Hong Kong: Dez anos à procura de uma nova identidade
por Pedro Dá Mesquita
Quando soarem as badaladas da meia noite de amanhã (sábado), cumprem-se dez anos dessa nova realidade política chamada Região Administrativa Especial de Hong Kong. Passada uma década, a antiga jóia asiática da Coroa Britânica continua, muito por teimosia e apego da sua população a valores ainda estranhos para a esmagadora maioria dos cidadãos da China continental, a viver uma transição política conturbada, a ser olhada de soslaio por Pequim e a enfrentar desafios, quer de saúde pública, quer de governantes incompetentes, numa fase em que se vê cercada de réplicas no vasto delta do rio das Pérolas, que tentam imitar o seu sucesso. Tudo isto para dizer que os dez anos passados foram algo difíceis, porque Hong Kong continua a sentir-se desconfortável por ter perdido, por um lado, um estatuto económico junto de Pequim e, por outro, por ter visto, sistematicamente recusado pelo poder central, um estatuto politico mais aberto.
ESTE domingo, os cidadãos de Hong Kong vão comemorar o quê?
Vejamos por partes. Num programa meticulosamente bem estudado - com forte componente lúdica e comemorativa – o Executivo de Hong Kong vai ter a rara oportunidade de ver o topo da hierarquia chinesa a visitar a cidade (com o presidente Hu Jintao a liderar o grupo), momento habitualmente aproveitado para colher doses industriais de apoio político, que no momento actual é ainda mais necessário, porque Donald Tsang toma posse, assim como o terceiro elenco governativo desde Julho de 1997, numa altura em que a sua chama começa a apagar-se.
Para as forças pró-Pequim, as comemorações irão permitir uma exposição dos seus principais elementos, que não vão perder o ensejo de igualmente lançar os slogans do costume.
Para as forças do campo democrático, mais críticas a Pequim, a data de 1 de Julho de 2007 soa estranhamente a uma reprise do mesmo dia de 1997, num bater constante numa parede (neste caso deveria ser muralha), que dura há dez anos, sem que haja uma inflexão significativa do que tem sido a posição intransigente dos dirigentes chineses sobre a velocidade das reformas em Hong Kong.
Por último, ficam os residentes, que ultrapassaram a Síndrome Respiratória Aguda. Livraram-se a tempo do primeiro Chefe de Executivo, assistem alegres à subida da bolsa e à chegada de numerosos turistas do continente, num turbilhão de acontecimentos que, na prática, não alteraram o seu modo de vida, embora sintam que estão a perder algo de intangível, como foi o caso da destruição da torre do relógio no cais de Central, no início deste ano, ícone de uma cidade que sempre correu atrás do tempo.
Um outro olhar
O que mudou verdadeiramente foi a visão que os cidadãos de Hong Kong possuem da sua cidade. Antes de 1997 gozavam – e por vezes abusavam – do estatuto que lhe foi conferido pela liderança chinesa desde sempre, mas acentuada desde que os comunistas chegaram ao poder, em 1949.
Dos muitos troféus de que podia orgulhar-se, Hong Kong mantém hoje apenas três: o de cidade economicamente mais liberalizada do mundo (pelo 13º ano consecutivo); de ter o terminal de contentores mais animado do planeta; e de possuir o posto fronteiriço (Lo Wu) mais congestionado da Terra.
A par destas glórias, Hong Kong viu-se também no topo das economias, registando a maior disparidade entre ricos e pobres, de acordo com as Nações Unidas, numa Região onde o rendimento «per capita» ombreia e supera o de muitos países desenvolvidos.
Se houve muitas mudanças naturais resultantes da transferência de soberania que foram genericamente aceites pelos quase sete milhões de habitantes de Hong Kong, pelo menos uma continua ainda atravessada na garganta: o de não ser já o símbolo e farol económico capitalista e internacional da República Popular da China.
Hong Kong está cercada de clones, cidades-satélites que progressivamente lhe tentam roubar o protagonismo e a importância de antes, quando a «Union Jack» estava hasteada nos edifícios públicos.
Os estrategas a norte desejam que a cidade portuária por excelência, do sul da China, se transforme num centro de fornecimento de serviços e de tecnologias de informação.
O nó górdio que economicamente foi sendo implantado perto de Hong Kong – levando a uma acelerada deslocalização do ainda importante parque industrial da vizinha Região para o continente chinês – foi uma das grandes condicionantes que marcaram a primeira década da RAEHK, sobretudo dada a rapidez com que as cidades vizinhas chinesas cresciam e a relativa lentidão com que Hong Kong reagia aos novos ventos que sopravam fortes de Pequim.
O aspecto mais relevante, contudo, não foram as mudanças entretanto operadas no tecido económico e nas novas estratégias de desenvolvimento da Região. O que verdadeiramente se alterou foi a noção de que as condições que levaram, durante todo o século XX, a que Hong Kong se elevasse a um patamar muito elevado para as relações da China com o exterior, se modificaram radicalmente.
O facto de ter sido uma colónia britânica encrustada numa China comunista, que lhe potenciou o crescimento durante quase meio século, passou a ficar esbatido pelo facto de Hong Kong estar cercado por uma China aberta ao capitalismo.
Hong Kong deixou de ser a única grande porta de Pequim para o mundo. Mais: Não só deixou de ser a única, como perdeu pontos, face a outras cidades do continente. Mas se esta despromoção até pode ser encarada como natural, a verdade é que para os cidadãos de Hong Kong e os agentes económicos que estão muito bem representados nos órgãos de decisão política da Região, esta nova realidade ainda não foi bem aceite nem tão pouco assimilada.
O complexo de superioridade que caracteriza a postura de Hong Kong face ao continente chinês (um comportamento que Macau conhece bem), está na base de alguns dos problemas que a RAEHK tem enfrentado desde que regressou à soberania chinesa.
Este desfasamento entre aquilo que é a atitude das gentes de Hong Kong e aquilo que a China delas espera provocou uma série de embaraços que acabaram por penalizar a antiga colónia britânica. O que os primeiros dez anos da experiência de Hong Kong como parte integrante da China nos revelam é que existe, simultaneamente, um forte sentimento pertença a uma nação com a história e o peso da RPC, e também, uma firme vontade em manter um estatuto que entra em contradição com o passo que foi dado há dez anos, quando soaram as tais badaladas finais do dia 30 de Junho de 1997.
A Região Administrativa Especial de Hong Kong vive ainda em transição. Já não se trata do processo de transferência para a esfera chinesa, mas de um outro percurso, quase no sentido inverso, que é o de preparar a Região para viver, com os mesmos índices de sucesso económico, no seio da China. Antes, Hong Kong preparou-se para viver com a China, mas virado para o exterior; agora, estão a ser dados passos para que a RAEHK continue a depender da China, e virado cada vez mais para o continente.
Caminho autónomo
Para continuar na via do sucesso, Hong Kong precisa de manter a sua diferença, nomeadamente, prosseguindo o seu caminho quanto ao desenvolvimento do seu próprio sistema político.
Neste aspecto, o balanço é necessariamente negativo. A Lei Básica, a mini-constituição que rege e define o sistema politico de Hong Kong, define que a escolha do Chefe de Executivo e os membros do Conselho Legislativo (Legco) irá deixar progressivamente, de ser feita nos actuais moldes (criação de Comissões Eleitorais totalmente controladas por Pequim), passando a ser feitas mediante eleições por sufrágio directo.
A decisão do Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular da RPC, em 2004, de não aceitar a realização de eleições por sufrágio directo para o cargo de Chefe de Executivo em 2007, levou a que se acentuassem as clivagens políticas entre Hong Kong e a liderança chinesa.
Parte da nega de Pequim às pretensões de Hong Kong – uma sondagem feita já neste ano de 2007 revelou que 70 por cento dos inquiridos desejam o sufrágio directo como modelo para a escolha de responsáveis políticos – pode ser explicada pela forte reacção dos cidadãos de Hong Kong face à proposta do Executivo em aprovar uma lei anti-subversão, no verão de 2003. Centenas de milhares de pessoas invadiram as ruas, no dia 1 de Julho desse ano, exigindo ao governo que suspendesse o processo.
Pequim revelou extrema preocupação e ficou ainda com mais motivos quanto às cautelas em permitir o desenvolvimento do sistema político.
Tal como refere o analista político de Hong Kong, Sonny Lo, «o desafio principal que se coloca à liderança chinesa é saber como Pequim vai gerir o crescimento da cultura política da população de Hong Kong nos próximos anos, num caminho que também está a ser percorrido, mais lentamente, por Macau . É evidente, no ponto a que se chegou, que estes aspectos vão ter implicações importantes no processo de reformas políticas no interior da República Popular da China na próxima década», sublinhou.
Desde que regressou à soberania chinesa, em Hong Kong «houve um retrocesso no campo das liberdades, especialmente de expressão», relembra por seu turno Law Yuk, do grupo Hong Kong Human Rigths Monitor, citando o caso denunciado pela Associação de Jornalistas de HK, na qual 30 por cento dos seus 506 associados admitiram que praticavam auto-censura desde 1997. Isso não implica que na Região Administrativa Especial se realizem, ao longo do ano, mais de mil manifestações, e outros movimentos cívicos, a esmagadora maioria contra o Executivo, ou protestando contra medidas consideradas impopulares.
O que se agravou na última década foi o fosso entre as expectativas da população de Hong Kong quando à capacidade do Governo (forçando mesmo à saída de Tung Chee Wah como primeiro Chefe do Executivo da RAEHK), sentindo que é através de uma participação maior no processo de escolha (sufrágio directo) que se chega a uma boa e transparente governação, e o que são os temores da China em perder o controlo da Região, caso venha a implementar tal abertura política.
O homem de Pequim
No mesmo dia em que a RAEHK comemora o seu décimo aniversário, toma posse a terceira equipa, desde 1997. Chefe do Executivo, Donald Tsang, vai liderar um Governo que, pela primeira vez desde 1997, abre as portas a uma figura local conotada com a linha de Pequim.
Tsang Tak-sing, um dos jovens radicais que mais se destacaram nos distúrbios ocorridos em Hong Kong no verão de 1967, animados pelas acções dos Guardas Vermelhos da China continental e pela vaga de terror lançada durante a Revolução Cultural, vai ser o secretário para o Interior no Executivo de Hong Kong.
O novo governante foi preso pelas autoridades britânicas de Hong Kong por distribuir propaganda comunista e por incitar à violência, e a sua entrada no Executivo de Donald Tsang confirma a crescente influência da China no governo da Região.
Tsang Tak-sing manteve sempre uma linha de fidelidade a Pequim, depois de ter sido libertado, assumindo primeiramente funções de jornalista e, mais tarde de editor do principal jornal-pró Pequim, em Hong Kong. |