| Revisitar Mouzinho de Albuquerque
por João José Brandão
Ferreira [TCOR/PILAV (R)]
“Essas
poucas páginas brilhantes e consoladoras que há na
História do Portugal Contemporâneo escrevemo-las nós,
os soldados, lá pelos sertões da África, com as
pontas das baionetas e das lanças a escorrer em sangue. Alguma
coisa sofremos, é certo; corremos perigos, passámos
fomes e sedes e a não poucos prostraram em terra para sempre
as fadigas e as doenças. Tudo suportámos de boa mente
porque servíamos El-Rei e a Pátria, e para outra coisa
não anda neste mundo quem tem a honra de vestir uma farda. Por
isso nós também merecemos o nome de soldados; é
esse o nosso maior orgulho”.
Mouzinho
de Albuquerque
(in
carta ao Príncipe D. Luis Filipe)
Esta citação foi
retirada da carta que Mouzinho escreveu, em 1901, ao Príncipe
D. Luis Filipe de quem era Aio. Esta carta por demais notável
– e que deveria ser lida e meditada em todas as escolas do País
– constitui a síntese do seu pensamento de Homem, de
Português e de Militar e reflecte em alto grau a elevada
estatura moral do seu autor, espírito superior que não
cabia no Portugal de então.
A figura
de Mouzinho já foi evocada e estudada de todos os ângulos
possíveis; as suas acções como militar,
administrador e educador, dissecadas por numerosos autores, e bem
assim o seu perfil como Homem, cidadão e o político que
nunca foi.
Personalidade
complexa, era dotado de grandes qualidades e algumas sombras, como é
inevitável em todos os humanos. Mas entre umas e outras, o
saldo recai amplamente nas primeiras e tudo deve ser avaliado à
luz de um todo e de uma época.
“Aqueles
que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”
Camões
Joaquim Mouzinho, nascido na Batalha,
a 12 de Novembro de 1855, distinguiu-se entre os Homens da sua
geração e ganhou jús a figurar na pleiade de
portugueses que no dizer do poeta “se vão da lei da morte
libertando”.
Evocar Mouzinho,nos dias que
correm,representa um pequeno acto de coragem que me permito – sem
ofensa de lisonja aos leitores – reputar de adequado, tendo em
conta estarmos a evocar Mouzinho que tinha essa qualidade, a coragem
– tanto física como moral -, no mais alto grau.
Lembro apenas esse memorável
acto de coragem temerária – embora reflectida -, só
possível num ser dotado de grande espírito militar e
capacidade de liderança, que foi o golpe sobre Chaimite, feito
de armas singular, glória exaltante dos nossos brios
patrióticos e cujo valor encontrou eco nos principais países
de então, confrontados com derrotas dolorosas de importantes
exércitos da época.
Valor que fez reconhecer à
generalidade da população portuguesa o direito que
aqueles 50 bravos passaram a ter de ninguém se lhes dirigir
sem se descobrir.
E tanto é de espantar o golpe
de asa que fez Mouzinho entrar no Kraal do Gungunhana, protegido pela
sua mais aguerrida “impie” de 3000 guerreiros, derrubando com
decisão a paliçada que o protegia, todos petrificando
com assombro; como, já na retirada, sentindo os vátuas
que os seguiam de perto, inquietos por não completamente
dominados, mandou parar a coluna e num gesto intuitivo de alto risco,
ordenou aos orgulhosos negros que depusessem os seus escudos no chão
de modo a sobre eles poderem os soldados portugueses descansar. E
assim se fez, ficando completa a humilhação vátua
e por arrasto a sua submissão.
Mas hoje não se ensina mais o
significado de Chaimite à população portuguesa e
muito menos à sua juventude. Provavelmente, em muitos meios,
este e outros actos heróicos são considerados
“demodés”; uma acção de violência que
nada justifica; uma aventura imperialista; um esforço
escusado, uma afronta à paz entre os povos e outras
considerações de semelhante jaez.
Hoje em dia os portugueses deixam-se
dominar pelos pseudo intelectuais de serviço que primam em
aviltar a memória de quem se portou bem e de exaltar
inequidades aviltantes. E a prova é que se financiam alguns
destes artistas e se ignorou olimpicamente o centenário da
morte de Mouzinho.
É pois a esta luz, isto é,
fazendo um paralelo entre os exemplos de Mouzinho e alguns eventos
dos nossos dias, que me proponho alinhavar a prosa restante.
Será mais um serviço que
ele indirectamente presta à terra que tanto amou.
Assim antes de fazer uma incursão
nos seus exemplos como Homem, Militar e Administrador, tentarei
situar o personagem no Portugal de então e concluirei com uma
certeza e um apelo.
A introdução fica assim
feita, faltando apenas explicitar duas razões ponderosas da
importância de comemorar a figura de Mouzinho:
- para se voltar
a evocar os nossos heróis, sábios e Santos, ajudando
desse modo a enterrar definitivamente uma leitura marxista da
História que se impôs entre nós desde a época
conturbada de 1974/5 e que tão perniciosos resultados tem
dado;
- e para ajudar
a reganhar a nossa auto estima como nação, muito
abalada por eventos contemporaneos.
O Portugal
Contemporâneo de Mouzinho
“Foram-se-nos mais de três
partes do império de Além Mar e Deus sabe que dolorosas
surpresas nos reserva o futuro ...”
Mouzinho de Albuquerque
(in carta ao Príncipe D. Luis
Filipe de Bragança)
Mouzinho, nasceu no reinado efémero
do muito prometedor rei D. Pedro V que a doença ceifou tão
prematuramente.
Portugal
tinha começado a viver, desde 1851, um período de paz
civil, recuperação financeira e desenvolvimento
económico. Este período seguia-se aos terríveis
50 anos anteriores, que tinham visto o país invadido pelos
franceses por três vezes, que deixaram atrás de si um
rasto de morte e destruição; assistido à partida
da família real e de cerca de 10 000 pessoas de maior condição
para o Brasil; à ocupação inglesa e perda do
monopólio do comércio do Brasil e restantes
territórios, para a Inglaterra; à Revolução
Liberal de 1820, que veio a expulsar o governo de Beresford, e está
na origem da independência brasileira, da primeira constituição
portuguesa e da posterior divisão da família real e
subsequente guerra civil; da guerra civil que durou de 1828 a 1834,
que devastou o país; da revolução social que se
seguiu ao seu termo, cujo expoente se situa na extinção
das Ordens Religiosas e na reforma administrativa de Mouzinho da
Silveira e ainda na formação de uma nova nobreza e na
emigração da antiga; tudo isto seguido de uma tremenda
e demorada crise, política, social, económica,
financeira e religiosa, que acabou por desembocar noutra guerra
civil, em 1847, a Patuleia, apenas terminada por uma intervenção
militar anglo-espanhola!
Foi na
sequência desta devastação que o Marechal
Saldanha, conhecido cabo de guerra de outras batalhas e golpes de
estado, forçou, “manu militari” a sua ida para primeiro
ministro, em 1851.
A partir
daqui as forças político-partidárias vendo o
descalabro em que se encontrava a Nação, promoveram um
entendimento em que dois partidos constituídos, um mais à
direita – O Regenerador -, e outro mais à esquerda – o
Progressista -, se alternariam no Poder, numa tentativa de imitação
do parlamentarismo inglês.
Deu-se
assim início ao “Rotativismo”, que funcionou sem precalços
de maior até 1890, período marcado pela figura do
General Fontes Pereira de Melo. Esse ano de 1890 viu surgir uma crise
financeira o que acompanhado do “ultimatum” inglês,
mergulhou o país em prolongada crise social e política.
A monarquia portuguesa ia viver os seus últimos 20 anos de
existência em que aumentaram sem cessar os ataques à
família Real e ao Trono a que não eram estranhas as
ideias socialistas introduzidas na sociedade portuguesa e, sobretudo,
a emergência em força do partido republicano. Tudo veio
a desembocar na revolta republicana gorada de 1891; pelo assassinato
do rei D. Carlos e do herdeiro do trono, em 1 de Fevereiro de 1908 e,
finalmente, no 5 de Outubro de 1910, onde a divisão e
desorientação das forças monárquicas e a
falta efectiva de liderança fizeram soçobrar uma
Monarquia antiga de quase 800 anos, em menos de 24 horas, às
mãos de cerca de 500 civis armados, meia dúzia de peças
de artilharia e um subalterno de Administração Naval. E
isto depois do chefe da revolta, Almirante Reis, se ter suicidado
julgando a partida perdida!
Talvez o
resultado de tudo isto tivesse sido diferente se a espada de Mouzinho
não o tivesse acompanhado no túmulo ...
Quando
Mouzinho nasceu, Portugal mantinha presença em quatro
continentes, mas à excepção da Índia e do
Brasil, o seu controle efectivo dos territórios era escasso. O
esforço estratégico dos últimos 200 anos
tinha-se concentrado no Brasil, território que, à data
da independência tinha um nível de desenvolvimento
idêntico à Metrópole e um potencial
incomparavelmente superior. Por via das invasões francesas e
das guerras civis subsequentes, Portugal falhou as duas revoluções
industriais ao passo que víu destruído quase tudo o que
detinha. A independência brasileira deu o golpe de misericórdia
na economia e finanças.
Portugal,
que no início do século XIX, se poderia considerar uma
média potência, estava em meados do século quase
desqualificado no concerto das nações e incapaz de
acompanhar o desenvolvimento tecnológico em acelerada
expansão.
Face às
dificuldades existentes o Marquês de Sá da Bandeira,
homem de incontestável valor (mas que se ficou por marquês
enquanto outros de inferior estofo, foram a Duque ...), no preambulo
do decreto Lei que abolia a escravatura, apontou a necessidade de se
mudar o esforço estratégico para África de modo
a lá se constituírem novos Brasis. O desafio foi aceite
mas as guerras estrangeiras e internas, já citadas, os
desatinos político-partidários; o caos financeiro; as
querelas religiosas e a desorganização militar e
administrativa fizeram gorar qualquer tentativa séria de
desenvolver os territórios de além mar, à
demasiado tempo entregues à sua sorte. Tal só veio a
mudar quando o interesse sobre a África e as cobiças
internacionais, que culminaram na Conferência de Berlim de
1884/5, fizeram com que o governo português acordasse da sua
letargia e intentasse estudar, delimitar e ocupar “de facto”, os
territórios onde a Bandeira portuguesa flutuava há
quatro séculos. Isto só foi possível porém
pelos progressos registados no período de 1851 a 1890 e que se
traduziram na estabilidade das finanças, desenvolvimento da
agricultura (Portugal continuava a ser um país essencialmente
agrário) e na melhoria das vias de comunicação,
transportes e infra-estruturas sociais. E, naturalmente, no reforço
possível do Exército e da Armada.
A partir
do início do século XIX, a África Negra deixou
de ser olhada apenas como reservatório de escravos para passar
a local apetecível de ocupação. Concorreu para
isto a curiosidade científica, a procura crescente de produtos
tropicais, a necessidade de matérias primas e a cativação
de novos mercados que a Revolução Industrial não
só potenciava, como exigia.
A perda
de controle dos territórios que dispunham na América do
Norte, por parte da França e da Inglaterra encaminhou estes
países para outras paragens.
À
medida que se entrava na segunda metade de oitocentos o interesse por
África cresceu desmesuradamente.
Constatava-se
a ignorância sobre tão vasto território,
sobretudo o seu interior. E do interesse dos governos passou-se para
a opinião pública e desenvolveu-se a Geografia. As
viagens de exploração sucederam-se e toda esta
actividade veio a culminar na Conferência de Berlim de 1884/5,
onde se fez a partilha do continente e se desencadeou uma autêntica
corrida a África.
Sobre
forte pressão dos lobies industriais alemães, Bismark
acabou por lançar os seus olhos sobre o Continente Africano e
em apenas três ou quatro anos, formou-se o império
alemão em África que englobava Angra Pequena, Camarões,
Togo e a África Oriental Alemã.
Portugal
cujo ambiente lhe era hostil conseguiu apenas duas vitórias:
- impediu-se o
estabelecimento da Associação Internacional Africana na
margem direita do Zaire;
- ter sido
retirada do acto geral, a referência inglesa à
internacionalização do Zambeze.
As
decisões de maior peso que afectaram directamente Portugal
foram a declaração sobre a liberdade de culto e a
ocupação efectiva dos territórios. Sabia-se que
só as grandes potências estavam em condições
de fazer isto. Portugal não estava capacitado na altura para
lidar com estas exigências e as outras potências
sabiam-no. Portugal era o país que mais tinha a perder,
percebeu o aviso e encetou numerosas acções para tornar
mais efectiva a sua presença e salvaguardar os seus
interesses.
Os
“Ventos da História” da época outro mito do nosso
tempo -, assim o impunham.
A
situação no Ultramar era confrangedora. E, se no
Oriente, as nossas posições, por modestas, não
despertavam grandes cobiças, já a situação
em África era de molde a suscitar os maiores ataques. Foi isso
que veio a suceder.
E se na
Índia se tinha enraizado uma casta aristocrática
baseada na rede de famílias portuguesas estabelecidas, as
possessões portuguesas de África, foram quase apenas
ponto de passagem das caravelas, ou lugar de expiação
de condenados durante três séculos e meio. As estruturas
sociais eram, assim, muito débeis.
Foi,
portanto, um povo desmoralizado e governos hesitantes e fracos, que
em meados do século XIX, teve que passar a olhar para África,
por um lado para encontrar alternativas à perda do Brasil; por
outro, para fazer face às potências que nos queriam
esbulhar. Mesmo assim o que se conseguiu fazer e salvaguardar, foi
espantoso.
Com a
Conferência de Berlim germinou em Portugal, o sonho do mapa cor
de rosa, que encontra os seus primórdios no século XVI.
No
entanto este sonho chocava com os interesses britânicos que
pretendiam ligar o Cabo ao Cairo e daí resultou o “ultimatum”
de 1890. O “Direito da Força” tinha-se sobreposto à
força do Direito. Uma reflexão sempre actual.
A seguir
à Conferência de Berlim, o governo português
desencadeou um conflito de acções de âmbito
militar, administrativo, de investigação e de
delimitação de fronteiras e também de melhoria
de infra-estruturas, comunicações e comércio. As
campanhas militares iriam estender-se até aos anos 30 do
século XX.
Mouzinho
de Albuquerque – A voz dos Documentos e o exemplo da Acção.
“Enfim não houve forte
capitão que não fosse também douto e ciente”
Camões
Joaquim
Mouzinho não se limitou a ser um homem de acção,
foi também um homem de pensamento e um escritor de mérito.
Este
último aspecto não tem sido objecto de estudo e realce.
Mas ao ler-se a sua vasta correspondência, os relatórios
das campanhas e o livro “Moçambique”, que escreveu em
apenas três meses, podem-se facilmente vislumbrar os seus dotes
para a escrita. Três das suas cartas podem-se considerar de
antologia. São eles, a carta que escreveu ao Presidente do
Conselho de Ministros, José Luciano de Castro, em que
justifica a sua demissão de Comissário Régio de
Moçambique; a missiva que deixou para o Conselheiro Álvaro
da Costa Ferreira, seu substituto no governo da Província e
esse monumento de sabedoria e honradez que representa a Carta ao
Príncipe D. Luis Filipe, já referida. E através
do que escreveu pode-se vislumbrar muito do que pensava e sentia. Por
eles podemos constatar algumas constantes:
um
cecrisolado amor Pátrio; a lealdade às instituições
e sobretudo ao Rei; a ânsia pelo engrandecimento do reino; um
grande orgulho por ser militar e o que tal representava e um desprezo
ácido pelos políticos e pela baixa política.
“Todos sabem os apuros financeiros
do país e sabem por igual que, para segurar o poder por mais 2
ou 3 anos, V. Exª e o gabinete a que preside não
hesitarão em sacrificar o futuro”.
Mouzinho
de Albuquerque
(in
carta ao Presidente do Conselho de Ministros)
Estes desencontros entre militares e
civis não são raros na nossa vivência colectiva e
manifestam-se mais, durante a vigência de governos fracos e de
menosprezo pela Instituição Militar. Vivemos hoje
novamente uma épocas dessas e o que se tem passado não
augura nada de bom. Reparem: sucessivos governos têm asfixiado
as Forças Armadas através da via financeira,
administrativa e em pessoal; o desinvestimento é quase total;
a Assembleia da Republica ignora normalmente estes assuntos; durante
as campanhas eleitorais as questões de Defesa e Segurança
são sistematicamente excluidas do debate ou das preocupações
de quem passa horas a fio a falar sobre as coisas mais
desnecessárias; O Presidente da Republica em termos legais é
essencialmente uma figura decorativa sobre a matéria; o poder
executivo já escolhe os chefes - militares que quer, sem
intervenção da Instituição Militar e, a
seguir, demite-os e até o poder judicial está em vias
de ser retirado às Forças Armadas.
Numa palavra o poder político
em vez de intentar estabelecer regras claras de subordinação,
procura impor caminhos ínvios de submissão. E isto é
apenas uma ponta do iceberg. Ultrapassa por isso a nossa compreensão
como é que uma instituição fundamentalmente para
o Estado e á Nação possa andar de candeias às
avessas com aquele. Esta realidade é, certamente, um exemplo
típico de menoridade cívica!
Mouzinho como Homem
“Em resumo Exmo Senhor, a
minha superioridade consiste em ter só uma cara”
Mouzinho de Albuquerque
(in carta ao Presidente de Conselho de
Ministros)
Como disse Júlio Dantas,
Mouzinho era grande demais para caber na sociedade portuguesa de
então, que não sabia o que havia de fazer dele. E
“embora a lealdade desse “chevalier sans peur et sans reproche”
estivesse acima de todos as dúvidas, temiam-no.
Parece poder apontar-se Robert Clive,
Lyautey, Caldas Xavier e Joaquim Durant, Comandante da Cavalaria de
Napoleão, como inspiradores da sua acção.
Mouzinho não era simpático
para com o comum das pessoas e que não poderiam assim apreciar
a lhaneza do seu trato intimo.
Era um Homem de carácter e um
Homem de bem. Era rijo e possuía uma resistência fora do
comum à fadiga, ao frio, à fome e era um trabalhador
incansável. Era autocrata: “ninguém manda aqui senão
eu enquanto fôr governador geral”, chegou a afirmar. Tinha um
orgulho desmedido e uma decisão rápida.
“Audácia e Método”,
é um lema que se lhe aplica e que é bem ilustrada pela
sua frase
“Aproveitar na vida e na guerra as
ocasiões e caír-lhe em cima
como o milhafre sobre a
presa”
Chaimite é o exemplo acabado
desta tese. Joaquim Mouzinho era um chefe nato, um líder
carismático, que arrastava os Homens – que o respeitavam,
atrás de si. E é apropriado o que o Prof. Marcello
Caetano, dele disse
“a figura de Mouzinho de Albuquerque
como chefe, tão grande como nenhuma outra”
Por outro lado, Mouzinho como pedagogo
está bem ilustrado na celebre carta ao Príncipe D. Luís
Filipe e que este nunca chegou a ler, já que só foi
divulgada em Maio de 1908, já depois da sua morte.
D. Carlos ao apresentar-lhe o
príncipe, disse: “Aqui o tens, faz dele um homem e lembra-te
de que há-de ser Rei”. E foi pena que o príncipe, que
nutria grande admiração pelo seu Aio, não a
tivesse lido pois representa uma extraordinária lição
de amor pátrio, nobreza moral, alta política e
inteireza de carácter. Numa palavra de grande pedagogia
política moral e social. Bastava esta carta, mais tarde
apelidada de “entre mortos”, para que D. Carlos tivesse dado por
bem julgada a decisão de tornar Mouzinho preceptor do seu
herdeiro, numa tradição que vinha de D. Afonso III, que
foi o primeiro rei português a dar a casa a seu filho – o
esclarecido D. Dinis -, e a ter a noção da necessidade
de cedo o preparar para ser Rei. E Mouzinho queria fazer do príncipe
um soldado, dizia: Por isso repito, primeiro que tudo tem Vossa
Alteza que ser um soldado”.
E outros paralelismos se podem fazer
com o presente: a falta de preparação das “elites”
políticas para a governação; a ignorância
de muitos sobre matérias fundamentais e até do próprio
país e da sua gente, por terem sido formados em universidades
estrangeiras, alguns deles por terem fugido aos seus deveres
militares para com a comunidade; outros por saírem
directamente dos partidos políticos, que em vez de serem
escolas de cidadania, se deixaram transformar em agências de
empregos. Isto, claro, sem referir a evidencia de que a esmagadora
maioria de todos eles nunca ter passado pelo serviço militar.
E temos que considerar a coragem, qualidade que Mouzinho possuía
em elevado grau. Coragem física, sim, mas, sobretudo, coragem
moral, que o levava a arrostar com a responsabilidade
independentemente das consequências e a só ter uma cara.
Qualidades raras em todos os tempos,
onde imperam os pseudo chefes que preferem “burro que os louve, a
cavalo que os critique” e as personalidades que respondem a uma
simples pergunta “que horas são”, qualquer coisa do género
“são as horas que V. Exª Senhor Ministro, quiser que
sejam ...
Joaquim Mouzinho não era
ambicioso, senão outro teria sido o desfecho do drama. O seu
desaparecimento constituíu um alívio para os medíocres.
Até o suicídio aparenta
ter sido um acto de estoicismo de quem, inconformado, estiolava,
levando uma existência que não gozava e impotente para
evitar os desmandos políticos e afastar a intriga da sua
pessoa.
Dele se pode dizer o que Eça de
Queiroz disse sobre Guerra Junqueiro:
“Concluindo que a vida lhe não
convinha, saíu dela voluntariamente”
Mouzinho libertou-se assim do “sol
negro da melancolia”, no dizer de Roberto de Morais.
Mouzinho sempre teve uma relação
estreita com a morte, queria “morrer bem” e era seu ideal “morrer
a tempo”. E muitas vezes se tentou interpor entre a morte e os seus
homens. Eis alguns dados elucidativos: após o combate de
Coolela, dizia “chega-se a ter inveja dos mortos”; depois de
Macontene: “Maria José que bela oportunidade perdi hoje de
morrer”; após a prisão do Maniguana, ao lamentar-se
de que a bala que ferira Vieira da Rocha na perna, não lhe
tenha acertado na cabeça; Falhou-me em Macontene desabafava,
com o seu intimo amigo Bernardo Pindela, referindo-se à morte
desejada, “porque os pretos não sabem atirar, falha-me agora
a guerra do Transval. Só resta o fuzilamento no Rossio”; e
em passagens da nunca por demais citada carta ao seu príncipe.
“Do cativeiro infamante salvou-o a morte, única libertadora
invencível porque não há algemas que prendam um
morto”; e “... nomeado por Deus, só ele o pode render e
então envia-lhe a morte a chamá-lo ao descanso”.
É ainda Mouzinho que escreve,
ao evocar o Natal que ele passou em Languene na véspera da
partida para a jornada de Chaimite:
“Tivesse eu a esperança de
outro Natal semelhante e veria correr os anos sem desgosto, olharia
cheio de animo para a vida, sem a considerar apenas como um caminho
lento mas seguro para a morte, consoladora suprema do que se sofre
neste mundo, destruidora providencial de quantos enfados, desgostos e
desilusões.
E dele também disse o também
grande militar, general Gomes da Costa:
“... desse grande soldado chamado
Mouzinho de Albuquerque que teve a coragem de se meter na sepultura
quando começou a derrocada que conheceu não poder
sustar ...”
E até na morte, quis Mouzinho
demonstrar a sua determinação e perfeccionismo.
Possuindo um revolver regulamentar, usou um outro, “Bulldog”, de
calibre (45) superior e velocidade inicial mais lenta a fim de ter a
garantia que não falhava (munições que comprou
na rua do Ouro, na casa Reynolds).
Mesmo assim o suicídio
continuou pelos tempos fora, a constituir um enigma para muitos e a
frase do seu intimo amigo Conde de Arnoso, ao afirmar que tinha
morrido de “Mouzinhice”, não ajudava a esclarecer o
mistério.
Três cartas expedidas no dia da
sua morte uma à sua mulher, outra ao Conde de Tarouca –
escrita no Turf Club -, e a terceira à Rainha D. Amélia,
esclareceriam, por certo, o mistério. Mas a primeira foi para
o túmulo com D. Maria José; a segunda foi queimada e
nunca lida, após a morte do seu destinatário por
decisão testamentária e a última desapareceu,
sendo encontrada, mais tarde na Torre do Tombo. Dizia:
“Minha Senhora
Perdoe-me Vossa Majestade e não
me ache cobarde pelo que fiz. Mas ser tido em mau conceito, ser
desprezado é mais do que posso. Não creio que o
suicídio nestas circusntâncias não seja um
direito. Minha Senhora! Vossa Majestade nada perde senão um
homem que no seu serviço fazia tudo e de tudo era capaz. Mas
não poude ser. Paciência.
Perdoe-me Vossa Majestade e reze por
mim, se acredita que existe alma. Eu não acredito. Beijo as
mãos de Vossa Majestade cheio como sempre de reconhecimento e
dedicação.
Seu Maior criado
Mouzinho de Albuquerque”.
Foi no entanto a Rainha D. Amélia
que nutria especial afeição por Mouzinho que melhor
levantou o véu do mistério, no livro que escreveu antes
da sua morte: “Eu, Amélia, Rainha de Portugal.” Por ele
ficamos a saber que era convicção da soberana que
Mouzinho pretendeu com o seu sacrifício, pôs fim
definitivo às atoardas postas a correr e que atentavam contra
a honra de ambos.
Num balanço rápido pode
afirmar-se que Mouzinho foi sobretudo um português e patriota,
outra característica que nos faz muita falta nos tempos que
correm.
Joaquim Mouzinho – O
Militar
“Este reino é obra de
soldados”
Mouzinho de Albuquerque
(in, carta a S. Alteza Real o Príncipe
D. Luis Filipe de Bragança).
A carreira militar de Mouzinho,
ilumina-se através das seguintes acções
militares. Todos elas vitoriosas:
participando no combate de Coolela e
ocupação do Manjacaze;
Comandado pessoalmente:
- o golpe de mão sobre Chaimite
e aprisionamento do Gugunhana;
- a pacificação do
Maputo;
- a campanha dos
Namarrais onde se travaram os combates de Mujenga, Naguema, Ibrahimo
e Mucuto-Munu;
- a campanha de
Gaza onde se registaram os combates de Macontene, Mapulanguene e
Calapati;
- as campanhas
da Zambezia em 1897 e 98.
Em todas estas acções
que espantaram o mundo, tendo em conta os nossos muito limitados
recursos e as derrotas que outros mais fortes que nós, tinham
sofrido, e cujo espírito é ilustrado pelo seguinte
diálogo, que antecedeu o combate de Magul:
“guia civil, António:
- meu capitão,
6500 negros, são muitos negros ...”
Paiva Couceiro:
- “mas 275
portugueses também são muitos portugueses
Em todas estas acções
Mouzinho demonstrou as suas extraordinárias qualidades de
chefe e de militar das quais se destacam a sua serenidade e bravura
debaixo de fogo, como é ilustrado pela sua postura na batalha
de Coolela fumando charuto à direita do Coronel Galhardo, que
tinha à sua esquerda o Tenente Pinheiro, que empunhava a
primeira bandeira que acompanhou as forças expedicionárias
em África e que está hoje à guarda da Sociedade
de Geografia. Mouzinho viu o seu cavalo ser morto nesta acção.
Além de corajoso, era intrépido
e bravo. Recorde-se a famosa carga de Macontene em que Mouzinho sai
do quadrado à frente dos seus 50 lanceiros, levando apenas um
... stick! Mas sabia ser temperado; quando em Mujenga intentava
liderar uma perigosa carga, foi detido por Gomes da Costa que lhe
chamou a atenção de que os seus deveres de comandante o
impediam de se arriscar tanto. Mouzinho apesar de contrariado acatou
o alvitre.
Mouzinho tinha, enfim, um conjunto
alargado de virtudes militares: iniciativa, capacidade de decisão,
sangue frio, estoicismo etc. comandava pelo exemplo e tinha estofo de
general:
Aliava a visão estratégica
á flexibilidade táctica as quais eram suportadas por
vasta cultura e capacidade intelectual e organizativa. E punha em
tudo a mais estrita ética.
Mouzinho não estava apenas
eivado de espírito militar: ele era o espírito militar,
como bem demonstrado por mais uma passagem da carta, tantas vezes
citada:
“Porque ser soldado não é
arrastar a espada, passar revistas, comandar exercícios,
deslumbrar as multidões com os doirados da farda. Ser soldado
é dedicar-se por completo à causa pública,
trabalhar sempre para os outros”
Mouzinho de Albuquerque
(in carta ao Príncipe D. Luis
Filipe de Bragança)
Mouzinho não deixava nada ao
acaso e preparava as suas acções. Antes de ser
mobilizado para Moçambique, estudou as campanhas que outras
potências europeias já tinham realizado em África
e aconselhava-se com quem sabia, nomeadamente Caldas Xavier. Obtinha
informações sobre o inimigo, o armamento e as tácticas
e tentou preparar o seu esquadrão o melhor possível
para o que ia encontrar e em fazer dele “uma boa tropa”. Quando
embarcou já tinha ideias assentes sobre como se deveriam
processar as operações e disso deu conta em artigos que
escreveu no jornal Novidades e expôs o que pensava ao próprio
ministro do Ultramar. Mas não o conseguiu fazer ao governador
de Moçambique António Ennes, quando aportou a Lourenço
Marques. A nomeação de Ennes tem uma história
curiosa: Quando os Vátuas cercaram Lourenço Marques, em
1894, o governo português não sabia muito bem o que
fazer. Ennes estava em Lisboa e era jornalista, na altura. E como tal
zurzia o governo. D. Carlos chamou-o e disse-lhe: “Se tu dizes tão
mal do governo é porque és capaz de fazer melhor”, ao
que aquele respondeu, afirmativamente, desde que o governo lhe desse
plenos poderes. O rei convenceu o governo a nomeá-lo
Comissário Régio. António Ennes, que chegou a
Moçambique em Janeiro de 1895 não tinha experiência
de África nem percebia nada de tropa, mas teve a inteligência
e a humildade de ir escolher os melhores oficiais que havia na
Marinha e no Exército. As operações que vieram a
ser planeadas estão assim, competentemente delineadas (e já
tinham começado, tendo-se ferido o combate de Marracuene, em 2
de Fevereiro) e ajustavam-se ao pensamento de Mouzinho, que
entretanto chegou em Maio. Este, porém, não gostava, de
Ennes, embora nunca deixasse transparecer isso em público.
Mas com os seus íntimos
tratava-o por “chungo-congolo”, expressão depreciativa que
no dialeto Quitonga, de Inhambane, quer dizer, europeu grande.
Mouzinho era teimoso acreditava no valor dos militares e não
gostava em geral dos paisanos, especialmente dos políticos,
que acusava de terem duas caras. Sem embargo, acabou derrotado por
eles.
Finalmente, Mouzinho era um inovador.
Sendo o primeiro a utilizar e a desenvolver o conceito de armas
combinado, utilizando o movimento, o choque e a manobra e adequando a
infantaria, a cavalaria, a artilharia, as metralhadoras, a
engenharia, a intendência e até a marinha, às
necessidades de cada acção; desenvolveu novas tácticas,
como foram por exemplo, as cargas de cavalaria em mato cerrado
(contra tudo o que se ensinava); e a formação de
pequenos grupos de atiradores que procuravam limpar o terreno à
volta do quadrado. E a campanha de Gaza foi considerada por numerosos
especialistas, a mais bem concebida e levada a cabo, de todas as que
se realizaram no Sul da África. Este espírito de
inovação e gosto pelo risco são características
que muito fazem falta nos dias que correm ...
Pode-se considerar como epilogo da
vida militar activa, de Mouzinho a ordem à força armada
do exército da África Oriental datada de 30 de Julho de
1898, após a sua demissão de Comissário Régio.
Eis um pequeno excerto:
“Srs. Oficiais, oficiais inferiores
e mais praças desta guarnição ...
Tenho a consciência que,
enquanto estivestes sob as minhas ordens, não teve o vosso
brio de soldados portugueses que sofrer a afronta de ver pactuar com
rebeldes, poupar o castigo a traidores, nem recuar perante os
inimigos de El-Rei e da Pátria. Entregando o comando resta-me
a esperança de que continuem a manter-se intactas nesta
província a honra da nossa bandeira e as gloriosas tradições
do Exército e da Armada portuguesa”
Caros leitores, que grande contraste
encerra esta missiva com muitos outros exemplos que conhecemos! ...
Mouzinho o
administrador
Mouzinho, o herói militar, veio
a revelar-se também como um excelente administrador e, como
nos outros campos, também neste estava à frente do seu
tempo. Esta fama obteve-a como Comissário Régio em
Moçambique, nomeação algo forçada pelo
rei, não sem que tivesse de ultrapassar alguma oposição
surda de políticos influentes. A sua fama deveu-se não
só ao trabalho desenvolvido mas também ao modo como
decorreu a sua demissão do cargo. Mouzinho, porém tinha
já basta experiência dos assuntos ultramarinos, por ter
exercido o cargo de Secretário Geral, do Governo da Índia,
por três anos, a partir de 1886 e governador do Distrito de
Lourenço Marques entre 1890 e 1892. E conhecia ainda muito bem
o modo de funcionamento do Ministério da Marinha e Ultramar,
que se veio a revelar o seu pior inimigo.
Mouzinho era grande adepto dos métodos
de administração colonial inglesa e pretendeu impôr
as ideias de descentralização administrativa em África
que apenas vieram a ser adoptados, e por pouco tempo, após a
Republica, ensaiados em 1914 e reforçados em 1920, com a
nomeação de Altos Comissários para Angola e
Moçambique.
O seu pensamento é bem,
ilustrado pelo seguinte extracto de uma circular enviada aos
governadores de Distrito, em 29 de Julho de 1896:
“A grande distância e
morosidade e pouca frequência de comunicações e o
pouco conhecimento e defeituosa compreensão que há na
Europa das necessidades e circunstâncias mais atendíveis
nos países do Ultramar, tornam improfícua, quando não
nociva, a administração directa do governo da Metrópole
nas colónias”.
E aqui está outro ponto
importante que podemos aproveitar para os dias de hoje, a dificuldade
em descentralizar, ou, fazendo-o a incapacidade que tem sido
demonstrada em fiscalizar a autoridade delegada. E temos numerosos
exemplos destes no Ensino, na Saúde, na Administração
do Estado, etc. Enfim uma questão que percorre
transversalmente a sociedade portuguesa consequência directa da
falta de autoridade que é o problema número um, com
que se debate o país. Cito mais uma vez Mouzinho:
“... mais ensejo dera de provar que
sabia, custasse o que custasse, obedecer ao que lhe era ordenado e
que também sabia, doesse a quem doesse, fazer cumprir as
ordens que dava”
Mouzinho anteviu e vislumbrou as reais
intenções inglesas relativamente a Moçambique e
tomou as suas medidas, exactamente o contrário daquilo que os
sucessivos governos de hoje fazem relativamente à União
Europeia e sobretudo em relação à Espanha. Agem
como se Portugal não tivesse interesses a defender que as
restantes potências são todas nossas amigas e que as
ameaças são coisas do passado. Não cuidam de ter
um sistema de informações minimamente capaz e nem
sequer aprendem com os percalços do passado, em que a falsa
posição do governo francês perante nós,
aquando do conflito da Guiné-Bissau, é um dos exemplos
mais recentes.
Muita da configuração
actual de Moçambique se deve a Mouzinho, que viu o seu sonho
de poder continuar o engrandecimento da província, coarctado
pelo decreto lei de 7 de Julho de 1898, que lhe cerceava a autoridade
como governador. De imediato se demitiu, demissão apenas
aceite depois de algumas tentativas para o demover. A aceitação
do “statuos quo” pelo rei, causou alguma mágoa no nosso
herói, como é revelado na sua correspondência
para o Conde de Arnoso, seu particular amigo e secretário de
D. Carlos.
A carta que escreveu ao Presidente do
Conselho, Luciano de Castro é mais um documento de grande
nobreza de carácter e rara altivez, que contém verdades
como punhos, e constitui um libelo contra a política dos
mediocres.
Nela Mouzinho desmonta todas as
intrigas e conluios de bastidores, daqueles que conspiravam contra a
sua pessoa e o bom governo de Moçambique. Mouzinho
desafronta-se. Mas a carta é também uma justificação
que sentiu dever dar, ao seu Rei e ao povo português que nele
tinham confiado, por via da sua renúncia ao cargo.
Numa atitude única, todos os
principais colaboradores do Comissário Régio,
demitiram-se com ele. A carta era também na declaração
de guerra aos políticos e José Luciano de Castro ainda
tentou, junto do Rei, levar Mouzinho a Conselho de Guerra. Mas este
escusou-se alegando que
“não haveria no exército
português oficiais que se prestassem a juizes de semelhante
réu”.
Uma última carta escreveu
Mouzinho antes de abandonar Moçambique. Dirigiu-a ao
Conselheiro Álvaro da Costa Ferreira, seu sucessor no governo
da província.
É mais um notável
documento em que vem ao de cima a sua integridade e saber. Nele
Mouzinho coloca o novo governador ao corrente da situação
do território ao mesmo tempo que se permite dar-lhe alguns
conselhos fundados na sua experiência.
E bem se pode dizer que seguiu a ordem
de D. João IV ao vice-rei da Índia Conde de Sarzedas:
“Dareis a posse do dito Governo e as
notícias e informações que julgardes
convenientes ao meu serviço e ao bem e segurança desse
Estado”
Da dita carta vamos escolher três
trechos que nos dão uma ideia do que era a vida em Moçambique
naqueles tempos e das preocupações de Mouzinho.
“Uma das coisas que pior regulada
andava nesta Província ... era a administração
da justiça aos indígenas, para com quem, segundo a lei
vigente, se devia proceder como para os europeus. Era impossível
considerar este absurdo, pois cada estado de civilização
dum povo corresponde o conjunto de leis por que se deve reger e não
há pior ilusão do que supor que pela simples aplicação
de leis e regulamentos inadequados se passa do estado de selvajaria
para o de civilização completa”.
Este trecho do final do século
XIX traz-nos duas reflexões apropriadas para o inicio do
século XXI, uma de ordem internacional e outra de âmbito
interno. A primeira sendo a de que os países do chamado
primeiro mundo, continuam a querer impor a Democracia como ela é
entendida no Ocidente, a numerosos povos da África, Ásia
e América Latina que não estão preparados para
ela, alguns deles vivendo ainda no pós Neolítico ou na
baixa Idade Média. E intenta-se tal desiderato tal como se a
Democracia fosse mézinha para todos os problemas; quanto à
coisa doméstica, semeou-se o país de leis pouco
apropriadas aos usos e às gentes, eivados de idealismos
bacocos, baseados na “Teoria do Bom Selvagem” e atravessadas por
utopismos fora das realidades originadas nos sobreviventes do Maio de
68, em França e afins. Piorou-se o quadro desantorizado as
polícias e permeabilizando o acesso à magistratura de
uma quantidade de meninos e meninas que ainda nem sequer sabem o que
é a vida. Isto claro, sem falar da organização
superior da justiça que origina conflitos de competência
constantes, resultando de tudo isto uma barafunda geral, a
desmotivação dos agentes, a paralisia dos tribunais e o
facto de ninguém, aparentemente, em Portugal se preocupar com
o fazer-se justiça e com a prevenção do crime, e
satisfazer-se apenas com o exercício deletério do
Direito.
Mouzinho tinha razão, mas
também ninguém lhe ligou.
“Os piores inimigos para a sua
administração nesta Província são os
especuladores que sem sacrifícios de capitais, que não
têm, nem trabalhos, e fadigas em que não são
capazes de se meter, pretendem enriquecer à custa da
Província, que nada lhes deve, alheando-a a estrangeiros cujos
capitais conseguem assim aliciar para á sombra deles, em jogos
de bolsa e golpes de agiotagem, adquirirem a cobiçada
riqueza”.
A que se pode acrescentar uma outra
frase do grande apóstolo da Índia, S. Francisco Xavier:
“No acabo de admirar
los nuevos modus y tiempos, sobre las comunes y regulares que há
inventado la avaricia de conjugar este verbo – Rapio, Rapies”
Que dizer de tudo isto? Não
lhes sugere uma grande similitude com o presente?
Não queria deixar de vos contar
um episódio – também ele revelador do espírito
de Mouzinho -, que se passou com o consul alemão em Lourenço
Marques. Este, que nos era hostil, ao assistir à passagem de
uma procissão, enterrou o chapéu na cabeça.
Tal facto originou o apedrejamento das
janelas do consulado por uma multidão irada. Perante a queixa
do cônsul, o governo português enviou a Mouzinho
instruções para que fosse apresentar desculpas, o que
este depois de informado de como as coisas se passaram se recusou a
fazê-lo enviando o seguinte telegrama: “Cumprirei as ordens
de V. Exª, mas perante tanta inépcia e cobardia, peço
a minha demissão”. Intervém o Rei e pede a Mouzinho o
sacrifício de cumprir as instruções.
E em atenção ao
soberano, Mouzinho, no dizer de Aires de Ornelas “... cumpriu a
ordem governamental por modo tão insólito que as
desculpas mais foram manifestações de altivez”.
Mas quando dias depois, Mouzinho
embarcava em direcção ao Norte despediu-se
afectuosamente de todo o corpo consular, excepto do consul alemão
que deixou de mão estendida.
De facto é preciso ter brio e é
preciso ter vergonha.
Um último aspecto que Mouzinho
focou ao seu sucessor:
“As companhias recrutavam-se de
indígenas vadios, agarrados a cordel em Angola e na própria
província. O resultado de tam mau recrutamento era serem os
soldados da guarnição uma quadrilha de bêbados
miseráveis, sem instrução nem disciplina de
espécie alguma, pessimamente armados e equipados e fardados à
europeia!... e é indispensável que o Governo desta vez
seja honesto, cumpra o contrato doutra forma nunca terá
recrutas em termos”
Conclusão
“Verba vólant
scripta mánent
exempla traúnt”
Aforismo Latino |
“As palavras voam
os escritos permanecem
o exemplo arrasta” |
Passou a ser chavão dizer-se
que já tudo foi dito sobre Mouzinho. E se calhar foi. As
pessoas dizem isto para tentar encontrar algo original para afirmar
ou como desculpa para o não terem feito.
E, no entanto, Mouzinho é uma
personalidade tão rica e a sua vida encerra tão grandes
exemplos e virtudes, e ensinamentos que falar dele, em diferentes
épocas, não é falta de imaginação
nem recordação de passadesimo serôdio. Não.
Trata-se de rejuvenescer conceitos de sempre – por intemporais -, e
de alimentar a alma com a comida do espírito, que é uma
necessidade intrinsecamente humana. E de apontar o caminho aos mais
novos.
A vida de Mouzinho é uma
bíblia. É uma bíblia de pundonor, de nobreza, de
altos valores políticos, morais e sociais e de bem fazer. Por
isso os seus escritos ficam e o seu exemplo arrasta.
É mister terminar.
Pretendia fazê-lo, porém,
deixando uma certeza e fazendo um apelo. A certeza é esta:
Mouzinho continuará vivo e lembrado através dos tempos
e dos seus detractores e dos maus políticos, ninguém
falará deles nem fixará o nome, a não ser para
serem apostrofados.
Quanto ao apelo, ele prende-se com o
pagamento de uma divida que a nação portuguesa tem para
com Mouzinho e sua esposa e que é esta: cumprir o seu desejo
de ser sepultado no Mosteiro da Batalha, onde foi baptizado, desde
que sua mulher pudesse ficar a seu lado.
Creio que os seus familiares não
se iriam opor a semelhante desígnio que devia ser de todos
nós.
E se a Mouzinho assiste todo o
direito de repousar na Batalha, não menos direito goza sua
mulher de o acompanhar.
D. Maria José Gaivão
Mouzinho de Albuquerque foi esposa amantissima e dedicada que sempre
acompanhou seu marido mesmo nas condições mais
difíceis, chegando a chefiar um hospital de campanha no
Chibuto onde orientou e ajudou nos cuidados a prestar aos feridos. É
pois digna de ombrear com as várias Filipes de Vilhena e
Marianas de Lencastre, da nossa História. E seria também
um tributo que a Nação prestava a todas as mães
de Portugal que seguravam a família na retaguarda, quando a
diaspora portuguesa espalhou, durante seis séculos, os seus
filhos e maridos pelos quatros cantos do mundo.
E como epitáfio para o herói,
sugiro a ideia do seu íntimo, Conde de Aruoso que defendeu
para tal, no Parlamento, as palavras de D. Carlos, quando soube da
sua morte:
“De Mouzinho ficará sempre a
memória do homem que prestou ao País e ao seu Rei os
mais relevantes serviços”
Cumulativamente, dever-se-ia
transformar a quinta de Mouzinho, na Batalha num Museu. E quanto à
sua estátua que desde 1940 se encontrava uma praça de
Lourenço Marques, já ouvi dizer que se deveria
transportá-la também, para a Batalha.
Permito-me discordar, por duas razões
principais: primeiro porque Mouzinho também pertence à
História de Moçambique, território que a ele
muito deve e que, sem a sua acção, não seria o
que é hoje. Por isso é importante que Mouzinho lá
fique, para lembrar ao povo moçambicano, isso mesmo. Por outro
lado, porque é do nosso interesse. Apaziguados eventuais
fricções da História, importante se torna que
ambos os povos, que em tempos formaram uma mesma nação,
tomem consciência do que os une de molde a perspectivar um
melhor entendimento e cooperação futura. E se se
pretender ter uma estátua de Mouzinho, pois que se faça
outra.
Mouzinho pode ombrear, salvo as
distâncias da canonização, com D. Nuno Álvares
Pereira.
Fica bem a cavalaria ao lado da
infantaria. Como devem estar os verdadeiros camaradas de armas.
Para terminar,e sobre este assunto,
bem gostaria de lançar o grito de Mouzinho, ao quadrado,
quando regressava da carga de cavalaria em Macontene: “Rapazes esta
partida está ganha; viva sua Majestade El-Rei!
________________________________
[1] O cavalo do Coronel Galhardo, Comandante da coluna norte,
chamava-se “Mike” e tinha sido comprado por Aires de Ornelas, no
Transval, por 35 libras. Este magnífico animal veio a passar
para a posse de Mouzinho que com ele fez toda a campanha dos
Namarrais.
________________________________
ANEXO
CRONOLOGIA
1855
– Nasceu Mouzinho de Albuquerque na Quinta da Varzea, freguesia de
S. Maria da Vitória no concelho da Batalha, a 12 de Novembro.
1871 – A 23 de Novembro, com 16 anos, assenta praça como
soldado no Regimento de Cavalaria 4; frequenta de seguida a Escola
Politécnica e a Escola do Exército, onde concluiu o
curso de cavalaria.
1876 – Promovido a alferes graduado; continua a estudar em Coimbra,
nas faculdades de Matemática e Filosofia, sendo transferido
para o Regimento de Cavalaria n.º 6
1884 – Promovido a Tenente, em 31 de Outubro, e no mesmo mês
nomeado regente de estudos no Real Colégio Militar.
1886 – Embarca para a Índia, a fim de fiscalizar o caminho
de ferro e o Porto de Mormugão, tenso sido graduado em
capitão. Durante cerca de três anos foi Secretário-Geral
do Governo da Índia.
1890
- Nomeado governador do distrito de Lourenço Marques,
em 10 de Julho.
- Promovido a capitão em 12 de Setembro.
1892
– Regressa ao Reino em Abril;
- Colocado no
Regimento de Cavalaria n.º 8, em Castelo Branco e depois no
Regimento de Cavalaria n.º 4 onde ficou até Janeiro de
1895.
1895
– 2 de Fevereiro – combate de Marracuene;
- Apresenta-se
no Regimento de Lanceiros n.º 1, em Janeiro, a fim de comandar o
esquadrão expedicionário a Moçambique, para onde
embarca a 15 de Abril;
- Mouzinho chega em Maio, a Moçambique;
- Setembro, combate de Magul (275 portugueses contra 6500 vátuas);
- 7 de Novembro combate de Coolela (300 portugueses contra 6000
vátuas);
- 26 de Dezembro, acção sobre Chaimite;
- 25 de Novembro, - nomeado Comissário Régio;
- 10 de Dezembro, nomeado Governador Militar do Distrito de Gaza.
1896
– Fevereiro e Março, pacificação do
Maputo;
- 19 de Outubro,
combate de Mujenga;
. Promovido por distinção
a Major, em 17 de Março;
-
Nomeado governador de Moçambique, por decreto de 25 de
Novembro.
1897
– Negoceia com o Transval a
primeira convenção sobre o trabalho emigrante;
- Desembarca em
Lisboa a 14 de Dezembro onde foi recebido festivamente e, mais tarde,
no Porto, a 16 de Janeiro nomeado Ajudante de Campo honorário;
convidado para o Conselho de sua Majestade; Aio do Príncipe
Real D. Luis Filipe e oficial mor da casa Real, por inerência.
1898
– 23 de Julho escreve uma carta ao presidente do Conselho de
Ministros, conselheiro José Luciano de Castro, solicitando a
exoneração de Comissário Régio em
Moçambique;
- 30 de Julho
escreve uma carta ao seu sucessor Conselheiro Álvaro da Costa
Ferreira no governo de Moçambique, expondo a situação
da Província;
- Decreto de 7 de Julho, do Ministério da Marinha e Ultramar
que restringia as funções dos Comissários
Régios;
- Exonerado do Comissário Régio em Moçambique,
por decreto de 30 de Julho.
1901
– Promovido a tenente coronel do estado-maior;
- Escreve a
célebre carta ao Príncipe D. Luis Filipe de Bragança.
1902- Faleceu a 8 de Janeiro, com 46 anos. |