As ideologias: ocaso
ou eclipse?
por Manuel Azinhal
Em
1964, Gonzalo Fernández de La Mora escreveu e publicou "O
Crepúsculo das Ideologias".
A
obra teve larga difusão, traduzida em múltiplas edições
e abundante literatura crítica. Em português, viria a
surgir só no Verão de 1973, pela mão de Henrique
Barrilaro Ruas, que a traduziu para a Editora Ulisseia.
Entretanto, esqueceu.
Relendo-a
agora, passados 43 anos sobre a sua feitura, o que se pode dizer?
O
autor pronunciava-se pelo “fim das ideologias”, quer por
via da convergência que observava entre elas quer daquilo a que
chamava a “racionalização da política”.
Na
sua posição torna-se porém difícil
distinguir o que é convicção e o que é
proposta, o que é conclusão e o que é programa
– o que não deixa de ser irónico num autor que faz
sua marca pessoal precisamente o apelo à racionalidade.
As
ideologias não passariam da “projecção
popular e prática de um sistema de ideias”, estariam no
domínio da crença, e a adesão a elas resultaria
de mecanismos identificáveis com a paixão irracional.
Daí a sua malignidade, e o imperativo de as substituir por
“ideias rigorosas, adequadas e concretas”. Como se vê,
novamente a passagem rápida do diagnóstico para o
projecto.
Surge
fácil a tentação de perguntar se o autor ele
próprio não estaria a ser vítima de uma crença,
querendo expressar uma convicção.
E, pior, uma crença
interessada.
Numa
sociedade desenvolvida o “entusiasmo colectivo” tende a
ser substituído por “consensos”?
A
verdade é que a tecnocracia esclarecida propugnada por
Gonzalo Fernandez de La Mora parece não ter passado
satisfatoriamente a prova do tempo – como se exemplifica com a
evolução política espanhola das décadas
de sessenta e setenta.
Não
custa admitir a existência de fenómenos como os
descritos pelo pensador espanhol quando fala de “apatia
política” e “convergência das ideologias”.
Efectivamente, com essas ou outras denominações tem
sido amplamente discutido quer o afastamento da generalidade dos
cidadãos em relação à coisa pública
quer a progressiva indiferenciação doutrinária
das estruturas de poder, maxime partidos de governo, nas
sociedades actuais.
Em
ligação com tais evoluções, pode também
referir-se a marginalização das afirmações
ideológicas fortes, relegadas para as franjas (os “extremos”
do linguajar comum).
Equivale
isto a concluir pelo “fim das ideologias”?
Afigura-se-nos ingénuo,
pelo menos, acreditar que quem tem poder não tem ideologia.
E também será
precipitado pensar que quem tem ideologia está
irremediavelmente condenado a não ter poder, nos tempos que
correm ou nos que se seguirão.
As
ideologias, como corolário inevitável da massificação,
podem ver-se como Fernandez de La Mora as via: "subprodutos
degenerados de uma actividade mental vulgarizada e patética".
(Curiosamente,
não serão tanto assim num tempo em que estão
relegadas para margens e redutos; tal situação
garante-lhes certamente mais pureza do que em tempos em que
dominavam o discurso político mais imediato).
Mas elas estão
aí, e nenhum de nós conhece as voltas do destino. A
História costuma ir ao enterro de todos os que lhe
prognosticaram o fim.
Aceita-se
o descritivo de Fernandez de La Mora sobre o objecto estudado.
Lembra-me aliás Fernando Jasmins Pereira, que com espírito
observava que as ideologias são sistemas de ideias que há
muito deixaram de ser pensadas (fio-me na memória). Seria
porém um erro subestimar o seu potencial, mormente em épocas
em que a inquietação volte a desassossegar os
espíritos. Um estremeção, e as sociedades
agitam-se, revolvidas por vezes por vagas incontroláveis onde
ninguém antes vira sinais de tempestade.
Eu não sei se as
ideologias vivem o seu ocaso definitivo, ou um eclipse temporário,
ou estão adormecidas enquanto a maré vai e volta.
Todavia,
regressando ao diagnóstico de Fernandez de La Mora, confesso
que me traz fundadas dúvidas. Para morrer, não é
preciso tanto tempo.
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