NOVA FRENTE
O MUNDO É PEQUENO
por BOS
Eduardo Prado Coelho e Rodrigo Emílio são rapazes da mesma criação. Nados em Lisboa no ano pressago de 1944, um em Fevereiro e o outro em Março, estudaram juntos no Liceu Camões e matricularam-se a par no curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras.
Contava-me o desleixado Rodrigo que, no liceu, onde funcionava uma conhecida secção da Mocidade Portuguesa, foi várias vezes repreendido pelo exemplar Eduardinho, modelo de disciplina e aprumo no fardar. Foram ambos alunos de Virgílio Ferreira nos dois anos lectivos imediatamente anteriores à admissão universitária. O Rodrigo teve o bom (ou mau) sestro de inspirar a Prado Coelho o poema do postal abaixo, que chegou a ser publicado em 1963 nas páginas do «Diário de Lisboa».
Em certo dia em que andaram a vasculhar a biblioteca universitária, Eduardo descobriu um autor fascista (já então uma raridade nas estantes oficiais) e apresentou o exemplar ao amigo espantado: «Olha o que eu descobri, este é dos teus». Por essa altura, Eduardo e Rodrigo namoravam duas primas e iam muitas vezes os quatro ao cinema. Eles sentavam-se lado a lado, com as primas à ilharga. Durante a sessão retrucavam argumentos e interpretações da fita ante o pasmo mudo das cachopas. Com vinte anos no pêlo os rapazes já tinham os seus destinos traçados. Entrevia um sempre no enredo episódios da luta de classes e da exploração do homem pelo homem; o outro alcançava explicações mais espirituais e erguia-se a planos estéticos mais elevados.
Não sei se alguma vez se cruzaram depois de Abril. Eduardo foi Director-Geral da Acção Cultural logo em 1975 e depois Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris, estanciou pela Sorbonne, deu aulas, dirigiu o Instituto Camões, desmultiplicou-se em crónicas nos jornais, armazenou prémios e homenagens — foi um dos comissários culturais do novo regime. O Rodrigo seguiu o caminho do exílio, penou as agruras da honra e da fidelidade aos princípios de sempre, regressou ainda mais combalido — um "exilado do interior", a quem poucos ligavam e muitos tentaram calar. Fui testemunha, porém, de alguns gestos seus que, por nobres e raros, lhe definem o carácter. Quando um de nós incriminava Prado Coelho em termos mais grosseiros, o Rodrigo recusava sempre o libelo. Porventura em nome do livro descoberto na biblioteca, ou do poema, ou das idas ao cinema, ou por qualquer outro daqueles nadas com que aos vinte anos as amizades se acrescentam e se multiplicam. De sua boca ninguém conseguiu extrair uma injúria que fosse contra o Eduardo — mesmo quando o piparote se justificava por motivos de interesse público. E assim em silêncio permaneceu ele até ao fim do seu fim.
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