Ano II - Nº 9, Setembro/Outubro de 2007
Alameda Digital
Ideologias
Notas sobre a “Ideologia”*

por Miguel Freitas da Costa

A “ideologia” é um termo ambíguo, que nos habituámos a usar entre aspas. Tem dias; como o suposto relógio de ouro de uma história de André Brun, às vezes garantem-nos que é ouro do melhor quilate, outras vezes que não passa de metal dourado. Para muitos de nós foi sempre um termo pejorativo, e não só por que se trate de uma “análise de ideias abstractas que não corresponde à realidade dos factos”(Cândido de Figueiredo). Também porque uma “ideologia” é em grande medida, nesse sentido, o pensamento “pronto-a-vestir” dos que não querem pensar. Esconde sempre uma intenção mais ou menos inconfessável: há na palavra uma conotação de simplismo, de má-fé, de manipulação. Expressão “política” por excelência, no pior sentido da política: um “ideólogo” é um propagandista ligeiramente melhorado. O domínio da “ideologia” é o do slogan, da frase de efeito para “as massas”, do mínimo denominador comum, do sound bite. Não há “ideologias” boas.

A “ideologia” não nasceu assim. Nasceu, segundo os doutores na matéria, exactamente como outros engenhos terríveis do nosso tempo, nimbada da doce promessa de futuros melhores. E como quase todos os grandes flagelos do século passado, nasceu da Ilustração e da Revolução Francesa e cresceu e aperfeiçoou-se no “estúpido século XIX”: o triunfo da Razão. Conforme ensina – ponhamos por caso - David McLellan (Ideology,1995), a palavra foi inventada em 1797 por um amanuense da Revolução com o improvável e aristocrático nome de Antoine Destutt de Tracy. Foi nos primeiros anos do século XIX que ele publicou os seus Éléments d’idéologie (1801-1815). Era então, com simplicidade e optimismo, a maravilhosa “ciência das ideias”. Tinha um sentido positivo. Não por muito tempo. Logo Napoleão, mal se fez Imperador, começou a embirrar com ela e a falar, com desprezo, dessas “nebulosas metafísicas”.

Foi Marx quem fixou a definição de “ideologia” como cristalização intelectual e social das relações de poder e instrumento das “classes dominantes”, ligada ao conceito de “falsa consciência”. Mas em fins do século XVI - como assinala um estudo de Michael Rosen “sobre a servidão voluntária” - já Boécio equacionara em termos semelhantes o problema de como e porquê os muitos obedecem aos poucos, quando são mais fortes, por ser muitos, e é do seu interesse rebelar-se contra essas minoritárias “classes dominantes” (mas será realmente do seu interesse? – Ah! as petições de princípio...). Há muito que nada de verdadeiramente novo existe.

Mais tarde, o feitiço virou-se contra o feiticeiro e, no século passado, com Hannah Arendt e outros autores, a “ideologia” foi considerada por definição de esquerda e associada a “totalitarismo”. Como tinham temido a seu tempo os “conservadores” e os “reaccionários”, verificava-se que a aplicação da férrea e implacável lógica da Ideia à anfractuosa sinuosidade do real era a receita das grandes catástrofes políticas do século. “O que é próprio do pensamento ideológico é querer criar um homem cuja marca distintiva seja precisamente nada ter de comum com o homem tal como ele existiu até então.” - escreve Claude Pollin em Le totalitarisme, (“Que sais-je?”, 1982). Houve uma fase do pensamento político contemporâneo em que esteve na ordem do dia “o fim da ideologia”, ora com ponto de interrogação – como para o Raymond Aron de L’opium des intellectuels, 1955 - ora sem ele, como em The end of ideology, 1960, de Daniel Bell. Em qualquer caso, essa “ideologia” de que se falava era definitivamente uma coisa da “esquerda” – e era do fim do império político e intelectual das criações da esquerda que se falava quando se falava do fim dela.

Em Le pouvoir pur, Jean Baechler, autor de um livro indispensável sobre “os fenómenos revolucionários” e de outros notáveis ensaios de filosofia política, tem uma excelente síntese desta questão. Contrapõe ele regimes “tradicionais” e “ideológicos”: “Tanto num caso como noutro temos que o poder está ao serviço de um plano. Mas num caso, há um plano intemporal, dado para toda a eternidade, no outro um plano que tem de ser executado num momento futuro. Num e noutro caso o poder usa a força, mas num caso para corrigir e manter, no outro para destruir e desarticular, para fundar uma ordem radicalmente nova. Um regime ideológico tem todas as probabilidades de se transformar num regime de força porque o poder tende a transformar-se de meio em fim.” “O plano – diz ainda Baechler - deixa de ser uma ideia a discutir ou uma regra de acção para se transformar num projecto concreto a realizar”. O Céu na Terra. Assim, H. Stuart Hughes, que Russell Kirk cita no seu Conservatism – A Succint Description, pode escrever que “o pensamento conservador é a negação da ideologia.”

Há quem lamente a suposta desaparição das ideologias – e até quem ache indispensável à vida política trazê-las de volta. Mas só pode ser por estarem a confundir “ideologia” com ideias, princípios ou valores. Em qualquer dos outros sentidos, não nos faz falta nenhuma.

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*(Edição revista, corrigida e alterada de um texto publicado na revista Futuro Presente, nº 42, datado do Inverno 1997/98)

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