| Notas sobre a “Ideologia”*
por Miguel
Freitas da Costa
A
“ideologia” é um termo ambíguo, que nos habituámos
a usar entre aspas. Tem dias; como o suposto relógio de ouro
de uma história de André Brun, às vezes
garantem-nos que é ouro do melhor quilate, outras vezes que
não passa de metal dourado. Para muitos de nós foi
sempre um termo pejorativo, e não só por que se trate
de uma “análise de ideias abstractas que não
corresponde à realidade dos factos”(Cândido de
Figueiredo). Também porque uma “ideologia” é em
grande medida, nesse sentido, o pensamento “pronto-a-vestir” dos
que não querem pensar. Esconde sempre uma intenção
mais ou menos inconfessável: há na palavra uma
conotação de simplismo, de má-fé, de
manipulação. Expressão “política” por
excelência, no pior sentido da política: um “ideólogo”
é um propagandista ligeiramente melhorado. O domínio da
“ideologia” é o do slogan, da frase de efeito para
“as massas”, do mínimo denominador comum, do sound
bite. Não há “ideologias” boas.
A
“ideologia” não nasceu assim. Nasceu, segundo os doutores
na matéria, exactamente como outros engenhos terríveis
do nosso tempo, nimbada da doce promessa de futuros melhores. E como
quase todos os grandes flagelos do século passado, nasceu da
Ilustração e da Revolução Francesa e
cresceu e aperfeiçoou-se no “estúpido século
XIX”: o triunfo da Razão. Conforme ensina – ponhamos por
caso - David McLellan (Ideology,1995), a palavra foi inventada
em 1797 por um amanuense da Revolução com o improvável
e aristocrático nome de Antoine Destutt de Tracy. Foi nos
primeiros anos do século XIX que ele publicou os seus Éléments
d’idéologie (1801-1815). Era então, com
simplicidade e optimismo, a maravilhosa “ciência das ideias”.
Tinha um sentido positivo. Não por muito tempo. Logo Napoleão,
mal se fez Imperador, começou a embirrar com ela e a falar,
com desprezo, dessas “nebulosas metafísicas”.
Foi Marx
quem fixou a definição de “ideologia” como
cristalização intelectual e social das relações
de poder e instrumento das “classes dominantes”, ligada ao
conceito de “falsa consciência”. Mas em fins do século
XVI - como assinala um estudo de Michael Rosen “sobre a servidão
voluntária” - já Boécio equacionara em termos
semelhantes o problema de como e porquê os muitos obedecem aos
poucos, quando são mais fortes, por ser muitos, e é do
seu interesse rebelar-se contra essas minoritárias “classes
dominantes” (mas será realmente do seu interesse? – Ah! as
petições de princípio...). Há muito que
nada de verdadeiramente novo existe.
Mais
tarde, o feitiço virou-se contra o feiticeiro e, no século
passado, com Hannah Arendt e outros autores, a “ideologia” foi
considerada por definição de esquerda e associada a
“totalitarismo”. Como tinham temido a seu tempo os
“conservadores” e os “reaccionários”, verificava-se
que a aplicação da férrea e implacável
lógica da Ideia à anfractuosa sinuosidade do real era a
receita das grandes catástrofes políticas do século.
“O que é próprio do pensamento ideológico é
querer criar um homem cuja marca distintiva seja precisamente nada
ter de comum com o homem tal como ele existiu até então.”
- escreve Claude Pollin em Le totalitarisme, (“Que
sais-je?”, 1982). Houve uma fase do pensamento político
contemporâneo em que esteve na ordem do dia “o fim da
ideologia”, ora com ponto de interrogação – como
para o Raymond Aron de L’opium des intellectuels, 1955 - ora
sem ele, como em The end of ideology, 1960, de Daniel Bell. Em
qualquer caso, essa “ideologia” de que se falava era
definitivamente uma coisa da “esquerda” – e era do fim do
império político e intelectual das criações
da esquerda que se falava quando se falava do fim dela.
Em Le
pouvoir pur, Jean Baechler, autor de um livro indispensável
sobre “os fenómenos revolucionários” e de outros
notáveis ensaios de filosofia política, tem uma
excelente síntese desta questão. Contrapõe ele
regimes “tradicionais” e “ideológicos”: “Tanto num
caso como noutro temos que o poder está ao serviço de
um plano. Mas num caso, há um plano intemporal, dado para toda
a eternidade, no outro um plano que tem de ser executado num momento
futuro. Num e noutro caso o poder usa a força, mas num caso
para corrigir e manter, no outro para destruir e desarticular, para
fundar uma ordem radicalmente nova. Um regime ideológico tem
todas as probabilidades de se transformar num regime de força
porque o poder tende a transformar-se de meio em fim.” “O plano –
diz ainda Baechler - deixa de ser uma ideia a discutir ou uma regra
de acção para se transformar num projecto concreto a
realizar”. O Céu na Terra. Assim, H. Stuart Hughes, que
Russell Kirk cita no seu Conservatism – A Succint Description,
pode escrever que “o pensamento conservador é a negação
da ideologia.”
Há
quem lamente a suposta desaparição das ideologias – e
até quem ache indispensável à vida política
trazê-las de volta. Mas só pode ser por estarem a
confundir “ideologia” com ideias, princípios ou valores.
Em qualquer dos outros sentidos, não nos faz falta nenhuma.
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*(Edição
revista, corrigida e alterada de um texto publicado na revista Futuro
Presente, nº 42, datado do Inverno 1997/98)
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