Ano II - Nº 9, Setembro/Outubro de 2007
Alameda Digital
Ideologias
A trági-comédia nacionalista

por F Santos

É uma premissa do meio nacionalista de qualquer país europeu que “juntem-se dois nacionalistas e temos desde logo uma cisão”. Numa tendência auto-fágica de atomização, nacionalistas há-os de todos os matizes e tendências: salazaristas, católicos, pagãos, anti-colonialistas, racistas, anti-racistas, democratas, anti-democratas, fascistas, anti-semitas, nazis, anti-nazis, atlantistas, europeístas, isolacionistas. E, desde há não muito anos, mais duas tendências emergiram: os identitários e os nacional-comunistas.

Não pretendemos aqui estudar a fundo ambas as tendências, apenas caracterizar alguns dos aspectos que as distinguem.

Os identitários, de forte influência francesa (um país com várias identidades regionais muito variadas), pretendem defender a etnia de cada povo europeu, ameaçada pela imigração (extra-europeia) galopante. A sua tendência balcanizante é notória pela defesa da auto-determinação de cada etnia. O seu ideal seria uma Europa de pequenos estados, preferencialmente homogéneos etnicamente, numa coincidência entre espaço territorial, espaço político e etnia. Muitos não gostam de o admitir mas nesta tendência Israel surge como um exemplo a seguir, seja pela preocupação que manifesta de preservar a “etnia” judaica (conceito algo equívoco dadas as variadas origens dos actuais habitantes do estado hebraico), seja pela forma “determinada” (eufemismo) com que se “defendem dos árabes”, como se a situação no Médio Oriente fosse equivalente à que vive a França actualmente; num caso foram os árabes as vítimas de uma “invasão” (se quisermos usar um termo muito usado pelos identitários para descrever a imigração), no outro foram os árabes os que imigraram.

Já aquilo a que chamei nacional-comunistas, termo que não é adoptado pelos interessados, pretende caracterizar outro fenómeno bizarro: o dos que se definem nacionalistas e, na sua vertente anti-capitalista, simpatizam com regimes ou partidos comunistas. Há os que admiram Enver Hoxha, há os que olham com muito interesse para a Venezuela actual. Há os que defendem a “acção directa” e vêem nos Baader-Meinhof um exemplo a seguir (autêntico!). Longe vai o tempo em que fascistas, católicos e muitos outros tentavam definir uma “terceira via” (não estamos aqui a falar das patranhas blairistas do New Labour), que respeitasse a propriedade mas que impedisse a concentração dos meios de produção e protegesse da miséria a população em geral. Para quê perder tempo em reflexões se já existem modelos (sic) anti-capitalistas concretos, nomeadamente comunistas?...

Acompanhando o percurso de muitos antigos (?) esquerdistas, nesta tendência há também os filo-islâmicos: sendo o Islão (mas saberão eles o que é o Islão?) uma religião que condena a usura; havendo movimentos islâmicos claramente igualitaristas e preocupados com as condições de vida das populações; então, mais uma vez, para quê procurar o que já existe? Temos, assim, uma tendência vermelha-verde: comunista-islamista!

Escusado dizer que identitários e vermelho-verdes nutrem uns pelos outros um ódio particularmente ferino. O motivo já o adivinharam! Estes nacionalistas, sempre prontos a abraçar modelos não-nacionais, reproduzem no meio o conflito do Médio Oriente.

Uma tragi-comédia, portanto.

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