Si non è vero…
por Manuel Brás
Estamos num tempo em
que abundam vocábulos e expressões ambíguas, que
as pessoas vulgarmente utilizam, mas cujo significado pode ser muito
variado, ou mesmo contraditório. Estou-me a lembrar do elenco
dos “direitos”, que dão para tudo e para o seu contrário.
O clima, sobretudo
desde que os políticos aí descobriram um filão,
de há 15 anos a esta parte, talvez na falta de melhores
causas, ou até para esquecer outras causas, entretanto,
perdidas, passou também a ser matéria alvo de
ambiguidades, de confusões, de meras hipóteses
catapultadas em dogmas inquestionáveis. Basta olhar para a
imprensa.
Assim, há
duas expressões recentemente consagradas: “alterações
climáticas” e “aquecimento global”, obviamente, por
causas antropogénicas.
Sucede que o clima
nunca foi fixo, sempre foi variável. Por outro lado, há
vários climas e não um só clima. O termo
“alterações” é ambíguo no sentido em
que alter significa outro, o que sugere (pelo menos em
português e não parece que a tradução
tenha sido assim feita por acaso…) a mudança para outro
clima, alegadamente cheio de catástrofes... É por isso
que prefiro utilizar o termo “variações climáticas”,
por ser mais rigoroso e objectivo.
Essas variações
climáticas seriam causadas por um aquecimento dito “global”,
devido a causas antropogénicas (actividades humanas,
especialmente a emissão de gases com efeito de estufa devido à
queima de combustíveis fósseis, à indústria
e agro-pecuária). Esse aquecimento seria responsável
pelo derretimento de gelos polares, pela subida do nível das
águas, pelo aumento e frequência de fenómenos
extremos como furacões, inundações, secas e
ondas de calor, pela extinção de milhões de
espécies, pela propagação de inúmeras
doenças… É a este cenário que, em sentido
lato, chamam “aquecimento global”. Como se a subida média
da temperatura à superfície, durante o séc. XX,
conduzisse indubitavelmente, daqui a algumas dezenas de anos, às
catástrofes anunciadas.
Aqui impõem-se
algumas perguntas:
1. Como
é esse aquecimento?
2. Como
se sabe que essas catástrofes vão mesmo ser frequentes
daqui a uns anos (10 ou 15, dizem alguns)?
3. Quanto
vale, realmente, a contribuição das actividades humanas
para essas variações climáticas?
4. Como
se explicam essas variações climáticas?
1. Se olharmos para
os registos do séc. XX verificamos que a temperatura média
à superfície aumentou 0,6-0,7ºC, o que se traduz
por um aquecimento. O que sucede é que os valores médios
não dizem o que se passou em cada local. Assim, a temperatura,
nos locais em que aumentou, não aumentou o mesmo nem ao mesmo
ritmo, tendo havido locais em que diminuiu, como aconteceu com a
película de gelo da Antártida entre 1982 e 2004 (dados
da NASA). De resto, o aumento médio no Hemisfério Norte
foi superior ao do Hemisfério Sul.
Aventa-se que esse
aquecimento é “sem precedentes”. Será mesmo? No
séc. XX houve três ciclos de variação de
temperatura – muito bem retratados nas capas da “TIME”: de 1910
a 1945, de aquecimento; de 1945 a 1975, de arrefecimento; de 1976 até
aos últimos anos, de aquecimento. Vamos ver o que nos reservam
os próximos 5-10 anos, pois serão elucidativos para
saber se continua uma certa regularidade nos padrões de
variação de temperatura ou não.
A este respeito
existem registos de épocas anteriores quentes, como na Idade
Média (Medieval Warm Period, séc. IX-X), em que se
cultivou a vinha na Inglaterra, coisa que hoje não acontece, o
Roman Warm Period (séc. II-III a.C.) ou o Minoan Warm Period
(séc. XIV a.C.). Isto é, o aquecimento verificado
durante o séc. XX enquadra-se dentro de ciclos de aquecimento
e arrefecimento que têm durado cerca de 1200 anos, de há
5000 anos para cá. Não admira, pois, que no séc.
XX a temperatura média tenha subido, pois que foi precedido
pela Little Ice Age, que teve o seu “epicentro” no séc.
XVII. Não basta, pois, falar indiscriminadamente em
aquecimento, sem o caracterizar, pois ele é explicável
dentro da variabilidade natural dos climas.
2. As previsões
catastróficas com que o mundo ocidental é bombardeado
todos os dias têm origem, principalmente, no IPCC
(Intergovernmental Panel on Climate Change), um órgão
que funciona sob a égide da ONU, meio político, meio
científico, que elabora relatórios periodicamente –
os últimos foram publicados em 2007 sob a forma de “Summary
for Policymakers”, o que, neste caso, significa que a
redacção é da responsabilidade dos políticos
do órgão, enquanto se aguarda pela publicação
do relatório científico na íntegra.
Este órgão
faz as suas previsões baseado em modelos computacionais, cujo
resultado (previsão) depende dos cenários e dos dados
que são introduzidos. Daí que alguns estudiosos
contestem o rigor (ou a falta dele) e a metodologia de tais
previsões, alegando que a ciência da modelização
climática ainda tem que “comer muito pão”, enquanto
outros questionam o “consenso” que se diz existir sobre a certeza
do peso das actividades humanas nas variações
climáticas, esquecendo que o consenso é uma categoria
política e não científica. Em ciência não
faz sentido o consenso, porque esta é demonstrativa, baseia-se
na evidência experimental.
A dificuldade da
demonstração da ciência climática está
em que o clima é uma realidade extremamente complexa de
estudar na medida em que depende de muitos factores: evidentemente,
da composição gasosa da atmosfera, mas também
depende da actividade solar, da maior ou menor incidência de
raios cósmicos, da dinâmica das massas de ar entre
regiões polares e temperadas, da frequência de
anticiclones e depressões, eventualmente, de desvios da
trajectória terrestre.
Assim, não
admira que cada vez que o IPCC elabora um novo assessment report surgem novas previsões… e novas correcções.
Exemplo paradigmático disto são as curvas de
temperaturas do último milénio apresentadas pelo IPCC
em 1990, que tem em conta o Medieval Warm Period e a subsequente
Little Ice Age, e em 2001, que, pura e simplesmente, os omite,
introduzindo o conceito de “hockey stick”, que abriu o
caminho para o tal aquecimento “sem precedentes”.
Apesar de toda a
histeria na imprensa quando em Fevereiro saiu o “Fourth
Assessment Report” (4AR), dizendo que a probabilidade das
actividades humanas induzirem variações climáticas
seria 90%, este revê em baixa as previsões do assessment anterior, de 2001, para o fim do séc. XXI: segundo os
modelos usados, as temperaturas médias deverão variar
entre 1,8 e 4,0ºC – quando a previsão anterior era de
1,4 a 5,8ºC – e o nível das águas do mar deverão
subir de 18 a 59 cm, cerca de um terço da previsão
anterior.
Outra correcção
do IPCC digna de registo neste último “Summary for
Policymakers” foi ter deixado cair o “hockey stick”.
A resposta à
pergunta encontra-se, pois, nos modelos, mais ou menos perfeitos,
imperfeitos, realistas ou utópicos, que são utilizados.
3. Não é
fácil responder com exactidão. Trata-se de algo muito
difícil de quantificar e, tanto quanto se sabe, ninguém
sabe ao certo. A razão está na complexidade dos
factores que influenciam, simultaneamente, o clima. Mas, se alguém
souber fazer, que o faça e demonstre. Porém, só
os modelos não bastam.
Quando vimos, lemos
e ouvimos a propaganda mediática – não tem outro nome
– sobre o chamado aquecimento devido ao efeito de estufa
“antropogénico” fica-se com a sensação que
apenas as actividades humanas já referidas emitem gases de
estufa para a atmosfera. Nada mais enganoso.
Apresenta-se, de
seguida, uma estimativa baseada em dados recolhidos em “Global
Warming Information Page” e “US Environmental Protection
Agency”, naturalmente corrigível, lamentando-se apenas
que tais medidas e resultados não sejam mais numerosos,
frequentes, acessíveis e conhecidos.
Estimativa
percentual das emissões de gases com efeito de estufa (GEE)
GasesNatural
(%)Antropogénico (%)Dióxido de
Carbono973Metano82-9010-18Protóxido de Azoto955CFC3466Total
(média ponderada)946
Como se vê, a
fracção antropogénica é diminuta em
relação às emissões naturais dos mesmos
gases. Obviamente, isso não impede que possa ter alguma
influência sobre o clima, mas não poderá ser
muito grande, nem maior que os outros 94%. O difícil é
quantificar. Mas há mais. O principal e mais potente GEE não
é habitualmente mencionado: o vapor de água. Porque
será? Alegam alguns que o vapor de água actua por
“feed-back” e não por “forçamento”. Não
é isso que está em causa. Mesmo que assim seja, não
deixa de ser o vapor de água o principal GEE.
Apesar das
dificuldades, alguns estudiosos defendem que a contribuição
dos GEE antropogénico para as variações
climáticas ronda, no máximo, os 2%, pois que, segundo o
IPCC, o “forçamento radiativo” devido aos GEE
antropogénico seria de 1,6W/m2, isto é,
cerca de 2% do “forçamento radiativo” natural, e que pode
ter uma relação com o aquecimento médio de 0,7ºC
durante o séc. XX, pois que 2% de 33ºC é a isso
que corresponde. No entanto, é pertinente a seguinte questão:
se não existissem emissões antropogénicas de GEE
no séc. XX, a temperatura média não tinha
subido?
Lugar destacadíssimo
no ranking de acusações ocupa o CO2.
Questionando pessoas sobre a concentração de CO2 na
atmosfera obtêm-se as respostas mais curiosas e absurdas. De
facto, ninguém tem a noção de que o CO2
corresponde apenas a 0,038% da atmosfera em volume, ao passo que a
concentração média de vapor de água é
quase 10 vezes superior (0,3%). O CO2 é apontado como o grande
agente do aquecimento. Sendo verdade que é um GEE, também
aqui não há “consenso”, na medida em que se é
admissível que o aumento de CO2 na atmosfera pode fazer
aumentar a temperatura, também é sabido que o aumento
de temperatura faz aumentar o CO2 na atmosfera, porque diminui a
solubilidade do CO2, e doutros gases, nas águas dos oceanos,
mares e lagos. A questão é saber o que é que
causa o quê. Alguns estudiosos defendem, com base em registos
dos últimos 400 mil anos que o aumento de temperatura precede
o aumento da concentração de GEE, em especial o CO2. E
o mesmo pode estar a acontecer desde a época da Revolução
Industrial, com a temperatura a aumentar desde o início do
séc. XVIII, altura em que ainda não se queimavam
combustíveis fósseis.
A tese que defende
que o aumento de CO2 é a causa significativa do aumento de
temperaturas no séc. XX tem ainda uma outra contradição
pela frente. É que entre 1945 e 1975 a concentração
de CO2 continuou a aumentar, ao passo que a temperatura média
baixou. Como é que isto se explica?
Este assunto merece
um aprofundamento, medições e estudos baseados na
realidade, subsequente, para quantificar com mais rigor o efeito
antropogénico e conhecer melhor os mecanismos que presidem à
dinâmica climática.
Parece não
haver dúvidas de que o factor antropogénico é
diminuto, suficientemente diminuto, e o rigor dos modelos e suas
previsões suficientemente débil, para justificar o
pânico e a loucura que os políticos e os media ao seu
serviço lançam pelo mundo.
4. Uma explicação
reside no já exposto “forçamento radiativo”, isto é
num aumento da fracção de radiação
térmica retida por um acréscimo de GEE na troposfera.
Como vimos, não se pode desprezar, à partida, esta
contribuição, que tem apenas em consideração
os equilíbrios térmicos entre a superfície
terrestre, a atmosfera e o exterior. Ao fim e ao cabo o “forçamento
radiativo” tem apenas em conta as influências do efeito de
estufa e da temperatura no clima.
Mas a questão
mais abrangente é esta: dependerá o clima só
destes factores?
Parece claro, e já
vimos, que não.
Uma outra
explicação, em meu entender mais dinâmica e
completa, reside na hipótese dos Anticiclones Móveis
Polares (AMP), desenvolvida pelo Prof. Marcel Leroux, que pretende
explicar a dinâmica climática do séc. XX em
moldes não tradicionais, tendo em conta também as
variações de pressão, a frequência de
anticlones e suas aglutinações, trocas de massas de ar
polar e meriodional, a contra-radiação celeste e
terrestre. Em concreto, explica o aquecimento ocorrido durante o séc.
XX na Europa, sobretudo a partir de 1975 para cá, com base num
concomitante aumento médio da pressão atmosférica
à superfície em todo o continente europeu,
relacionando-o com um aumento da frequência e aglutinação
de AMP que, em virtude da maior estabilidade anticiclónica
proporciona maior insolação e aquecimento. Esta
hipótese contraria e desmente o “forçamento radiativo
antropogénico”, pois se o aquecimento fosse devido a uma
crescente retenção de calor por EE a pressão
nunca aumentaria. Segundo esta hipótese, é o aumento de
pressão que conduz ao aquecimento e não o contrário.
Explica, assim, as variações climáticas com base
na dinâmica aerológica.
Aos leitores
interessados num ulterior aprofundamento, recomendo “Global
Warming – Myth or Reality”, Marcel Leroux, Springer Verlag
(2005).
Uma questão
epistemológica
Paralelamente ao que
a Ciência nos permite e não permite saber sobre as
variações climáticas, a forma como o assunto tem
sido tratado por políticos e figuras mediáticas parece
denunciar alguma pretensão de dirigir a Ciência e de a
subordinar a objectivos e interesses políticos e ideológicos.
A maneira como essas
pessoas pensam sobre a contribuição das várias
ciências para o estudo do clima denuncia uma “cambalhota”
epistemológica: primeiro desenha-se a conclusão, depois
vai-se à procura de factos que a corroborem; e os que não
corroborarem as conclusões previamente estabelecidas, nem a
ideologia que as suporta, são omitidos e rejeitados.
O Homem tem que ser
culpado das variações climáticas, então
encontremos dados que suportem tal desiderato.
A utopia é
pretender que o clima seja fixo e desenhado pela vontade humana. Ao
som de umas guitarradas.
Se as previsões
catastróficas de Al Gore forem tão rigorosas como as de
Paul Ehrlich nos idos de 60 e 70 a propósito dos horrores da
“explosão demográfica”, de certeza absoluta que
acerta em cheio.
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