Hipnoses
por Pe. Nuno Serras Pereira
«Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal» (Is
5, 20)
Já lá vão uns trinta anos quando comprei uma
série de livros para estudar o hipnotismo. Ainda não os
tinha lido todos quando um dos meus irmãos mais novos,
vendo-me concentrado no assunto, me pediu para o hipnotizar.
Disse-lhe que tivesse juízo. Ele teimou, eu opus-me; insistiu,
resisti; tornou a instar, rendi-me, convicto de que nada alcançaria
mas que ao menos deixaria de me importunar. Incrédulo,
mandei-o entrelaçar os dedos das mãos, encostando-os à
sua testa com as palmas viradas para mim. Era o teste da sugestão
da "colagem" para saber da sua susceptibilidade ou não
de ser hipnotizado à primeira em estado médio ou
profundo. Terminados os procedimentos concluí afirmando-lhe
que não conseguiria descolar os dedos nem tão pouco
arrancá-los da fronte. Fez um ademane indicativo de tentativa,
trejeitou esforçadamente e murmurou um surpreendido não
consigo. Cuidando que mangava comigo, levantei-me e disse-lhe para ir
chalacear com outro. Já ia a meio das escadas que desciam do
quarto quando o oiço numa aflição soluçada
repetindo num choro: não consigo, não consigo. Num
sobressalto reentrei rapidamente no aposento, aparentei serenidade,
tranquilizei-o e retirei-lhe a sugestão. Escusado será
dizer que depois de ter verificado a capacidade "tive" de
me render ao seu querer hipnotizando-o mesmo.
Chegados de férias a Lisboa sabendo os amigos da novidade,
logo imploraram uma demonstração e vários, mais
ou menos cépticos, se ofereceram espontaneamente para
experimentarem se seriam ou não hipnotizáveis. Fui
então verificando que as susceptibilidades variavam e que
alguns só alcançavam o estado superficial embora em
maior número chegassem ao médio e ao profundo, estados
estes mais propícios ao gáudio das assembleias sempre
ávidas de excentricidades. Por exemplo, era possível
pôr uma pessoa de cócoras, agitando os braços
como se fossem asas, percorrendo a sala em catadupas de cacarejos;
ou, num dia de grande frio, sugestionar a pessoa convencendo-a que
está num deserto abrasador, de modo que acalorada e afogueada
vá tirando todos os agasalhos; ou dar-lhe dentes de alho a
comer dizendo-lhe que são amêndoas açucaradas, e
é vê-la deliciada saboreando a aspereza do legume; ou
então o inverso, de jeito que a pessoa repugna o mais delicado
manjar, uma lagosta, por exemplo, vendo, sentindo, cheirando um
pedaço de estrume nauseabundo; também era possível
dar sugestões pós-hipnóticas que desapareceriam
a uma hora marcada ou a uma palavra dita, verbi gratia (v.
g.), estar tranquilo e apurar a memória para um exame, ou
provocar que a cada passa que se desse num cigarro ela amargaria em
crescendo até se tornar insuportável, ou ver alguém
que não estava presente e procurar apresentá-lo aos
circunstantes. Enfim, um sem número de peripécias ou de
auxílios, mas que necessitavam de critério para que as
sugestões não fossem perigosas vindo a provocar
traumatismos, v. g., dizer que alguém querido morreu, ou que
se está rodeado de serpentes venenosas, etc.
Descobri também que apesar de alguns livros afirmarem que só
se poderia hipnotizar quem quisesse sê-lo havia alguns casos em
que a pessoa desafiando-me garantindo que não o conseguiria
com ela, rapidamente era sugestionável. Vim também a
perceber que um hipnotizador experimentado poderia, sem pedir
consentimento, hipnotizar outra pessoa, ou uma assembleia, sem que
ela disso se apercebesse. E como se pode dar a sugestão de
esquecer tudo o que se passou durante o hipnotismo para reforçar
a amnésia pode o sujeito nunca vir a tomar consciência
de que foi magnetizado.
Tenho a impressão de que os livros que na altura li sobre este
tema eram concordes na asserção de que a consciência
moral não podia ser hipnotizada e que, por isso, alguém
que estivesse sob esse efeito recusar-se-ia a fazer algo contrário
às suas convicções morais, podendo mesmo, em
caso de insistência por parte do hipnotizador, despertar por si
mesma desse estado em que fora induzida. Não sei ao certo se
isso é verdade porque nunca me atrevi a sugestionar alguém
de modo a induzir qualquer coisa que soubesse ser contrária
ao, como então se dizia, super ego. No entanto, não foi
necessário reflectir muito para concluir que mesmo que a
pessoa se negasse a fazer o que contrariasse a sua consciência
moral, podia facilmente ser iludida de modo a realizar o que nunca
faria no seu estado normal.
Suponhamos, por exemplo, que um hipnotizador sem escrúpulos
queria uma sessão de striptease, isto é, de
desnudamento. Bastar-lhe-ia para o efeito dizer à hipnotizada
que estava na casa de banho, que fechasse a porta à chave e se
despisse para tomar banho. O que se passaria seria que a senhora com
o maior dos à vontades despojar-se-ia diante dos presentes.
Imagine, ainda, cúmulo da perversão, que o hipnotizador
se faria passar pelo marido da mesma. Como se vê é
possível especular sobre uma infinidade de situações
em que a pessoa hipnotizada seria induzida em erro agindo em
desacordo com a sua consciência, julgando estar a segui-la.
Se é possível fazer uma pessoa beber um copo de
vomitado julgando que é uma cerveja, também será
possível fazê-la explodir assassinando uma multidão
de inocentes cuidando que está praticando um acto de justiça
e misericórdia merecedora das bem-aventuranças eternas.
Este suicídio homicida a que errada e perversamente se dá
o nome de martírio (o mártir não se mata para
matar, consente sim que o matem, no sentido em que oferece a vida,
para que os outros, inclusive os seus carrascos, possam encontrar e
participar da vida verdadeira e plena) tem vindo num crescendo de
aluvião recordando-nos de que grupos, povos e nações
podem de algum modo ser mesmerizados. Basta recordar a Rússia
estalinista, a Alemanha nazi, a China maoísta, o Camboja
vermelho de Pol Pot ou o mais recente genocídio no Ruanda e o
que vai decorrendo no Darfour. É verdade que nas situações
ora referidas a sugestão foi habitualmente acompanhada pela
coação física, mas importa não esquecer
que isso não explica como é que os coactores se
tornaram tais e em tamanha quantidade.
Esta prontidão comum de que usamos para apontar o dedo a
regimes totalitários distrai-nos com facilidade das nossas
próprias cegueira ou ilusões. Há a possibilidade
de enfeitiçamento mais subtis, mais insidiosos,
condicionamentos e propagandas que não aparecem como tais, merchandising (ou melhor dito, mercadização)
particularmente sofisticados, tão sedutores, tão
intensos, tão constantes, tão envolventes,
sugestionando poderosamente, modelando fortemente as mentalidades,
hipnotizando as gentes.
Se é possível, como vimos, fazer com que o odioso surja
como apetecível, que o belo apareça como monstruoso,
que o bem seja percepcionado como péssimo, também se dá
o inverso, mostrando-se o péssimo como excelente, o disforme
como esplendoroso, a verdade como mentira, o certo e desejável
como errado e repugnante. Já as sabedorias antigas e
primordiais alertavam para o anjo das trevas que se transfigurava em
anjo da luz para nos perder. De facto, o Maligno que "é
mentiroso e pai da mentira" (Jo 8, 44) é um enorme
ilusionista e o grande hipnotizador que ultimamente está por
detrás de todas estas manigâncias. Pois se até um
bebé absolutamente inocente e totalmente indefeso, a mais
luminosa e deslumbrante imagem de Deus amor, pode ser visto como uma
ameaça e um inimigo a abater violentamente, de tal modo que se
institucionalize a sua matança directa e propositada, em
virtude de uma arbitrariedade prometeica, em que todos, de algum
modo, são forçados a participar (nem que mais não
seja pelos seus impostos), vede bem a que extremos de radicalismo
tirânico e totalitário a hipnose geral pode chegar!
Felizmente Deus, o Omnipotente e Omnisciente, não é
hipnotizável, e a Razão criadora que Ele é,
fez-Se homem em Jesus Cristo para nos fazer participantes da Sua
Divindade, da Sua Razão Amorável ou do Seu Amor
Razoável. Por isso a Presença dEle em nós na
comunhão dos Seus é a nossa força e o nosso
critério que nos imuniza ou/e nos cura das recaídas e
nos transforma em despertadores universais para que todos conheçam
a Verdade que nos libertará: "conhecereis a Verdade e a
Verdade vos tornará livres" (Jo 8, 32).
Foi ao reencontrar esta Verdade, ao reconverter-me, depois de um
período muitíssimo atribulado, que me desinteressei
destas mesmerizações e desde então até
hoje nunca mais hipnotizei ninguém, já lá vão
uns trinta anos.
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