Macau, a potente plataforma lusófona na Ásia: “Das lusas vantagens no Extremo-Oriente”
por Vitório Rosário Cardoso
O
único território lusófono na região da
Ásia-Pacífico, tem o nome de Macau e constitui na
actualidade a principal plataforma de ligação e
cooperação entre a China e os Países de Língua
Portuguesa.
Desde
a data de 20 de Dezembro de 1999, Macau passou para a soberania
chinesa, da oferta deste pequeno mas próspero enclave por
Portugal em nome da amizade luso-chinesa.
Portugal
fundou Macau há 450 anos e dentro de quatro anos, assinala-se
a notabilíssima conquista de Malaca por Afonso de Albuquerque,
o segundo Vice-Rei da Índia Portuguesa. Tudo começou em
1511 quando o Sultão de Malaca e vassalo do Imperador da China
teve de debandar das terras que administrava, restando esperanças
que o pedido de socorro enviado ao Império do Meio fosse
auscultado. Este foi o momento da consolidação da
presença portuguesa na Ásia-Oriental, lançando
Portugal em esforços de cooperação com os povos
da região, tornando-se assim no primeiro Estado-Nação
europeu a estabelecer relações e alianças
diplomáticas e militares desde o Sião, à China,
passando pela Coreia ao Império Nipónico, entre outras
paragens.
Desde
então, com Malaca tomada, em 1513 o navegador Jorge Álvares
a bordo de um junco com adaptações tecnológicas
portuguesas, dando origem à Lorcha – uma embarcação
tipicamente luso-oriental, adaptada às águas pouco
profundas – foi quem delineou a rota marítima para a China,
tornando-se no primeiro navegador a dar às costas banhadas
pelos Mares do Sul da China e que teria desembarcado numa ilha muito
próxima de Macau.
Dos anos
de 1553~4, períodos de estabelecimento dos portugueses em
Macau, sob pretexto para secar as mercadorias da rota da China, a
Coroa Portuguesa passou por algumas dificuldades em se fixar nos
territórios costeiros chineses, uma vez que o Imperador Chinês
tomou medidas contra os portugueses em represália à
conquista de Malaca. Macau neste período, era então um
enclave chinês constituído por uma ou outra aldeia de
pescadores, e com menos de seis quilómetros quadrados.
Em 1557,
com o aumento do fluxo comercial da rota, Macau cresceu como
entreposto comercial, e foi então que o Imperador da China da
dinastia Ming, passou a autorizar a permanência dos portugueses
na “Cidade Cristã” do enclave.
Dada a
situação, foi fundada a cidade de Macau, numa época
em que Portugal já era a potência europeia hegemónica
na Ásia, constituindo como prova e acordo pela Santa Sé,
o Padroado do Império Português do Oriente.
Esta lusa
cidade fundada por mercadores e clérigos portugueses,
ilustremente conhecida por Cidade do Santo Nome de Deus, serviu ao
Imperador da China durante largas décadas como uma fortaleza
avançada na manutenção da segurança dos
Mares do Sul, devido ao poderio naval português e foi cobiçada
pelos holandeses, durante os finais do século XVI a inícios
do século XVII, com várias tentativas de ataque e
invasão, mas sempre repelidas pelos portugueses e seus filhos
da terra, comemorando a vitória final, no dia de São
João, a 24 de Junho de 1622, data essa tornada no dia da
Cidade. Posteriormente já com D. Afonso VI, acrescentou-se à
divisa do território ultramarino, “Não há
outra mais leal”, por ter sido a única praça
portuguesa a não reconhecer a soberania castelhana sobre
Portugal e o seu Império, nem ter hasteado as bandeiras dos
Filipes de Castela. Desde então, volvidos 450 anos nunca mais
Macau deixou de ter importância estratégica regional ou
ousadamente dizendo mundial.
DAS
MULTISSECULARES LUSAS LEALDADES LOCAIS. Uma vez que as paragens
orientais estavam bastante distantes da capital e do centro político
do Império Português, foi importante lançar uma
estratégia, desde Afonso de Albuquerque, sustentada nos laços
de lealdade locais por parte de Portugal. Ao contrário da
prática colonial de outras potências que viriam a seguir
a Portugal, o Reino das Quinas adaptou a sua jurisdição
às tradições locais e acima de tudo os
portugueses miscigenizaram-se com as populações locais,
criando uma elite portuguesa local, nascendo então os “Filhos
da Terra” ou os Portugueses do Oriente.
No caso
particular de Macau, hoje com uma população que ronda
os 500 mil habitantes, na sua maioria etnicamente chinesa, cerca de
200 mil dos quais têm direito à nacionalidade
portuguesa, enquanto que apenas 20 mil são os considerados por
“jus sólis” e “sanguinis” portugueses, ou seja, os
portugueses de Macau, descendentes de portugueses.
Foi com
esta ínfima população, sempre leal a Portugal se
pôs a funcionar a administração pública,
quando da metrópole se enviavam os governadores e suas equipas
para governar, ora representando a Coroa, ora a República, os
Macaenses, mais conhecidos por “Filhos da Terra” ou Portugueses
de Macau, constituíam e constituem a ponte de ligação
e de entendimento entre o mundo ocidental e oriental, mais
especificamente entre o Mundo Português e Chinês.
Quase
oito anos após integração de Macau na China, a
comunidade macaense tornou-se toda ela por lei, na comunidade
estrangeira com permissão de residência permanente em
Macau, ou seja, os macaenses tornaram-se juridicamente em
estrangeiros na terra onde nasceram, viveram e onde várias
gerações contribuíram para a sua construção
e desenvolvimento.
Comunidades
como estas, Portugal têm-nas espalhadas por toda a Ásia
marítima, o que se traduz num capital humano, cultural e
histórico favoráveis à cooperação
portuguesa com a Ásia, bem como à defesa dos interesses
nacionais lusos, nestas regiões do mundo.
MACAU
A PLATARFORMA LUSÓFONA. A criação da Região
Administrativa Especial de Macau da República Popular da
China, foi um processo que teve acompanhamento dos Estados Português
e Chinês, e que visou acordar conjuntamente as cláusula
de salvaguarda do funcionamento de Macau como uma região
chinesa, político-administrativamente autónoma, sob a
perspectiva ocidental, com a divisão dos poderes e Economia de
Livre ou de Mercado. As Línguas oficiais sendo em simultâneas
Portuguesa e Chinesa, permitiu tornar Macau numa plataforma
privilegiada de cooperação económica, comercial
e cultural entre a China e os Países de Língua
Portuguesa. Devido ao elevado grau de desenvolvimento e crescimento
económico de Macau, este enclave outrora português
assumiu um papel determinante nos investimentos chineses no espaço
lusófono, bem como abriu as portas da China à
Lusofonia. As perspectivas futuras da economia mundial apontam para
que o emergente bloco económico dos BRIC’s (Brasil, Rússia,
Índia e China) ultrapasse o G6 pelo ano de 2040, o que
significa um relacionamento privilegiado de Portugal sobre este
gigante bloco económico que em muito influenciará os
destinos do Mundo, neste sentido, é hora de Portugal apostar
na sua capacidade diferenciada, na cooperação
Bi-Multilateral, entre a UE, África e a China ou os BRIC’s,
pois assim todos sairemos a ganhar.
Macau
está hoje em dia equipada com instituições de
matriz cultural portuguesa, a começar com a Escola Portuguesa
de Macau, a Universidade de Macau, o Instituto Politécnico
onde se lecciona em português, com áreas de estudo
especializadas em Língua e Cultura Portuguesas, o Instituto
Inter-Universitário de Macau (criada do convénio entre
a Universidade Católica Portuguesa e a Diocese de Macau),
dotada ainda de instituições como o Instituto de
Estudos Europeus de Macau, e outras não governamentais como o
Instituto Internacional de Macau, a Santa Casa da Misericórdia,
a Casa de Portugal em Macau, a Associação dos
Macaenses, e a APOMAC- Associação de Reformados,
Pensionistas e Aposentados de Macau, entre outras. Já em
Portugal, poderemos encontrar instituições ligadas a
Macau e ao Oriente, como o Museu de Macau, do Centro Cultural e
Científico de Macau, pertencente ao Governo Português, a
Fundação Casa de Macau e a Casa de Macau em si, a
Fundação do Santo Nome de Deus e a Fundação
Jorge Álvares, constituída por todos os ex-Governadores
de Macau, um antigo Presidente da República Portuguesa entre
outras altas individualidades portuguesas e macaenses que
acompanharam e acompanham a vida de Macau, contemplando ainda a
participação dos futuros Chefes do Executivo da RAEM.
Estas
instituições visam manter o segundo sistema que vigora
em Macau, vindo da célebre frase de Deng Xiao Ping, “Um
País, Dois Sistemas” e “Macau governada pelas suas
gentes”, deste modo é importante o esforço de manter
o antigo enclave português aberto ao mundo, em torná-lo
numa cidade ou região administrativa especial verdadeiramente
internacional, pois só assim, servirão os interesses de
Pequim, de Macau e porque não, também do Mundo
Lusófono? TIMOR-LESTE.Este pequeno enclave entre o
enorme arquipélago indonésio e o imenso continente da
Oceânia, detém um valor geopolítico-económico
alto, bem como está geoestrategicamente bem localizado, o que
quer dizer que é uma jovem nação lusófona
bastante rica em recursos naturais e energéticos, controladora
de um espaço marítimo que envolve um dos quatro mais
importantes canais de ligação do Índico ao
Pacífico. Tal como tem-se vindo a ser relatado, o
comportamento dos filhos da terra e das comunidades que têm
laços de lealdade com Portugal, os timorenses não são
excepção, pautando pelo seu extremo amor por Portugal,
pois muitos dos seus cidadãos serem detentores da dupla
nacionalidade, e sobretudo, são os Portugueses do Oriente que
nem a sombra da Bandeira Nacional pisam, o que demonstra o enorme
respeito que estas gentes do longínquo Oriente têm por
Portugal.
DA
COREIA AO JAPÃO. Destes dragões asiáticos, a
memória portuguesa é bastante querida, pois ao longo da
história da Coreia, mercenários portugueses compuseram
as fileiras de combatentes coreanos na defesa de invasões
estrangeiras, ou então na introdução das armas
de fogo no Japão, pelos navegadores portugueses,
possibilitou-se a unificação do Japão, através
da supremacia de um shogunato sobre todos os outros.
Sendo
assim, no Império Nipónico, Portugal é recordado
quase como o padrinho da Nação para além de nós
portugueses termos introduzidos o fabrico do pão, do pão
de ló, de outras iguarias, como de expressões ou
palavras, daí toda a reverência japonesa para com os
portugueses e traduzindo ainda em termos práticos, económicos,
é quase para os japoneses um dever investir em Portugal, sendo
quase uma obrigação agradável em receber e
acolher os portugueses no Japão.
Recordando
outro território de nome Formosa ou Taiwan, terra colonizada,
primeiro por portugueses e depois holandeses e japoneses, é
hoje uma região economicamente próspera que no seu
dia-a-dia é ainda ensinada às crianças, as
origens lusas da ilha.
O
PAPEL DE PORTUGAL. Do ponto de vista da análise global, o
papel dos estados de pequena dimensão no seio da União
Europeia, como Portugal, torna vital este ter um papel interventivo e
de preferência importante, pois se não tivermos nenhum
papel, estaremos condenados em deixar de ser jogadores num jogo de
sobrevivência. Esse papel defende-se através da
complementaridade do diferenciador de cada país e neste caso
concreto de Portugal, sobrevive-se no jogo apostando nas ligações
transatlânticas, tanto com o Brasil como com os EUA, nas
relações Portugal-África Lusófona, e no
vector Portugal Ásia-Lusófona. Nestes termos, o papel
diferenciador português para além de enriquecer a
própria posição portuguesa face à União
Europeia, tornará a UE mais interventiva no mundo. Outro ponto
forte da vantagem lusófona, prende-se com a relação
lusa com as chamadas plataformas de projecção global de
poder, como o Brasil ou num futuro próximo, a relação
com uma plataforma em menor escala, Angola, que poderá
tornar-se no líder regional da África Austral. Tendo em
consideração a manutenção do actual ritmo
de crescimento económico de Angola, e seu consequente contínuo
desenvolvimento.
Portugal
tem, depois destas exposições, todas as condições
reunidas para se valorizar ainda mais no mundo, fazendo valer das
suas capacidades diferenciadoras, por ter em si intrínsecas as
culturas americanas, europeias, africanas e asiáticas, e deve
rentabilizar os seus capitais humanos, históricos e culturais
pelo mundo fora repartidos.
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