Iberismo – uma aproximação
por Mário Casa-Nova Martins
"Todo
o povo que se esquece da terra em que nasceu e contempla
indiferentemente as cores estrangeiras que a proclamam vencida, é
um povo morto, uma nação cujo espírito passou
enquanto o corpo se dissolve."
Rebello
da Silva
A chamada Península Ibérica é
constituída por diferentes nações, cada uma com
a sua identidade geográfica, económica, cultural e
linguística bem definida.
Em 5 de Outubro de 1143, data da Conferência de
Zamora, o mapa político da Península Ibérica era
formado pelos Reinos da Galiza, de Portugal, de Leão e
Castela, de Aragão e Navarra, dos Condados Catalães e
do Império Almorávida .
Principalmente, como resultado de políticas
matrimoniais e sucessões dinásticas vamos encontrar a
Península Ibérica, em 1479, constituída pelo
Reino de Navarra, a norte, pelo Reino de Portugal, a oeste, pelo
Reino de Granada, a sul, e pela entidade política intitulada
Espanha, que o era fruto do casamento de Isabel de Castela com
Fernando de Aragão, e formada através da união
dos Reinos de Leão e Castela com os Reinos de Aragão e
Catalunha .
Posteriormente, terão lugar alterações
político-geográficas de vulto, umas com carácter
definitivo, e outras de carácter temporário. Nas
primeiras, estão a conquista de Granada, em 2 de Janeiro de
1492 e a absorção de Navarra em 1512 , e, nas
segundas, a ocupação de Portugal por um período
de sessenta anos.
Pequena alteração de pormenor geográfico,
apenas a nível fronteiriço, irá sofrer a
Península Ibérica até aos finais do século
XIX.
Hoje a Grande Espanha inclui antigas nações
como a Galiza, o País Basco e a Catalunha, e o território
de Olivença. Por todos os meios diplomáticos tem
tentado reaver Gibraltar, uma península de 5,8 quilómetros
quadrados, que se tornou Inglesa em 1713, pelo Tratado de Utreque .
Luta contra movimentos independentistas Galegos, Bascos
e Catalães. Recusa entregar Olivença a Portugal, após
a ter ocupado em 20 de Maio de 1801, na chamada Guerra das
Laranjeiras, e que, de acordo com o artigo 105º do Acto
Final do Congresso de Viena de 9 de Junho de 1815 , é
obrigada a restituir.
Esta atitude de Madrid, de violação dos
Tratados internacionais, a par da recusa de resolução
dos problemas dos povos galego, basco e catalão, é,
ainda hoje, por um lado, a prova acabada da tentativa centenar da
anexação de Portugal, velho de oitocentos e cinquenta
anos, como o fez no período de 1580 a 1640, e, por outro, da
política centrípeta de Castela em relação
aos outros povos peninsulares.
A geografia da Península Ibérica
caracteriza-se pelos planaltos centrais, fendida a ocidente, e
rodeada numa grande parte do seu perímetro por planícies
ou zonas litorais mais ou menos individualizadas . A oeste está
a reunião que mais se distingue em relação aos
planaltos e que mais está em ligação ao oceano.
É aqui, o oeste, que, pouco a pouco, se vai
formando a consciência de que o território e a
actividade económica a que deu lugar constituem um património
comum, desde logo aparecendo, e muito mais nas épocas de maior
agitação, o instinto de segurança colectiva .
Para Jaime Cortesão, o contacto cruciforme (que define como a ligação entre diferentes elementos
geográficos, de norte para sul e de leste para oeste, em
contacto com os planaltos interiores) e a convergência
atlântica (que é a união desse conjunto de
caracteres da constituição geográfica)
relacionam a Geografia e a Autonomia Política de Portugal, e
justificam a sua existência autónoma e independente.
Morfologicamente, o Norte é de origem granítica
e as águas correm mais à superfície; ao
contrário no Sul, os terrenos calcários são mais
permeáveis. Também, o tipo de relevo é muito
mais acentuado a Norte e com uma maior pluviosidade o que faz com que
a densidade populacional seja muito superior, se bem que dispersa; ao
inverso, no Sul, com uma média pluviométrica baixa, com
ciclos de seca, a população está mais
concentrada, tudo isto aliado ao fraco ou inexistente relevo,
Mas, em todo este diferenciado conjunto, sempre a
existência de condições boas de fixação
de população no litoral e uma excelente ligação
ao mar, com os rios a permitirem também a ligação
para o interior, e o desenvolvimento de importantes portos fluviais,
todos eles ao longo dos principais rios a desaguarem a oeste ou a
sul, no oceano Atlântico.
É em todo este conjunto, que se diferencia do
resto da Península Ibérica, que reside a justificação
de uma entidade política autónoma a oeste, em profunda
ligação com o Atlântico.
Nas palavras de Jaime Cortesão, assim se formaria
um Estado abrangendo toda a zona Ocidental da Península, pois
nenhum factor geográfico essencial justifica a separação
entre Portugal e a Galiza . Importa referir que a norte do rio
Minho a região da Galiza não difere, na morfologia, da
parte sul deste rio.
A língua é o laço mais forte que
une os membros de um grupo; é simultaneamente o símbolo
e a salvaguarda da sua comunidade . De uma maneira global, a
língua falada é, na sua essência, mera
modificação da que usavam os luso-romanos .
Nos primórdios da nacionalidade, e segundo
Menendez Pidal , o galego domina até uma linha um pouco a
sul do rio Mondego, e daí para sul fala-se um dialecto
moçarabe, profundamente análogo ao galego, um e outro
diferente do dialecto falado nos planaltos, reafirmando que entre os
dialectos do norte e do sul havia uma analogia fundamental .
Como foi dito, não existe uma diferenciação
geográfica entre o norte e o sul do rio Minho. A questão
linguística vai distinguir as duas nações,
Galiza e Portugal a partir do século XIII.
Sendo considerada a Roma do Ocidente, com o Túmulo
do Apóstolo Sant’Iago, a Galiza irá ao longo do tempo
criando a sua própria identidade, nunca deixando, porém,
de manter um relacionamento privilegiado com a sua continuidade
geográfica, respeitando-se mutuamente, ao ponto de hoje se
poder falar de uma convergência, dentro da mais completa
autonomia.
Com este conjunto de dados compreende-se a separação
e a diferença de Portugal dos outros Estados que se foram
constituindo na Península Ibérica, mas que com a força
centrípeta de Castela foram sendo absorvidos por esta.
Senhora
do Almortão,
Minha
linda raiana,
Virai
costas a Castela
Não
quereis ser castelhana
Popular
Podemos ler no verbete sobre iberismo do
Dicionário de História de Portugal , pela escrita
de Alberto Martins de Carvalho, que esta expressão perdeu o
conteúdo etnográfico e antropológico para
significar apenas a tendência a integrar Portugal num todo
peninsular. Como consequência fundamental, a Espanha
obteria a coincidência da geopolítica e da
geo-estratégica na Península.
O iberismo é um problema político
que apenas tem interessado os políticos e os intelectuais,
porque o povo há muito que aceita, como o melhor para si, a
separação total dos dois estados. Portanto, será
apenas no campo intelectual que este debate de ideias decorre e deve
ser analisado.
Seguindo este raciocínio, vemos que do lado
espanhol raros são aqueles que aceitam esta divisão,
escrevendo, quem escreve, o ilógico de tal situação
e conduzindo, quem governa, os seus actos políticos no sentido
da união.
E, como síntese global, dir-se-á que para
a Espanha o iberismo consiste na incorporação
de Portugal e terminar a rebeldia, a palavra sempre utilizada.
Para Portugal, tem como objectivo a aliança, a colaboração,
a federação ou até a integração
.
O projecto de unidade peninsular tomou diferentes
formas, consoante as épocas e as modas políticas. Desde
a mudança de capital para Lisboa e a existência de um só
monarca, à federação de Estados independentes,
muitas foram as modalidades estudadas.
Mas, apenas de 1580 a 1640 tal unidade aconteceu,
tendo-a o Portugal político aceite, isto é, o clero e a
nobreza, com a oposição do povo, tal como acontecera em
1383, na altura contra D. João de Castela.
Filipe II de Espanha, nas Cortes de Tomar, jurou guardar
e conservar todos os foros, privilégios, usos e liberdades que
no seu novo reino tinha por concessão dos seus antecessores . Porém, ao fim de sessenta anos a política de
Filipe II e seus sucessores foi no sentido da violação
de tais juras e a progressiva absorção de Portugal pela
Espanha.
Contudo, era tão artificial a incorporação
deste Reino de Portugal na Coroa de Espanha, que a sua separação,
imposta pela realidade do factor étnico, por tudo o que há
de vivo e de eficaz no jogo da história humana, não se
teria feito esperar, com Olivares ou sem ele .
Não existe a menor dúvida em afirmar que,
como fenómeno cíclico na nossa história, e com
implicações internacionais, o iberismo surge em
épocas de declínio e de desorientação .
As primeiras manifestações do iberismo ocorrem no reinado de D. Fernando, levando à crise de 1383 a
1385, e em que a tríade D. João, o Mestre de Avis, D.
Nuno Álvares Pereira, o Condestável e João das
Regras, o Jurista, sempre com o apoio popular, incarnam a vontade da
Nação no impulso da defesa da independência,
funcionando Aljubarrota como o símbolo dessa vontade de ser
livre, como, mais tarde, será Alcácer-Quibir o
crepúsculo dessa liberdade.
No reinado de D. Manuel I, a sua corte, com um
comportamento cuja moda era o estrangeirismo e o espanholismo, como
prova de superioridade intelectual e social, sentia, actuava e
decidia em termos peninsulares e não portugueses.
Com D. João III, principalmente devido à
política castelhana da Rainha D. Catarina de Áustria,
fazem-se projectos de união ibérica pela política
dos casamentos que veio a dar os seus frutos, após a morte do
Cardeal-Rei.
Em 1580, Febo Moniz não foi o génio
político que tudo arrisca. No fundo foi um homem do seu tempo,
tempo de fraca política, de corrupção, de temor
reverencial perante ideias de terceiros, a impressão que no
carácter português causam as verdades lançadas
por outros, e a crença, cega e acrítica, nos mitos
apregoados além fronteiras .
D. António, Prior do Crato, que embora tendo
vindo a morrer num exílio doloroso, pobre, rodeado de enganos
e desgostos , antes de Alcântara tinha sido um acomodado,
mesmo um colaborador de Castela, a quem tinha feito um preço
que não foi satisfeito.
Com a Restauração não acabam as
pretensões unionistas de Espanha. Depois de casamentos reais
fora da Península Ibérica, com D. José I
regressa essa política, ao casar com D. Mariana Vitória,
irmã de Carlos III, cujo Conde de Floridablanca, seu ministro,
defende que Portugal deve abandonar a aliança britânica,
enquanto o Rei espanhol afirma que cumpre aplicar a Portugal um
sistema de união e amizade.
Também, D. João VI continua essa política
e vai casar com a irmã mais velha de Carlos IV, D. Carlota
Joaquina. Triste memória a daquelas épocas!
Durante o período napoleónico, com a
Família Real no Brasil, celebra-se em 27 de Outubro de 1807 o
Tratado de Fontainebleau, entre a França e a Espanha, que
determinava o desmantelamento de Portugal, da seguinte forma:
- As províncias da Beira, Trás-os-Montes e
da Estremadura ficariam em refém, para se lhes dar, mais
tarde, destino conveniente; as regiões entre os rios Douro e
Minho constituiriam o reino da Lusitânia Setentrional, que
seria oferecido ao rei da Etrúria; o Alentejo e o Algarve
constituiriam um Principado, a oferecer ao então
primeiro-ministro de Espanha, Manuel Godoy, a quem a história
chama Príncipe da Paz (como por vezes a história
é irónica...).
- A França e a Espanha partilhariam entre si os
domínios ultramarinos de Portugal .
Findo o sonho de Napoleão, entra-se no Primeiro
Liberalismo. Neste período, Manuel Fernandes Tomás é
o exemplo do patriotismo, enquanto Silvestre Pinheiro Ferreira, ao
contrário, aceitava o princípio de uma aliança
ibérica, através de um arranjo defensivo, pensando
mesmo em confiar à Espanha a defesa de Portugal .
Ao mesmo tempo, em Espanha os Liberais elaboram um plano
de partilha de Portugal, em Lusitânia Citerior e Lusitânia
Ulterior, e, através de José Maria Pando, tentam criar
situações de instabilidade política, propícias
à união.
Posterior a Évora Monte, dois lustres do Segundo
Liberalismo, e de tudo o que de negativo nele se passou, o Duque de
Saldanha e António Bernardo da Costa Cabral, defendem posições iberistas, ao advogarem nos seus governos políticas de
dependência em relação ao poderoso vizinho.
Almeida Garrett é o porta-estandarte do patriotismo, e lança
um alerta vigorosíssimo na sua obra Portugal na Balança
da Europa.
Por esta altura, 1855, é fundada em Madrid, a
Liga Hispano-Lusitana, que afirmava ser uma associação
para disseminar o pensamento da união ibérica.
Este conjunto de factos políticos, como uma
indisfarçável ligação entre si, levam D.
Pedro V a temer pelo futuro de Portugal.
O processo e a posterior deposição de
Isabel II em 1868, vem suscitar novos movimentos com diferentes
métodos de aplicação. Isabel II, filha de
Fernando VII, por causa da qual a lei sálica fora abolida, não
tinha sido aceite por todas as correntes políticas espanholas,
originando uma guerra civil.
Os iberistas espanhóis traçam uma
estratégia que passa pelo casamento do monarca português.
Se D. Pedro V casasse com a filha primogénita de Isabel II,
além de reunir as duas coroas e reintegrar a província
rebelde sustentada pela Inglaterra, isso acabaria com as lutas
civis. Porém, como tal oferta foi recusada e os iberistas
espanhóis pensam em D. Fernando, pai de D. Pedro V.
D. Fernando de Saxe-Coburgo, o Rei-Artista, é, de
facto, convidado a ocupar o trono espanhol pelo General Prim, que
para esse efeito envia Ãngel Fernández de los Rios, que
em Portugal conta com a ajuda do Marquês de Nisa. D. Fernando
não põe de lado esta hipótese. São as
Câmaras portuguesas que recusam a proposta, que, a ser aceite,
e tendo em conta a importância económica e a força
espanhola, em breve conduziria à união ibérica.
Com a morte de D. Pedro V, e à recusa portuguesa
em relação a D. Fernando, é ao Rei D. Luís
I que Ãngel de los Rios oferece a coroa espanhola. Tal ousadia
e descaramento espanhol cria na opinião pública uma
revolta com manifestos e abaixos-assinados contra estes actos, e o 1º
de Dezembro de 1869 é celebrado como há muito não
acontecia...
É nesta altura que surge o poema «D. Jaime»
de Tomás Ribeiro, o qual é um grito de elevado
patriotismo.
No reinado de D. Luís I aconteceu outro facto que
levou ao grande descontentamento popular. Foi mais uma saldanhada,
o golpe militar do Duque de Saldanha no ano de 1870, que era apontado
por toda a imprensa espanhola como um triunfo iberista. Não
resultou, e Saldanha abalou de vez para o exílio.
Praticamente no início do reinado de D. Carlos I,
em 11 de Janeiro de 1890, um importante acontecimento vem perturbar a
Nação e as mentes de muitos intelectuais. No dizer de
Basílio Teles , o acontecimento mais considerável
que, desde as invasões napoleónicas, abalou a sociedade
portuguesa.
Sem duvida que o Ultimatum, que ainda hoje é
passível de emoções, foi um facto político
de repercussões inimagináveis na altura e, não
querendo tomar as partes pelo todo, muitas posições
tomadas nesse período foram fruto de um saudável
patriotismo, de um amor à Pátria, que não devem
ser consideradas como defesa do ideal iberista.
Muito do que se disse, e está escrito, foi feito
no calor da luta, e os iberistas, de cá e de lá,
mais não fizeram do que tentar canalizar para as suas
barricadas a revolta justa dos patriotas portugueses para com a
Inglaterra.
Quanto ao Ultimatum, em relação ao
futuro de Portugal, o que resultou foi um grande desenvolvimento da
ideia e doutrina republicana.
Nos finais do século XIX, alguns teóricos
republicanos e alguns maçons vêm defender o iberismo.
Magalhães Lima escreve o livro, em 1892, Fédération Ibériqu , onde se lê:
_Republicano convicto, concentro os meus esforços para chegar
à República Portuguesa e em seguida a uma federação
entre a Espanha e Portugal. A República proclamada nestes dois
países terá como consequência a Federação
Ibérica.
Mais tarde, em 24 de Janeiro de 1893, no Teatro Ayala de
Badajoz, realiza-se o chamado Congresso de Badajoz com representantes dos Partidos Republicanos de Portugal e da Espanha,
onde se exalta e defende o Federalismo para a Península
Ibérica.
Oliveira Martins, por esta altura, escreve a História
da Civilização Ibérica, onde apresenta uma
tese iberista, obra, que no dizer de Miguel de Unamuno , deveria
estar na cabeceira de todo o espanhol. Porém, ao desenvolver o
seu pensamento, tendo em consideração os factores
políticos que o cercam, modifica a sua postura, e é no Portugal Contemporâneo que se encontra a verdadeira
ideia que tem acerca das relações que se devem
estabelecer entre Portugal e a Espanha, uma total separação
e independência.
Também António Sardinha em textos
como A Aliança Peninsular e À Lareira de
Castela, indicia uma aproximação de Portugal a
Espanha, tendo como fundamento teórico o artigo de Moniz
Barreto intitulado A Situação Geral na Europa e a
Política Exterior de Portugal, que fora escrito a seguir
ao Ultimatum, e, como tal, fruto de uma situação
de angústia e revolta contra a pérfida Albion.
Os republicanos espanhóis sempre defenderam a
união ibérica. Como se disse, também alguns
republicanos portugueses apresentaram teses iberistas no Congresso de Badajoz.
Porém, na sua génese o Partido Republicano
Português não era iberista. Teófilo Braga ou
António José de Almeida, foram sempre firmes na recusa
de tal proposta. O mesmo se pode dizer da Maçonaria, pese
embora a importância de maçons com Magalhães
Lima, que chegou a ser seu Grão-Mestre.
A partir de 1910, são os republicanos portugueses
a temerem a Espanha, com receios de uma restauração
monárquica. De facto, as convulsões da Primeira
Republica levam a que Afonso XIII tente intervir em Portugal.
Testemunhos existem sobre a vontade de Afonso XIII, como
fizeram Filipe II ou Carlos III, procurar o caminho do aliciamento, e
buscando nos dissídios portugueses um pretexto de intervenção
em Portugal . Desde convites a personalidades republicanas com
Egas Moniz , à ideia de um grande empréstimo a
Portugal , passando por entrevistas onde advoga a denúncia
da aliança luso-britânica e o interesse de Portugal em
acolher-se à protecção de Espanha , todas as
oportunidades lhe eram lícitas para tentar uma opinião
favorável às sua teses iberistas.
Com a implantação da Segunda República
Espanhola, nada de novo surgiu quanto às relações
entre os dois estados, porque os seus principais políticos
como Alcala Zamora, primeiro presidente, Calvo Sotello, monárquico,
Gil Robles, direita, Manuel Azaña, esquerda, Largo Caballero,
socialista, eram iberistas, uns defendendo o federalismo, e
outros o unitarismo.
A vitória das forças de Francisco Franco
trouxe à direita, aos monárquicos e também aos
falangistas de Primo de Rivera, uma arrogância iberista,
levando a que os próprios embaixadores de Espanha em Portugal,
neste período, nada faziam por esconder as suas acções
anti-portuguesas.
No final do franquismo, coincidindo com o período
revolucionário português, aconteceu em Lisboa a ocupação
e destruição da luxuosa embaixada de Espanha. Sem
dúvida que foi um excesso revolucionário, mas no
subconsciente de muitos estava a revolta e a recusa de ligações
a Espanha, tentada, uma vez mais, a intervir no xadrez peninsular.
A restauração monárquica espanhola
não abrandou estes movimentos.
Neste seu curto período histórico, de
entre muitos, talvez o facto iberista mais importante, quiçá,
delirante ocorreu aquando da integração da Espanha na
Organização do Atlântico Norte. Logo à sua
entrada para o Pacto do Atlântico, mostrou a Espanha empenho
vivo em se responsabilizar pela defesa do flanco ocidental e sul da
aliança. Não sentiu a menor dificuldade ou hesitação
em reivindicar toda a responsabilidade por aquela zona.
Assim, muito naturalmente, os meios espanhóis
seriam dispostos por forma envolvente, pondo em causa a liberdade
irrestrita das nossas costas (sul e ocidental), e também a do
triângulo estratégico português, de que fala o
Prof. Borges de Macedo .
Uma outra das recentes investidas espanholas, agora no
plano cultural, encontra-se numa história de Portugal,
dirigida por um muito controverso professor da Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa .
Nela colaboram intelectuais brilhantes, como os
Professores Borges de Macedo, Veríssimo Serrão ou
Barrilaro Ruas, que, quanto ao iberismo, estão acima de
qualquer suspeita!
Mas, como o povo diz, no melhor pano cai a nódoa.
Um espanhol escrevendo sobre as relações
entre Portugal e a Espanha na época contemporânea,
Hipólito de la Torre Gómez , com alguma da sua obra
panfletária publicada em Portugal, a dado passo escreve que , a historiografia mais recente, tanto portuguesa como espanhola,
está a superar os tradicionais chavões nacionalistas,
tão abusivamente utilizados para explicar, ou antes
justificar, a existência de dois Estados da Península.
E, em puro delírio iberista, vai
defendendo que o processo de reencontro peninsular é
lento, e que depois de 1640 , só então nasce um
Portugal diferenciado e rival do resto da Península, como uma
realidade estatal independente e com uma consciência nacional
bem definida.
A este arruar, que não é de hoje, nem de
ontem, mas de séculos, contrapor-se-á, não o
frontispício da Monarquia Lusitana, Parte Primeira , mas a leitura da Monarquia Lusitana, onde ao lado do
maravilhoso, do sobrenatural e do providencialismo , se encontra
a essência da verdadeira história da Identidade de
Portugal! Honra aos Cistercienses de Alcobaça, que em pleno
domínio filipino, erguem o primeiro ensaio de uma história
nacional .
O Manifesto da Primavera de 1998, subscrito por
uma parte significativa da intelectualidade portuguesa de todos os
quadrantes ideológicos, sobre os perigos da tentação iberista da Espanha, tendo como fundo a campanha paralela à Exposição Mundial de Lisboa, mostra como o iberismo espanhol é uma história
interminável.
Já na década de trinta, para o autor d’ As Duas Espanhas, Fidelino de Figueiredo, o federalismo,
entendido como a incorporação de Portugal por meios
políticos, económicos e de pressão, e o
unitarismo, compreendido como a utilização da cultura,
da penetração psicológica, da assimilação
pelo espírito e pelo aliciamento, pela sugestão e pela
lisonja, pela promessa e até pela corrupção,
constituíam as duas Espanhas.
E Portugal não pertencia a nenhuma delas porque,
o mar arredou-o para sempre da massa continental ibérica. É
um país atlântico, simples cais de embarque, bastante
unificado, sem acções revulsivas internas .
As duas maneiras operativas do iberismo, o
federalismo e o unitarismo, acompanham a história mais recente
com o agora apenas Portugal Atlântico e a Centrípeta
Espanha, na Comunidade Económica Europeia, e nos outros
principais Organismos Europeus. As tentações não
têm sido menores, e só o maior bom senso, e o sentido de
Estado, por parte de Portugal, tem evitado conflitos
político-económico-jurídicos de notoriedade
pública.
Qual hidra de sete cabeças, o iberismo está imanente a todas as investidas políticas
espanholas. Hoje em dia, estando os dois países integrando da
Comunidade Europeia, não se vislumbra qualquer conflito de
ordem militar, o qual seria, em quaisquer circunstâncias,
desfavorável a Portugal, pelo enorme arsenal bélico
espanhol.
Ainda dentro da componente militar, não pode, nem
deve, ser ignorado que a Espanha utiliza a energia nuclear. É
apenas para produzir energia, contudo, é fácil desviar
essa tecnologia para fins de natureza militar.
E o problema do tratamento dos resíduos
resultantes das centrais nucleares espanholas é um assunto que
preocupa as populações vizinhas e, convém, uma
vez mais, não ignorar, também, a perigosa localização
dessas mesmas centrais nucleares.
O problema hidrográfico, o actualmente, maior
contencioso entre Portugal e Espanha, existe na justa medida em que o
problema das autonomias e da independências dos povos sob o
jugo castelhano não está resolvido.
O desastre ecológico que é o nascente do
rio Guadiana estar 182 quilómetros a juzante da originária,
é a prova do despotismo de um país que não
respeita as convenções entre estados.
O plano hidrográfico espanhol, a ser concluído
transformaria a meseta numa zona desértica, com as gravíssimas
consequências que acarretaria para as gentes que nela habitam.
Sabendo-se que o maior problema para as futuras gerações
será a falta de água potável, a política
de transvazes que o plano hidrológico espanhol preconiza, quer
nos rios internacionais, quer naqueles que estão nos países
que ocupa, quer nas próprias regiões autónomas,
é, além de uma obra faraónica, um profundo
desastre ecológico peninsular.
As relações entre as economias de Portugal
e Espanha, pertencendo ambas ao mesmo espaço, são cada
vez mais interdependentes. Se as balanças comerciais estão
desequilibradas, com saldo positivo espanhol, não deixa de ser
verdade que se forem analisadas por regiões, as relações
com Castela apresentam já uma configuração
diferente.
A chegada da moeda única é um
factor que poderá, ao contrário do que por vezes tem
sido dito, ajudar à independência política dos
povos como o galego, o basco e o catalão. A criação
de moeda por um novo estado foi, ao longo da história, um dos
maiores problemas e dificuldades com que as suas gentes se
deparavam.
O futuro torna-se mais risonho, porque a moeda única
fará com que as economias dos novos estados, e dos mais
frágeis economicamente, não estejam sob a ameaça
dos mais fortes.
A independência de Portugal não pode ser
desenquadrada da problemática independentista da Galiza, País
Basco e Catalunha. Em 1640 a Catalunha não conseguiu
libertar-se do jugo castelhano, mas ajudou a que o esforço
português fosse suficiente para levar de vencida os exércitos
de Filipe IV, divididos por várias frentes.
As boas relações do estado português
com a Galiza e a Catalunha têm que ser estendidas ao País
Basco. O anseio nacionalista destes povos não é
diferente do anseio nacionalista do povo português. Há
que ter a coragem política de o assumir.
De certo modo, conviria referir que a política
dos casamentos régios obedeceram sempre, às mediações
ditadas pela realpolitik, e à homogamia.
Tendo em conta a fragmentação política
peninsular, durante a primeira dinastia, essa política de
casamentos estava em sintonia com os jogos de interesse no interior
da estrutura de clã das dinastias ibéricas. Com a
crescente complexidade do xadrez político europeu, vemos,
também, a realização de casamentos com casa
senhoriais além Pirinéus.
Os primeiros casamentos da dinastia de Aviz fazem-se com
as casas reais Inglesa, da Borgonha e da França, afastando o
espectro castelhano. Mais tarde, volta-se ao jogo das diversas uniões
ibéricas, que, como já foi dito, levaram à perca
de independência, em 1580.
Após a Restauração, a política
de casamentos centrar-se-á em torno da França, da
Inglaterra, dos eleitores Alemães, da Casa de Áustria,
totalmente separada da Espanha, e da Itália; D. Carlota
Joaquina, espanhola de nascimento, foi portuguesa, como Rainha, tal
como tinha sido D. Luísa de Gusmão.
Podemos, finalmente, resumir, ao afirmar que, como na
monarquia se lutou contra o iberismo, também na
república se continuou essa mesma luta. Casos isolados há
sempre, que justificam a regra, mas o povo, esse continua,
independentemente do regime político, a lutar pela soberania
de Portugal.
Em todas as épocas houve quem estivesse do lado
de Castela. Hoje porque é que haveria de ser diferente?
Razão tem o povo quando diz que de Espanha nem
bom vento, nem bom casamento.
______________________________________
[1]
Mattoso, José - História de Portugal, vol. II, pág.
11 [voltar]
[2]
Ameal, João - História da Europa, vol. II, pág.
311 [voltar]
[3]
Martinez, Pedro Soares - História Diplomática de
Portugal, pág 86 [voltar]
[4)
Martinez, Pedro Soares - ibid, pág. 179 [voltar]
[5]
Luna, Carlos - Nos Caminhos de Olivença, pág. 25 [voltar]
[6]
Cortesão, Jaime - Os Factores Democráticos na Formação
de Portugal, pág. 31 [voltar]
[7]
Cortesão, Jaime - ibid, pág 33 [voltar]
[8]
Cortesão, Jaime - ibid, pág. 41 [voltar]
[9] Vendryes, J. - Le Langage, pág. 283 [voltar]
[10]
Vasconcelos, Leite de - Religiões da Lusitânia, vol. I,
pág. 26 [voltar]
[11] Pidal, Menendez - Origenes del Español, pág.
438 [voltar]
[12]
Pidal, Menendez - ibid, pág. 450 [voltar]
[13]
Carvalho, Alberto M. - Dicionário de História de
Portugal, vol III, verb. Iberismo, pág. 237 [voltar]
[14]
Nogueira, Franco - Juízo Final, pág. 98 [voltar]
[15]
Javierre, Aurea - Dicionário de História de Portugal,
vol III, Verb. Filipe I, pág. 13 [voltar]
[16]
Marañon, Gregório - Olivares (A Paixão de
Mandar), pág. 201 [voltar]
[17]
Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág. 378 [voltar]
[18]
Nogueira, Franco - Juízo Final, pág. 100 [voltar]
[19]
Castro, P. José de - O Prior do Crato, pág. 414 [voltar]
[20]
Martinez, Pedro Soares - ibid, pág. 219 [voltar]
[21]
Pereira, José Esteves - Silvestre Pinheiro Ferreira, pág.
64 [voltar]
[22]
Teles, Basílo - Do Ultimatum ao 31 de Janeiro, pág. 108 [voltar]
[23] Lima Magalhães - Fédération
Ibérique, pág. 12 [voltar]
[24]
Lima Magalhães - ibid, pág. 261 [voltar]
[25]
Nogueira, Franco - Juízo Final, pág. 143 [voltar]
[26]
Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág 383 [voltar]
[27]
Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág. 380 [voltar]
[28]
Castro, Luís Vieira de - Limbo, pág. 35 [voltar]
[29]
Castro, Luís Vieira de - ibid, pág. 37 [voltar]
[30]
Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág. 381 [voltar]
[31] Vasconcelos, Álvaro de - Portuguese/US
Relations in the Field of Security, pág. 64 [voltar]
[32]
Palma-Ferreira, João - A Tragédia da Rua das
Flores-Edição Diplomática, pág. 7 [voltar]
[33]
Medina, João - História de Portugal, Vol XV, pág.
235 [voltar]
[34]
Medina, João - ibid, pág. 236, l. 7 [voltar]
[35]
Medina, João - ibid, pág. 279, l. 16 [voltar]
[36]
Medina, João - ibid, pag. 237, l. 32 [voltar]
[37]
Medina, João - ibid, pág. 236 [voltar]
[38]
Ferreira, M. Emília C. - Dicionário de História
de Portugal, vol IV, verb. Monarquia Lusitana, pág. 329 [voltar]
[39]
Ferreira, Maria Emília Cordeiro - ibid. pág. 329 [voltar]
[40]
Figueiredo, Fidelino de - As Duas Espanhas, pág. 256 [voltar] |