Ano II - Nº 9, Setembro/Outubro de 2007
Alameda Digital
Ideologias
Iberismo – uma aproximação

por Mário Casa-Nova Martins

"Todo o povo que se esquece da terra em que nasceu e contempla indiferentemente as cores estrangeiras que a proclamam vencida, é um povo morto, uma nação cujo espírito passou enquanto o corpo se dissolve."

Rebello da Silva


A chamada Península Ibérica é constituída por diferentes nações, cada uma com a sua identidade geográfica, económica, cultural e linguística bem definida.

Em 5 de Outubro de 1143, data da Conferência de Zamora, o mapa político da Península Ibérica era formado pelos Reinos da Galiza, de Portugal, de Leão e Castela, de Aragão e Navarra, dos Condados Catalães e do Império Almorávida.

Principalmente, como resultado de políticas matrimoniais e sucessões dinásticas vamos encontrar a Península Ibérica, em 1479, constituída pelo Reino de Navarra, a norte, pelo Reino de Portugal, a oeste, pelo Reino de Granada, a sul, e pela entidade política intitulada Espanha, que o era fruto do casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão, e formada através da união dos Reinos de Leão e Castela com os Reinos de Aragão e Catalunha.

Posteriormente, terão lugar alterações político-geográficas de vulto, umas com carácter definitivo, e outras de carácter temporário. Nas primeiras, estão a conquista de Granada, em 2 de Janeiro de 1492 e a absorção de Navarra em 1512, e, nas segundas, a ocupação de Portugal por um período de sessenta anos.

Pequena alteração de pormenor geográfico, apenas a nível fronteiriço, irá sofrer a Península Ibérica até aos finais do século XIX.

Hoje a Grande Espanha inclui antigas nações como a Galiza, o País Basco e a Catalunha, e o território de Olivença. Por todos os meios diplomáticos tem tentado reaver Gibraltar, uma península de 5,8 quilómetros quadrados, que se tornou Inglesa em 1713, pelo Tratado de Utreque.

Luta contra movimentos independentistas Galegos, Bascos e Catalães. Recusa entregar Olivença a Portugal, após a ter ocupado em 20 de Maio de 1801, na chamada Guerra das Laranjeiras, e que, de acordo com o artigo 105º do Acto Final do Congresso de Viena de 9 de Junho de 1815, é obrigada a restituir.

Esta atitude de Madrid, de violação dos Tratados internacionais, a par da recusa de resolução dos problemas dos povos galego, basco e catalão, é, ainda hoje, por um lado, a prova acabada da tentativa centenar da anexação de Portugal, velho de oitocentos e cinquenta anos, como o fez no período de 1580 a 1640, e, por outro, da política centrípeta de Castela em relação aos outros povos peninsulares.

A geografia da Península Ibérica caracteriza-se pelos planaltos centrais, fendida a ocidente, e rodeada numa grande parte do seu perímetro por planícies ou zonas litorais mais ou menos individualizadas. A oeste está a reunião que mais se distingue em relação aos planaltos e que mais está em ligação ao oceano.

É aqui, o oeste, que, pouco a pouco, se vai formando a consciência de que o território e a actividade económica a que deu lugar constituem um património comum, desde logo aparecendo, e muito mais nas épocas de maior agitação, o instinto de segurança colectiva.

Para Jaime Cortesão, o contacto cruciforme (que define como a ligação entre diferentes elementos geográficos, de norte para sul e de leste para oeste, em contacto com os planaltos interiores) e a convergência atlântica (que é a união desse conjunto de caracteres da constituição geográfica) relacionam a Geografia e a Autonomia Política de Portugal, e justificam a sua existência autónoma e independente.

Morfologicamente, o Norte é de origem granítica e as águas correm mais à superfície; ao contrário no Sul, os terrenos calcários são mais permeáveis. Também, o tipo de relevo é muito mais acentuado a Norte e com uma maior pluviosidade o que faz com que a densidade populacional seja muito superior, se bem que dispersa; ao inverso, no Sul, com uma média pluviométrica baixa, com ciclos de seca, a população está mais concentrada, tudo isto aliado ao fraco ou inexistente relevo,

Mas, em todo este diferenciado conjunto, sempre a existência de condições boas de fixação de população no litoral e uma excelente ligação ao mar, com os rios a permitirem também a ligação para o interior, e o desenvolvimento de importantes portos fluviais, todos eles ao longo dos principais rios a desaguarem a oeste ou a sul, no oceano Atlântico.

É em todo este conjunto, que se diferencia do resto da Península Ibérica, que reside a justificação de uma entidade política autónoma a oeste, em profunda ligação com o Atlântico.

Nas palavras de Jaime Cortesão, assim se formaria um Estado abrangendo toda a zona Ocidental da Península, pois nenhum factor geográfico essencial justifica a separação entre Portugal e a Galiza. Importa referir que a norte do rio Minho a região da Galiza não difere, na morfologia, da parte sul deste rio.

A língua é o laço mais forte que une os membros de um grupo; é simultaneamente o símbolo e a salvaguarda da sua comunidade. De uma maneira global, a língua falada é, na sua essência, mera modificação da que usavam os luso-romanos.

Nos primórdios da nacionalidade, e segundo Menendez Pidal, o galego domina até uma linha um pouco a sul do rio Mondego, e daí para sul fala-se um dialecto moçarabe, profundamente análogo ao galego, um e outro diferente do dialecto falado nos planaltos, reafirmando que entre os dialectos do norte e do sul havia uma analogia fundamental.

Como foi dito, não existe uma diferenciação geográfica entre o norte e o sul do rio Minho. A questão linguística vai distinguir as duas nações, Galiza e Portugal a partir do século XIII.

Sendo considerada a Roma do Ocidente, com o Túmulo do Apóstolo Sant’Iago, a Galiza irá ao longo do tempo criando a sua própria identidade, nunca deixando, porém, de manter um relacionamento privilegiado com a sua continuidade geográfica, respeitando-se mutuamente, ao ponto de hoje se poder falar de uma convergência, dentro da mais completa autonomia.

Com este conjunto de dados compreende-se a separação e a diferença de Portugal dos outros Estados que se foram constituindo na Península Ibérica, mas que com a força centrípeta de Castela foram sendo absorvidos por esta.

Senhora do Almortão,
Minha linda raiana,
Virai costas a Castela
Não quereis ser castelhana

Popular

Podemos ler no verbete sobre iberismo do Dicionário de História de Portugal, pela escrita de Alberto Martins de Carvalho, que esta expressão perdeu o conteúdo etnográfico e antropológico para significar apenas a tendência a integrar Portugal num todo peninsular. Como consequência fundamental, a Espanha obteria a coincidência da geopolítica e da geo-estratégica na Península.

O iberismo é um problema político que apenas tem interessado os políticos e os intelectuais, porque o povo há muito que aceita, como o melhor para si, a separação total dos dois estados. Portanto, será apenas no campo intelectual que este debate de ideias decorre e deve ser analisado.

Seguindo este raciocínio, vemos que do lado espanhol raros são aqueles que aceitam esta divisão, escrevendo, quem escreve, o ilógico de tal situação e conduzindo, quem governa, os seus actos políticos no sentido da união.

E, como síntese global, dir-se-á que para a Espanha o iberismo consiste na incorporação de Portugal e terminar a rebeldia, a palavra sempre utilizada. Para Portugal, tem como objectivo a aliança, a colaboração, a federação ou até a integração .

O projecto de unidade peninsular tomou diferentes formas, consoante as épocas e as modas políticas. Desde a mudança de capital para Lisboa e a existência de um só monarca, à federação de Estados independentes, muitas foram as modalidades estudadas.

Mas, apenas de 1580 a 1640 tal unidade aconteceu, tendo-a o Portugal político aceite, isto é, o clero e a nobreza, com a oposição do povo, tal como acontecera em 1383, na altura contra D. João de Castela.

Filipe II de Espanha, nas Cortes de Tomar, jurou guardar e conservar todos os foros, privilégios, usos e liberdades que no seu novo reino tinha por concessão dos seus antecessores. Porém, ao fim de sessenta anos a política de Filipe II e seus sucessores foi no sentido da violação de tais juras e a progressiva absorção de Portugal pela Espanha.

Contudo, era tão artificial a incorporação deste Reino de Portugal na Coroa de Espanha, que a sua separação, imposta pela realidade do factor étnico, por tudo o que há de vivo e de eficaz no jogo da história humana, não se teria feito esperar, com Olivares ou sem ele.

Não existe a menor dúvida em afirmar que, como fenómeno cíclico na nossa história, e com implicações internacionais, o iberismo surge em épocas de declínio e de desorientação.

As primeiras manifestações do iberismo ocorrem no reinado de D. Fernando, levando à crise de 1383 a 1385, e em que a tríade D. João, o Mestre de Avis, D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável e João das Regras, o Jurista, sempre com o apoio popular, incarnam a vontade da Nação no impulso da defesa da independência, funcionando Aljubarrota como o símbolo dessa vontade de ser livre, como, mais tarde, será Alcácer-Quibir o crepúsculo dessa liberdade.

No reinado de D. Manuel I, a sua corte, com um comportamento cuja moda era o estrangeirismo e o espanholismo, como prova de superioridade intelectual e social, sentia, actuava e decidia em termos peninsulares e não portugueses.

Com D. João III, principalmente devido à política castelhana da Rainha D. Catarina de Áustria, fazem-se projectos de união ibérica pela política dos casamentos que veio a dar os seus frutos, após a morte do Cardeal-Rei.

Em 1580, Febo Moniz não foi o génio político que tudo arrisca. No fundo foi um homem do seu tempo, tempo de fraca política, de corrupção, de temor reverencial perante ideias de terceiros, a impressão que no carácter português causam as verdades lançadas por outros, e a crença, cega e acrítica, nos mitos apregoados além fronteiras .

D. António, Prior do Crato, que embora tendo vindo a morrer num exílio doloroso, pobre, rodeado de enganos e desgostos, antes de Alcântara tinha sido um acomodado, mesmo um colaborador de Castela, a quem tinha feito um preço que não foi satisfeito.

Com a Restauração não acabam as pretensões unionistas de Espanha. Depois de casamentos reais fora da Península Ibérica, com D. José I regressa essa política, ao casar com D. Mariana Vitória, irmã de Carlos III, cujo Conde de Floridablanca, seu ministro, defende que Portugal deve abandonar a aliança britânica, enquanto o Rei espanhol afirma que cumpre aplicar a Portugal um sistema de união e amizade.

Também, D. João VI continua essa política e vai casar com a irmã mais velha de Carlos IV, D. Carlota Joaquina. Triste memória a daquelas épocas!

Durante o período napoleónico, com a Família Real no Brasil, celebra-se em 27 de Outubro de 1807 o Tratado de Fontainebleau, entre a França e a Espanha, que determinava o desmantelamento de Portugal, da seguinte forma:

- As províncias da Beira, Trás-os-Montes e da Estremadura ficariam em refém, para se lhes dar, mais tarde, destino conveniente; as regiões entre os rios Douro e Minho constituiriam o reino da Lusitânia Setentrional, que seria oferecido ao rei da Etrúria; o Alentejo e o Algarve constituiriam um Principado, a oferecer ao então primeiro-ministro de Espanha, Manuel Godoy, a quem a história chama Príncipe da Paz (como por vezes a história é irónica...).

- A França e a Espanha partilhariam entre si os domínios ultramarinos de Portugal.

Findo o sonho de Napoleão, entra-se no Primeiro Liberalismo. Neste período, Manuel Fernandes Tomás é o exemplo do patriotismo, enquanto Silvestre Pinheiro Ferreira, ao contrário, aceitava o princípio de uma aliança ibérica, através de um arranjo defensivo, pensando mesmo em confiar à Espanha a defesa de Portugal.

Ao mesmo tempo, em Espanha os Liberais elaboram um plano de partilha de Portugal, em Lusitânia Citerior e Lusitânia Ulterior, e, através de José Maria Pando, tentam criar situações de instabilidade política, propícias à união.

Posterior a Évora Monte, dois lustres do Segundo Liberalismo, e de tudo o que de negativo nele se passou, o Duque de Saldanha e António Bernardo da Costa Cabral, defendem posições iberistas, ao advogarem nos seus governos políticas de dependência em relação ao poderoso vizinho. Almeida Garrett é o porta-estandarte do patriotismo, e lança um alerta vigorosíssimo na sua obra Portugal na Balança da Europa.

Por esta altura, 1855, é fundada em Madrid, a Liga Hispano-Lusitana, que afirmava ser uma associação para disseminar o pensamento da união ibérica.

Este conjunto de factos políticos, como uma indisfarçável ligação entre si, levam D. Pedro V a temer pelo futuro de Portugal.

O processo e a posterior deposição de Isabel II em 1868, vem suscitar novos movimentos com diferentes métodos de aplicação. Isabel II, filha de Fernando VII, por causa da qual a lei sálica fora abolida, não tinha sido aceite por todas as correntes políticas espanholas, originando uma guerra civil.

Os iberistas espanhóis traçam uma estratégia que passa pelo casamento do monarca português. Se D. Pedro V casasse com a filha primogénita de Isabel II, além de reunir as duas coroas e reintegrar a província rebelde sustentada pela Inglaterra, isso acabaria com as lutas civis. Porém, como tal oferta foi recusada e os iberistas espanhóis pensam em D. Fernando, pai de D. Pedro V.

D. Fernando de Saxe-Coburgo, o Rei-Artista, é, de facto, convidado a ocupar o trono espanhol pelo General Prim, que para esse efeito envia Ãngel Fernández de los Rios, que em Portugal conta com a ajuda do Marquês de Nisa. D. Fernando não põe de lado esta hipótese. São as Câmaras portuguesas que recusam a proposta, que, a ser aceite, e tendo em conta a importância económica e a força espanhola, em breve conduziria à união ibérica.

Com a morte de D. Pedro V, e à recusa portuguesa em relação a D. Fernando, é ao Rei D. Luís I que Ãngel de los Rios oferece a coroa espanhola. Tal ousadia e descaramento espanhol cria na opinião pública uma revolta com manifestos e abaixos-assinados contra estes actos, e o 1º de Dezembro de 1869 é celebrado como há muito não acontecia...

É nesta altura que surge o poema «D. Jaime» de Tomás Ribeiro, o qual é um grito de elevado patriotismo.

No reinado de D. Luís I aconteceu outro facto que levou ao grande descontentamento popular. Foi mais uma saldanhada, o golpe militar do Duque de Saldanha no ano de 1870, que era apontado por toda a imprensa espanhola como um triunfo iberista. Não resultou, e Saldanha abalou de vez para o exílio.

Praticamente no início do reinado de D. Carlos I, em 11 de Janeiro de 1890, um importante acontecimento vem perturbar a Nação e as mentes de muitos intelectuais. No dizer de Basílio Teles, o acontecimento mais considerável que, desde as invasões napoleónicas, abalou a sociedade portuguesa.

Sem duvida que o Ultimatum, que ainda hoje é passível de emoções, foi um facto político de repercussões inimagináveis na altura e, não querendo tomar as partes pelo todo, muitas posições tomadas nesse período foram fruto de um saudável patriotismo, de um amor à Pátria, que não devem ser consideradas como defesa do ideal iberista.

Muito do que se disse, e está escrito, foi feito no calor da luta, e os iberistas, de cá e de lá, mais não fizeram do que tentar canalizar para as suas barricadas a revolta justa dos patriotas portugueses para com a Inglaterra.

Quanto ao Ultimatum, em relação ao futuro de Portugal, o que resultou foi um grande desenvolvimento da ideia e doutrina republicana.

Nos finais do século XIX, alguns teóricos republicanos e alguns maçons vêm defender o iberismo.

Magalhães Lima escreve o livro, em 1892, Fédération Ibériqu, onde se lê: _Republicano convicto, concentro os meus esforços para chegar à República Portuguesa e em seguida a uma federação entre a Espanha e Portugal. A República proclamada nestes dois países terá como consequência a Federação Ibérica.

Mais tarde, em 24 de Janeiro de 1893, no Teatro Ayala de Badajoz, realiza-se o chamado Congresso de Badajoz com representantes dos Partidos Republicanos de Portugal e da Espanha, onde se exalta e defende o Federalismo para a Península Ibérica.

Oliveira Martins, por esta altura, escreve a História da Civilização Ibérica, onde apresenta uma tese iberista, obra, que no dizer de Miguel de Unamuno, deveria estar na cabeceira de todo o espanhol. Porém, ao desenvolver o seu pensamento, tendo em consideração os factores políticos que o cercam, modifica a sua postura, e é no Portugal Contemporâneo que se encontra a verdadeira ideia que tem acerca das relações que se devem estabelecer entre Portugal e a Espanha, uma total separação e independência.

Também António Sardinha em textos como A Aliança Peninsular e À Lareira de Castela, indicia uma aproximação de Portugal a Espanha, tendo como fundamento teórico o artigo de Moniz Barreto intitulado A Situação Geral na Europa e a Política Exterior de Portugal, que fora escrito a seguir ao Ultimatum, e, como tal, fruto de uma situação de angústia e revolta contra a pérfida Albion.

Os republicanos espanhóis sempre defenderam a união ibérica. Como se disse, também alguns republicanos portugueses apresentaram teses iberistas no Congresso de Badajoz.

Porém, na sua génese o Partido Republicano Português não era iberista. Teófilo Braga ou António José de Almeida, foram sempre firmes na recusa de tal proposta. O mesmo se pode dizer da Maçonaria, pese embora a importância de maçons com Magalhães Lima, que chegou a ser seu Grão-Mestre.

A partir de 1910, são os republicanos portugueses a temerem a Espanha, com receios de uma restauração monárquica. De facto, as convulsões da Primeira Republica levam a que Afonso XIII tente intervir em Portugal.

Testemunhos existem sobre a vontade de Afonso XIII, como fizeram Filipe II ou Carlos III, procurar o caminho do aliciamento, e buscando nos dissídios portugueses um pretexto de intervenção em Portugal. Desde convites a personalidades republicanas com Egas Moniz, à ideia de um grande empréstimo a Portugal, passando por entrevistas onde advoga a denúncia da aliança luso-britânica e o interesse de Portugal em acolher-se à protecção de Espanha, todas as oportunidades lhe eram lícitas para tentar uma opinião favorável às sua teses iberistas.

Com a implantação da Segunda República Espanhola, nada de novo surgiu quanto às relações entre os dois estados, porque os seus principais políticos como Alcala Zamora, primeiro presidente, Calvo Sotello, monárquico, Gil Robles, direita, Manuel Azaña, esquerda, Largo Caballero, socialista, eram iberistas, uns defendendo o federalismo, e outros o unitarismo.

A vitória das forças de Francisco Franco trouxe à direita, aos monárquicos e também aos falangistas de Primo de Rivera, uma arrogância iberista, levando a que os próprios embaixadores de Espanha em Portugal, neste período, nada faziam por esconder as suas acções anti-portuguesas.

No final do franquismo, coincidindo com o período revolucionário português, aconteceu em Lisboa a ocupação e destruição da luxuosa embaixada de Espanha. Sem dúvida que foi um excesso revolucionário, mas no subconsciente de muitos estava a revolta e a recusa de ligações a Espanha, tentada, uma vez mais, a intervir no xadrez peninsular.

A restauração monárquica espanhola não abrandou estes movimentos.

Neste seu curto período histórico, de entre muitos, talvez o facto iberista mais importante, quiçá, delirante ocorreu aquando da integração da Espanha na Organização do Atlântico Norte. Logo à sua entrada para o Pacto do Atlântico, mostrou a Espanha empenho vivo em se responsabilizar pela defesa do flanco ocidental e sul da aliança. Não sentiu a menor dificuldade ou hesitação em reivindicar toda a responsabilidade por aquela zona.

Assim, muito naturalmente, os meios espanhóis seriam dispostos por forma envolvente, pondo em causa a liberdade irrestrita das nossas costas (sul e ocidental), e também a do triângulo estratégico português, de que fala o Prof. Borges de Macedo.

Uma outra das recentes investidas espanholas, agora no plano cultural, encontra-se numa história de Portugal, dirigida por um muito controverso professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Nela colaboram intelectuais brilhantes, como os Professores Borges de Macedo, Veríssimo Serrão ou Barrilaro Ruas, que, quanto ao iberismo, estão acima de qualquer suspeita!

Mas, como o povo diz, no melhor pano cai a nódoa.

Um espanhol escrevendo sobre as relações entre Portugal e a Espanha na época contemporânea, Hipólito de la Torre Gómez, com alguma da sua obra panfletária publicada em Portugal, a dado passo escreve que, a historiografia mais recente, tanto portuguesa como espanhola, está a superar os tradicionais chavões nacionalistas, tão abusivamente utilizados para explicar, ou antes justificar, a existência de dois Estados da Península.

E, em puro delírio iberista, vai defendendo que o processo de reencontro peninsular é lento, e que depois de 1640, só então nasce um Portugal diferenciado e rival do resto da Península, como uma realidade estatal independente e com uma consciência nacional bem definida.

A este arruar, que não é de hoje, nem de ontem, mas de séculos, contrapor-se-á, não o frontispício da Monarquia Lusitana, Parte Primeira, mas a leitura da Monarquia Lusitana, onde ao lado do maravilhoso, do sobrenatural e do providencialismo, se encontra a essência da verdadeira história da Identidade de Portugal! Honra aos Cistercienses de Alcobaça, que em pleno domínio filipino, erguem o primeiro ensaio de uma história nacional.

O Manifesto da Primavera de 1998, subscrito por uma parte significativa da intelectualidade portuguesa de todos os quadrantes ideológicos, sobre os perigos da tentação iberista da Espanha, tendo como fundo a campanha paralela à Exposição Mundial de Lisboa, mostra como o iberismo espanhol é uma história interminável.

Já na década de trinta, para o autor d’ As Duas Espanhas, Fidelino de Figueiredo, o federalismo, entendido como a incorporação de Portugal por meios políticos, económicos e de pressão, e o unitarismo, compreendido como a utilização da cultura, da penetração psicológica, da assimilação pelo espírito e pelo aliciamento, pela sugestão e pela lisonja, pela promessa e até pela corrupção, constituíam as duas Espanhas.

E Portugal não pertencia a nenhuma delas porque, o mar arredou-o para sempre da massa continental ibérica. É um país atlântico, simples cais de embarque, bastante unificado, sem acções revulsivas internas.

As duas maneiras operativas do iberismo, o federalismo e o unitarismo, acompanham a história mais recente com o agora apenas Portugal Atlântico e a Centrípeta Espanha, na Comunidade Económica Europeia, e nos outros principais Organismos Europeus. As tentações não têm sido menores, e só o maior bom senso, e o sentido de Estado, por parte de Portugal, tem evitado conflitos político-económico-jurídicos de notoriedade pública.

Qual hidra de sete cabeças, o iberismo está imanente a todas as investidas políticas espanholas. Hoje em dia, estando os dois países integrando da Comunidade Europeia, não se vislumbra qualquer conflito de ordem militar, o qual seria, em quaisquer circunstâncias, desfavorável a Portugal, pelo enorme arsenal bélico espanhol.

Ainda dentro da componente militar, não pode, nem deve, ser ignorado que a Espanha utiliza a energia nuclear. É apenas para produzir energia, contudo, é fácil desviar essa tecnologia para fins de natureza militar.

E o problema do tratamento dos resíduos resultantes das centrais nucleares espanholas é um assunto que preocupa as populações vizinhas e, convém, uma vez mais, não ignorar, também, a perigosa localização dessas mesmas centrais nucleares.

O problema hidrográfico, o actualmente, maior contencioso entre Portugal e Espanha, existe na justa medida em que o problema das autonomias e da independências dos povos sob o jugo castelhano não está resolvido.

O desastre ecológico que é o nascente do rio Guadiana estar 182 quilómetros a juzante da originária, é a prova do despotismo de um país que não respeita as convenções entre estados.

O plano hidrográfico espanhol, a ser concluído transformaria a meseta numa zona desértica, com as gravíssimas consequências que acarretaria para as gentes que nela habitam.

Sabendo-se que o maior problema para as futuras gerações será a falta de água potável, a política de transvazes que o plano hidrológico espanhol preconiza, quer nos rios internacionais, quer naqueles que estão nos países que ocupa, quer nas próprias regiões autónomas, é, além de uma obra faraónica, um profundo desastre ecológico peninsular.

As relações entre as economias de Portugal e Espanha, pertencendo ambas ao mesmo espaço, são cada vez mais interdependentes. Se as balanças comerciais estão desequilibradas, com saldo positivo espanhol, não deixa de ser verdade que se forem analisadas por regiões, as relações com Castela apresentam já uma configuração diferente.

A chegada da moeda única é um factor que poderá, ao contrário do que por vezes tem sido dito, ajudar à independência política dos povos como o galego, o basco e o catalão. A criação de moeda por um novo estado foi, ao longo da história, um dos maiores problemas e dificuldades com que as suas gentes se deparavam.

O futuro torna-se mais risonho, porque a moeda única fará com que as economias dos novos estados, e dos mais frágeis economicamente, não estejam sob a ameaça dos mais fortes.

A independência de Portugal não pode ser desenquadrada da problemática independentista da Galiza, País Basco e Catalunha. Em 1640 a Catalunha não conseguiu libertar-se do jugo castelhano, mas ajudou a que o esforço português fosse suficiente para levar de vencida os exércitos de Filipe IV, divididos por várias frentes.

As boas relações do estado português com a Galiza e a Catalunha têm que ser estendidas ao País Basco. O anseio nacionalista destes povos não é diferente do anseio nacionalista do povo português. Há que ter a coragem política de o assumir.

De certo modo, conviria referir que a política dos casamentos régios obedeceram sempre, às mediações ditadas pela realpolitik, e à homogamia.

Tendo em conta a fragmentação política peninsular, durante a primeira dinastia, essa política de casamentos estava em sintonia com os jogos de interesse no interior da estrutura de clã das dinastias ibéricas. Com a crescente complexidade do xadrez político europeu, vemos, também, a realização de casamentos com casa senhoriais além Pirinéus.

Os primeiros casamentos da dinastia de Aviz fazem-se com as casas reais Inglesa, da Borgonha e da França, afastando o espectro castelhano. Mais tarde, volta-se ao jogo das diversas uniões ibéricas, que, como já foi dito, levaram à perca de independência, em 1580.

Após a Restauração, a política de casamentos centrar-se-á em torno da França, da Inglaterra, dos eleitores Alemães, da Casa de Áustria, totalmente separada da Espanha, e da Itália; D. Carlota Joaquina, espanhola de nascimento, foi portuguesa, como Rainha, tal como tinha sido D. Luísa de Gusmão.

Podemos, finalmente, resumir, ao afirmar que, como na monarquia se lutou contra o iberismo, também na república se continuou essa mesma luta. Casos isolados há sempre, que justificam a regra, mas o povo, esse continua, independentemente do regime político, a lutar pela soberania de Portugal.

Em todas as épocas houve quem estivesse do lado de Castela. Hoje porque é que haveria de ser diferente?

Razão tem o povo quando diz que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento.

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[1] Mattoso, José - História de Portugal, vol. II, pág. 11 [voltar]
[2] Ameal, João - História da Europa, vol. II, pág. 311 [voltar]
[3] Martinez, Pedro Soares - História Diplomática de Portugal, pág 86 [voltar]
[4) Martinez, Pedro Soares - ibid, pág. 179 [voltar]
[5] Luna, Carlos - Nos Caminhos de Olivença, pág. 25 [voltar]
[6] Cortesão, Jaime - Os Factores Democráticos na Formação de Portugal, pág. 31 [voltar]
[7] Cortesão, Jaime - ibid, pág 33 [voltar]
[8] Cortesão, Jaime - ibid, pág. 41 [voltar]
[9] Vendryes, J. - Le Langage, pág. 283 [voltar]
[10] Vasconcelos, Leite de - Religiões da Lusitânia, vol. I, pág. 26 [voltar]
[11] Pidal, Menendez - Origenes del Español, pág. 438 [voltar]
[12] Pidal, Menendez - ibid, pág. 450 [voltar]
[13] Carvalho, Alberto M. - Dicionário de História de Portugal, vol III, verb. Iberismo, pág. 237 [voltar]
[14] Nogueira, Franco - Juízo Final, pág. 98 [voltar]
[15] Javierre, Aurea - Dicionário de História de Portugal, vol III, Verb. Filipe I, pág. 13 [voltar]
[16] Marañon, Gregório - Olivares (A Paixão de Mandar), pág. 201 [voltar]
[17] Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág. 378 [voltar]
[18] Nogueira, Franco - Juízo Final, pág. 100 [voltar]
[19] Castro, P. José de - O Prior do Crato, pág. 414 [voltar]
[20] Martinez, Pedro Soares - ibid, pág. 219 [voltar]
[21] Pereira, José Esteves - Silvestre Pinheiro Ferreira, pág. 64 [voltar]
[22] Teles, Basílo - Do Ultimatum ao 31 de Janeiro, pág. 108 [voltar]
[23] Lima Magalhães - Fédération Ibérique, pág. 12 [voltar]
[24] Lima Magalhães - ibid, pág. 261 [voltar]
[25] Nogueira, Franco - Juízo Final, pág. 143 [voltar]
[26] Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág 383 [voltar]
[27] Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág. 380 [voltar]
[28] Castro, Luís Vieira de - Limbo, pág. 35 [voltar]
[29] Castro, Luís Vieira de - ibid, pág. 37 [voltar]
[30] Nogueira, Franco - As Crises e os Homens, pág. 381 [voltar]
[31] Vasconcelos, Álvaro de - Portuguese/US Relations in the Field of Security, pág. 64 [voltar]
[32] Palma-Ferreira, João - A Tragédia da Rua das Flores-Edição Diplomática, pág. 7 [voltar]
[33] Medina, João - História de Portugal, Vol XV, pág. 235 [voltar]
[34] Medina, João - ibid, pág. 236, l. 7 [voltar]
[35] Medina, João - ibid, pág. 279, l. 16 [voltar]
[36] Medina, João - ibid, pag. 237, l. 32 [voltar]
[37] Medina, João - ibid, pág. 236 [voltar]
[38] Ferreira, M. Emília C. - Dicionário de História de Portugal, vol IV, verb. Monarquia Lusitana, pág. 329 [voltar]
[39] Ferreira, Maria Emília Cordeiro - ibid. pág. 329 [voltar]
[40] Figueiredo, Fidelino de - As Duas Espanhas, pág. 256 [voltar]

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