incorporar a jurisdição
sobre Timor e Sólor.
MACAU
FACE À FEROZ CONCORRÊNCIA DA COLÓNIA BRITÂNICA.A
então colónia britânica de Hong-Kong, dotada de
portos de águas profundas, desde logo tornou-se no principal
pólo comercial do Império Britânico na região,
o que veio a suplantar a importância comercial do enclave português.
Medidas para aumento da competitividade mercantil tomadas pelas
autoridades ultramarinas, contaram com a alteração do
estatuto de Macau para porto franco, e na expulsão definitiva
dos agentes alfandegários ao serviço do Império
do Meio e dos respectivos responsáveis mandarins.
Estas
medidas foram decretadas em 1846 pelo recém-chegado
Governador, Almirante João Maria Ferreira do Amaral - que
antes serviu no Brasil contra os independentistas, definindo-se como
liberal política e ideologicamente, apoiante da Constituição
- decidiu empreender um novo plano urbanístico para Macau, que
veio a formatar a actual estrutura da cidade. O novo plano de obras
públicas consistiu na ligação estratégica
por estrada, da Cidade Cristã, a Sul,
ao istmo a Norte, que liga ao Continente chinês.
Todo
este processo de reafirmação de soberania nacional,
acabou por levantar certo incómodo por parte dos Mandarins, da
região de Cantão, que viram o seu poder e influência
diminuídos, despoletando assim alguns conflitos. Conta-se que
um caso que despoletou uma insurreição em Macau, foi a
profanação de sepulturas devido às obras
públicas em curso.
Mercenários chineses e outros
comerciantes, súbditos do mandarinato da Corte do Império
do Meio, resolveram sabotar a cidade e boicotar o comércio com
a Cidade Cristã. Face à insurreição, para
o estabelecimento da ordem e segurança públicas, o
Governador de Macau fez um ultimato às hordas para a imediata
normalização da vida comercial em Macau, que foi
conseguida apesar de a contra gosto.
ABNEGAÇÃO DO
CORAJOSO GOVERNADOR FERREIRA DO AMARAL
"...com
um charuto ao canto da boca, dispensando a mordaça, fez sinal
ao cirurgião para dar início à amputação,
em pouco tempo, já com o braço decepado na mão,
o então jovem oficial e fuzileiro naval João Maria
Ferreira do Amaral, atira-o ao ar e borda fora, gritando bem alto
“Viva Portugal” ..."
Todas
estas reformas político-administrativas e reafirmação
da soberania em Macau, viriam a custar a vida ao corajoso, heróico
e mui patriótico Governador, em que um dia no Brasil, em
batalha naval contra os independentistas, foi atingido no braço
esquerdo por uma bala de canhão disparada de terra, o que
levou a ser in loco amputado do braço. O jovem
fuzileiro naval da Coroa Portuguesa, com um charuto ao canto da boca,
dispensando a mordaça, fez sinal ao cirurgião para dar
início à amputação, em pouco tempo, já
com o braço decepado na mão, o então jovem
oficial e fuzileiro naval João Maria Ferreira do Amaral,
atira-o ao ar e borda fora, gritando bem alto “Viva Portugal”.
A
22 de Agosto de 1849, o Governador de Macau é assassinado por
meia dúzia de chineses oriundos da região chinesa de
Zhongshan, a soldo dos mandarins descontentes e também,
alegadamente do Vice-Rei de Cantão, é primeiro cercado
numa emboscada na zona norte da península, Ferreira do Amaral,
montado a cavalo tenta ainda resistir, mas acaba por sucumbir aos
ataques, em que foi decapitado e amputado do único braço
que lhe restava, o direito.
A
estátua de bronze do Governador de Macau, que acabou de ser
trazida para Portugal, poderá ser vista na alameda do jardim
do Bairro de Encarnação em Lisboa.
A
CONQUISTA DO FORTE DE PASSALEÃO – Episódios
do heroísmo português
Do
início das hostilidades da China Imperial contra a Cidade
portuguesa, resultaram, primeiro, bombardeamentos de artilharia
chinesa colocada nos fortes próximos de Macau e depois a
reacção do contingente militar luso para a defesa da
Cidade Cristã.
Segundo informações militares
da época, a guarnição do forte chinês mais
próximo contava com mais de 500 elementos, e noutros colocados
em posições mais elevadas e mais distantes,
totalizavam mais de 1500 homens.
Foi neste
ambiente de profunda crise, que emerge a heróica e corajosa
figura do Segundo-Tenente, Vicente Nicolau de Mesquita, um militar
macaense, de ascendência portuguesa, fiel à sua Bandeira
e ao assistir ao assassinato do Governador - símbolo vivo da
autoridade da Pátria -, propõe às autoridades
governamentais em substituição do Governador, o
Conselho do Governo, para um ataque à posição
militar chinesa mais crítica para Macau, o Forte de Passaleão
- nome traduzido do chinês "Pak-Shan-Lan" ou
"Baishaling" – situado em Zhuhai, na região
chinesa imediata ao enclave português.
O
Herói do Passaleão, ou Herói Macaense,
posteriormente conhecido como Coronel Mesquita desafiou o contingente
militar português de Macau e clamou “Quem quiser morrer que
me siga!", cerca de 20 ousados soldados da Pátria ouvindo
o apelo, juntaram-se-lhe, com algumas peças de artilharia,
marcharam e dispararam contra o Forte de Passaleão guarnecido
por mais de 500 militares imperiais.Pelo único tiro de canhão
ter acertado em cheio a posição chinesa, as forças
sínicas entraram em debanda, desorganizando-se, o que resultou
da conquista lusa sobre os atacantes da paz macaense.
Posteriormente,
face a esta gesta heróica nacional, as autoridades imperiais
chinesas fizeram um pedido de tréguas, comprometendo-se em não
mais atacar a Cidade de Santo Nome de Deus de Macau, sob a
contrapartida das forças reais lusas de se retirarem até
ao istmo e aí fixarem a fronteira definitiva do enclave.
No
exacto local do istmo que faz fronteira com a China, é em 1870
erguido o arco das Portas do Cerco, onde se assinala a data da morte
do Governador e a da heróica conquista do Herói
Macaense, Coronel Vicente Nicolau de Mesquita, a 25 de Agosto de
1849, sob a divisa da Marinha Portuguesa, “Honrai a Pátria,
que a Pátria vos Contempla”, e que hoje é Património
Mundial da UNESCO.
Foi devido a este feito, que se
fixaram as fronteiras físicas de Macau, permitindo após
a oferta de Macau à China por Portugal, a 20 de Dezembro de
1999, que toda a população chinesa e estrangeira com
direito de residência e permanência na novíssima
Região Administrativa Especial de Macau, pudessem continuar a
gozar de uma sociedade e economia livres, regido pelos princípios
de "Um País, Dois Sistemas", Macau ser governada
pelas suas gentes, pela igualdade de oportunidades, manutenção
do modus vivendi português, com os seus Direitos, Garantias e
Liberdades consagrados na Lei Básica - a "mini"
Constituição de Macau -, com instituições
que defendem o Estado de Direito, baseadas no princípio da
legalidade, da separação dos poderes, da autoridade
político-executiva, legislativa e judicial aliada ao forte
dinamismo da Sociedade Civil.
A
estátua do Herói Macaense do Forte de Passaleão,
Coronel Vicente Nicolau de Mesquita encontra-se à guarda dos
Comandos de Portugal no Porto.
|