A trági-comédia nacionalista
por F Santos
É uma premissa do meio nacionalista de
qualquer país europeu que “juntem-se dois nacionalistas e
temos desde logo uma cisão”. Numa tendência
auto-fágica de atomização, nacionalistas há-os
de todos os matizes e tendências: salazaristas, católicos,
pagãos, anti-colonialistas, racistas, anti-racistas,
democratas, anti-democratas, fascistas, anti-semitas, nazis,
anti-nazis, atlantistas, europeístas, isolacionistas. E, desde
há não muito anos, mais duas tendências
emergiram: os identitários e os nacional-comunistas.
Não
pretendemos aqui estudar a fundo ambas as tendências, apenas
caracterizar alguns dos aspectos que as distinguem.
Os identitários, de forte influência
francesa (um país com várias identidades regionais
muito variadas), pretendem defender a etnia de cada povo europeu,
ameaçada pela imigração (extra-europeia)
galopante. A sua tendência balcanizante é notória
pela defesa da auto-determinação de cada etnia. O seu
ideal seria uma Europa de pequenos estados, preferencialmente
homogéneos etnicamente, numa coincidência entre espaço
territorial, espaço político e etnia. Muitos não
gostam de o admitir mas nesta tendência Israel surge como um
exemplo a seguir, seja pela preocupação que manifesta
de preservar a “etnia” judaica (conceito algo equívoco
dadas as variadas origens dos actuais habitantes do estado hebraico),
seja pela forma “determinada” (eufemismo) com que se “defendem
dos árabes”, como se a situação no Médio
Oriente fosse equivalente à que vive a França
actualmente; num caso foram os árabes as vítimas de uma
“invasão” (se quisermos usar um termo muito usado pelos
identitários para descrever a imigração), no
outro foram os árabes os que imigraram.
Já aquilo a que chamei nacional-comunistas,
termo que não é adoptado pelos interessados, pretende
caracterizar outro fenómeno bizarro: o dos que se definem
nacionalistas e, na sua vertente anti-capitalista, simpatizam com
regimes ou partidos comunistas. Há os que admiram Enver Hoxha,
há os que olham com muito interesse para a Venezuela actual.
Há os que defendem a “acção directa” e vêem
nos Baader-Meinhof um exemplo a seguir (autêntico!). Longe vai
o tempo em que fascistas, católicos e muitos outros tentavam
definir uma “terceira via” (não estamos aqui a falar das
patranhas blairistas do New Labour), que respeitasse a propriedade
mas que impedisse a concentração dos meios de produção
e protegesse da miséria a população em geral.
Para quê perder tempo em reflexões se já existem
modelos (sic) anti-capitalistas concretos, nomeadamente
comunistas?...
Acompanhando o percurso de muitos antigos (?)
esquerdistas, nesta tendência há também os
filo-islâmicos: sendo o Islão (mas saberão eles o
que é o Islão?) uma religião que condena a
usura; havendo movimentos islâmicos claramente igualitaristas e
preocupados com as condições de vida das populações;
então, mais uma vez, para quê procurar o que já
existe? Temos, assim, uma tendência vermelha-verde:
comunista-islamista!
Escusado dizer que identitários e
vermelho-verdes nutrem uns pelos outros um ódio
particularmente ferino. O motivo já o adivinharam! Estes
nacionalistas, sempre prontos a abraçar modelos não-nacionais,
reproduzem no meio o conflito do Médio Oriente.
Uma tragi-comédia, portanto. |