SÉTIMA ARTE
Pelo
Autor é que Vamos
por João Marchante
O criador
dos filmes é o realizador. Para que meio-mundo acreditasse
nisto, foi necessário os «jovens turcos» dos Cahiers du Cinéma produzirem vasta teoria sobre a
matéria, vertida em letra de forma em artigos na sua referida
revista. Deles, falaremos aqui um destes dias.
Cá
para mim, no entanto, quem tivesse «olhos de pensar» já
teria percebido, ao ver os grandes filmes da época de ouro de
Hollywood (por exemplo), que, embora agrupados em géneros —
categorias de produção industrial, mas também
estéticas —, as ditas fitas tinham uma «assinatura»,
toda ela «marca d’água» autoral, por parte do
realizador. Faça-se o teste: entremos numa sala vendados (sem saber ao que vamos, olhos e ouvidos tapados); depois, recuperados os dois sentidos, e após dois minutos de exibição em contacto áudio-visual com a película, tentemos adivinhar
quem é o seu realizador. Ah!, pois é. Parece-me que
quem for verdadeiramente cinéfilo — amigo do Cinema — e
tiver uma cultura filmográfica à altura, logo acertará
na mouche: Antonioni, Bergman, Hitchcock, Kubrick, e por aí
fora, têm marcas de tal forma fortes que ninguém que
ame verdadeiramente a Sétima Arte poderá confundi-los entre si.
Esta
conversa toda tem por objectivo servir de introdução a
uma abordagem — infelizmente pouco canónica para os padrões
académicos culturalmente correctos — da História
do Cinema através da Vida e Obra dos Autores. Bem sei que não
podemos ignorar as três grandes épocas: mudo, sonoro e
moderno; nem as principais correntes: expressionismo alemão,
impressionismo francês, mudo soviético, etc; nem tão
pouco os géneros clássicos, que atingem o paradigma nos
E. U. A. com os seus «géneros indígenas»: Western, Gangsters, Musical. Porém,
olhando mais longe, proponho que revisitemos esta História de
uma Arte (a «Sétima») com mais de cem anos, tendo
os realizadores — grandes mestres técnicos e criadores
estéticos — como fios-condutores.
Assim o
farei, já a partir do próximo número desta
revista, com «A», de Alfred Hitchcock. Até lá: suspense. |